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Edição 2024

5 de setembro de 2007
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Pequenos assassinatos ­ a peça

O que escrevi quando a violência
estava apenas em 99% da "sociedade"

Foi Jules Feiffer, no meu conhecimento, o primeiro cara a mostrar que o super-homem era bicha. Ao contrário de tantos que contestam quando o contestado já foi denunciado e ridicularizado há muito tempo, Feiffer é o campeão de uma arte que me orgulho também de praticar – a de descobrir o erro, a pretensão e o lugar-comum no momento mesmo em que o erro está sendo glorificado, a pretensão parece extrema humildade e o lugar-comum é aplaudido como tremenda originalidade. Mostrar quando a mesquinhez humana se apresenta como bom comportamento, e casa de campo, mulher-e-filhos, "algumas economias" e "bons amigos" são toda a busca da dignidade social. Ou, melhor ainda, dizer quando a falta de higiene é lançada como revolução de costumes, a corrupção, os "interesses criados" (Jacinto Benavente) adotam o nome de bem público, a violência aprende ideologia e o reacionarismo vira vanguarda. Não adianta imitar Feiffer, como tanto se faz hoje, aqui e no mundo – o sentimento do falso, a visão do homem humilde que, no fundo, quer ser apenas um dos dez mais humildes do ano, do banqueiro que "ama muito as artes", da mulher que teve muitos homens maravilhosos em sua vida (isso quer dizer apenas que deu muito e indiscriminadamente), da mãe que sacrifica a vida pelo filho (em geral é sacrificada freudianamente pelo filho), toda essa falsificação ou a gente sente no estômago antes de racionalizá-la ou jamais a perceberá. Feiffer pega a neurose social em pleno ar, quando ela ainda está se formando; sabe que o crime passional já estava implícito na primeira declaração de amor, ouve o desastre moral oculto na pregação do santo homem, sabe que há sempre um roubo na filantropia e, sobretudo, vê o ridículo conservador na faustosa inauguração do museu superfuncional e digital. Mas o que isso tudo revela, no ser humano via Feiffer, é um profundo desagrado pelo outro ser humano, desagrado que, atuando sobre a forma da sociedade, sua ética e sua tecnologia, ajuda também a transformá-la numa coisa cada vez pior e mais agressiva, que ricocheteia (feed-back) sobre o indivíduo e faz com que seu desagrado pelo semelhante se transforme em atrito, se amplie em ódio, até a certeza final de que está diante de um inimigo terrível, a ser abatido antes que o abata.

Acho que esta comédia é sobre isso. Divirtam-se.

Se puderem.

 

PARA NÃO ESQUECERMOS.
PELO MENOS O PASSADO PRÓXIMO

ROBERTO JEFFERSON, BOTANDO
A BOCA NO TROMBONE

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