Além de responder
ao processo do mensalão, em que é acusado de
formação de quadrilha e corrupção
ativa, o petista ainda precisa esclarecer uma infinidade de
suspeitas que orbitam ao seu redor desde 2003
Como presidente do PT, José
Dirceu arquitetou a campanha que levou Luiz Inácio
Lula da Silva à Presidência da República.
Como ministro da Casa Civil, foi o homem forte do governo.
Na semana passada, o Supremo Tribunal Federal o reduziu à
condição de réu em processos por formação
de quadrilha e corrupção ativa. Dirceu terá
de provar à Justiça que foram inocentes seus
encontros com o lobista carequinha Marcos Valério e
com a direção dos bancos Rural e BMG, que financiaram
o valerioduto. Também terá de convencer o Supremo
de que o ministro Joaquim Barbosa cometeu uma injustiça
ao identificá-lo como o "chefe incontestável"
do bando do mensalão. Mas, fora da órbita do
mensalão, o ex-ministro tem muitos episódios
nebulosos a esclarecer. O mais recente veio à tona
na última semana. O doleiro Lúcio Funaro declarou
ao Ministério Público que Dirceu ou o PT recebeu
500 000 reais de propina pela indicação de diretores
para o fundo de pensão Portus.
Dirceu precisaria ser inquirido,
por exemplo, a respeito de sua amizade com o lobista Fernando
Moura. Durante o primeiro governo Lula, Moura participou de
operações suspeitas na Petrobras. Foi ele quem
ajudou a empreiteira baiana GDK a dobrar seus contratos com
a estatal. Fez a mesma mágica com a Alpina, que atua
na área ambiental. Na administração petista,
os seus contratos de prestação de serviços
com a Petrobras saltaram de 150 milhões para 600 milhões
de reais. Se for considerada também a compra de equipamentos
vendidos à estatal pela Alpina, a bolada sobe para
mais de 1 bilhão de reais um modelo de alpinismo
empresarial.
Outra relação
intrigante de Dirceu é com o advogado Antônio
Carlos de Almeida Castro, o Kakay. Renomado na especialidade
que leva o nome de embargos auriculares, Kakay foi indicado
por Dirceu para trabalhar com o banqueiro Daniel Dantas, do
Opportunity. Trabalhou tão bem que Dantas, logo depois
da contratação de Kakay, não demorou
a conseguir um empréstimo de quase 1 bilhão
de reais do BNDES. O advogado, aliás, é dono
do restaurante brasiliense que serviu de cenário a
uma performance jurídico-jornalística do ministro
Ricardo Lewandowski, na semana passada. Lewandowski teria
sido flagrado por uma repórter da Folha de S.Paulo
fazendo desabafos auriculares, é claro. Ao telefone
celular, ele teria dito que o STF votou em peso pelo indiciamento
de Dirceu, porque estava "com a faca no pescoço". Ou
seja, foi pressionado pela imprensa. O petista, é claro,
usou da notícia para dizer que os ministros do tribunal
se encontravam sob "suspeição". Como se vê,
o restaurateur Kakay mantém um cardápio com
muitas opções.
O ex-ministro também
não se livrou da sombra de Waldomiro Diniz. Antes de
ser içado ao posto de principal assessor de Dirceu
na Casa Civil, Waldomiro presidiu a estatal de loterias do
Rio, Loterj. Nesse cargo, pedia propina a donos de bingos,
para ajudar em campanhas petistas. Filmado em uma dessas oportunidades,
foi obrigado a deixar o cargo oficial. Quando o caso veio
à tona, Waldomiro elaborava uma medida provisória
para legalizar os bingos no país. Dirceu jura que não
sabia desse toma-lá-dá-cá. Mas sabe como
é, talvez puxando pela memória... Na Casa Civil,
o ex-ministro contava, ainda, com os préstimos de Denise
Abreu. Ele a incumbiu de acompanhar a operação
de fusão da Varig com a TAM, o que rendeu à
charuteira ótimas relações com essa última
companhia. Depois, Dirceu a indicou para a diretoria da Agência
Nacional de Aviação Civil, de onde a moça
se demitiu há dez dias, sob a acusação
de favorecer as empresas aéreas que deveria fiscalizar.
TAM, inclusive.
Voltando ao âmbito do
mensalão, Dirceu se exaspera com dois assuntos não
abordados nas peças jurídicas que balizaram
o seu indiciamento por corrupção ativa e formação
de quadrilha. Em 2005, VEJA descobriu que seu aspone Roberto
Marques, o Bob, constava da lista de pessoas autorizadas a
sacar dinheiro do valerioduto. Precisamente, 50 000 reais.
Dirceu apressou-se em dizer que se tratava de um homônimo.
Até hoje, o tal homônimo não deu as caras.
Há poucas semanas, o colunista de VEJA Diogo Mainardi
revelou que o ex-ministro falou várias vezes por telefone
com o marqueteiro Duda Mendonça nos dias em que os
cupinchas do publicitário sacaram dinheiro do valerioduto.
Detalhe: Duda e Dirceu não mantinham nenhuma relação
profissional. Por último, há mais de um ano,
Dirceu é patrocinado pelo empresário mexicano
Carlos Slim, o homem mais rico do mundo, dono da Claro e da
Embratel. O ex-ministro defende os interesses do bilionário
no ramo da telefonia no Brasil, especialmente na Agência
Nacional de Telecomunicações (Anatel). Dirceu
afirmou à revista Playboy que um telefonema
seu aos gabinetes oficiais, "modéstia à parte",
era "um telefonema". Resta saber se um sujeito que responde
por corrupção ativa e formação
de quadrilha e com tanta névoa ao seu redor
manterá influência no governo.