NÃO,
SENHORES DA ZELITE, NADA DE IMPIXIMENTI. HAJA O QUE HOUVER LULA SERÁ
MENTIDO NO PODER
Pequenos assassinatos
a peça
O que escrevi quando a violência
estava apenas em 99% da "sociedade"
Foi Jules
Feiffer, no meu conhecimento, o primeiro cara a mostrar que o super-homem era
bicha. Ao contrário de tantos que contestam quando o contestado já
foi denunciado e ridicularizado há muito tempo, Feiffer é o campeão
de uma arte que me orgulho também de praticar a de descobrir o erro,
a pretensão e o lugar-comum no momento mesmo em que o erro está
sendo glorificado, a pretensão parece extrema humildade e o lugar-comum
é aplaudido como tremenda originalidade. Mostrar quando a mesquinhez humana
se apresenta como bom comportamento, e casa de campo, mulher-e-filhos, "algumas
economias" e "bons amigos" são toda a busca da dignidade social. Ou, melhor
ainda, dizer quando a falta de higiene é lançada como revolução
de costumes, a corrupção, os "interesses criados" (Jacinto Benavente)
adotam o nome de bem público, a violência aprende ideologia e o reacionarismo
vira vanguarda. Não adianta imitar Feiffer, como tanto se faz hoje, aqui
e no mundo o sentimento do falso, a visão do homem humilde que,
no fundo, quer ser apenas um dos dez mais humildes do ano, do banqueiro
que "ama muito as artes", da mulher que teve muitos homens maravilhosos em sua
vida (isso quer dizer apenas que deu muito e indiscriminadamente), da mãe
que sacrifica a vida pelo filho (em geral é sacrificada freudianamente
pelo filho), toda essa falsificação ou a gente sente no estômago
antes de racionalizá-la ou jamais a perceberá. Feiffer pega a neurose
social em pleno ar, quando ela ainda está se formando; sabe que o crime
passional já estava implícito na primeira declaração
de amor, ouve o desastre moral oculto na pregação do santo homem,
sabe que há sempre um roubo na filantropia e, sobretudo, vê o ridículo
conservador na faustosa inauguração do museu superfuncional e digital.
Mas o que isso tudo revela, no ser humano via Feiffer, é um profundo desagrado
pelo outro ser humano, desagrado que, atuando sobre a forma da sociedade, sua
ética e sua tecnologia, ajuda também a transformá-la numa
coisa cada vez pior e mais agressiva, que ricocheteia (feed-back) sobre o indivíduo
e faz com que seu desagrado pelo semelhante se transforme em atrito, se amplie
em ódio, até a certeza final de que está diante de um inimigo
terrível, a ser abatido antes que o abata.
Acho que esta comédia é sobre isso. Divirtam-se.
Se puderem.
PARA
NÃO ESQUECERMOS. PELO MENOS O PASSADO PRÓXIMO