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Auto-retrato
Gabriel Padilha
Oscar
Cabral
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Faz um ano que cinco jovens morreram em um trágico
acidente de automóvel no Rio de Janeiro. O motorista
estava alcoolizado. Dentro do carro estava Ana Clara Padilha,
de apenas 17 anos. Seu pai, o arquiteto Gabriel Padilha, está
publicando um livro, Relato de um Amor, pela Nova Fronteira,
em que conta a dor dilacerante de perder um filho, como demonstra
seu relato ao repórter Marcelo Bortoloti.
O SENHOR TOMAVA
PRECAUÇÕES PARA QUE ALGO DESSE TIPO NÃO
ACONTECESSE? Eu tinha uma preocupação até
doentia com acidentes de carro. Todos os acidentes que saíam
no jornal eu recortava e colocava no mural dos meus filhos.
Um mês antes, havia acontecido um acidente com dois
jovens e eu mostrei a reportagem para a Ana Clara. Ela estava
sentada onde você está agora.
COMO O SENHOR
RECEBEU A NOTÍCIA DO ACIDENTE? Fui dormir tranqüilo,
pensando que ela estava na casa de uma amiga, que foi o que
havia me dito que faria. Às 6 horas da manhã,
uma outra amiga dela ligou dizendo que tinha acontecido um
acidente. Eu me levantei correndo, com o coração
descontrolado. Chegando lá encontrei um cenário
de horror, uma praça de guerra. Eu me identifiquei
a um bombeiro e ele disse que a Ana Clara tinha falecido.
Fiquei paralisado. Meu filho foi até um dos corpos
no chão e gritou: "É ela, meu pai". Foi uma
dor avassaladora. Fiz um enorme esforço e me aproximei
da minha filha. Fiquei lá com ela, segurando sua mão.
Parecia que ela estava dormindo. Não pode haver na
vida uma dor pior do que a de ver um filho morto.
O SENHOR MUDARIA
ALGUMA COISA NA EDUCAÇÃO DE SEUS FILHOS? Não
consigo imaginar como poderia dar mais do que dei. Quando
minha filha arrumou um namorado de 18 anos e com carro, eu
fiquei com a orelha em pé. Ela tinha regras claras
de que não deveria sair de carro com o namorado. Em
outras ocasiões ela já tinha se negado a voltar
com ele. Mas na cabecinha dela, naquela noite, ela deve ter
pensado que os acidentes não ocorrem em pequenas distâncias,
como foi o caso. Acho que é preciso uma mão
pesada do estado para punir os que dirigem nesse tipo de situação.
COMO FOI SEU
ÚLTIMO ENCONTRO COM ELA? Fomos almoçar,
num sábado, e até falamos de acidente de automóvel.
Eu disse que, quando ela completasse 18 anos, a primeira coisa
que iria fazer era tirar a carteira de motorista. Queria vê-la
no banco do motorista. Voltamos para casa e logo depois ela
saiu para ir ao teatro. Nunca mais a vi.
COMO FICOU SUA
RELAÇÃO COM OS OUTROS FILHOS DEPOIS DISSO? Eu
mergulhei muito na Ana Clara depois da morte. O quarto dela
virou meu escritório, e eu passava dias ali escrevendo.
Por causa disso até me distanciei um pouco deles. Mas,
por conselho do meu analista, eu sentava para conversar, falava
que estava escrevendo um livro sobre a irmã deles.
E COMO É
A VIDA HOJE? Com muito esforço, estamos tentando
reconstruí-la. Se você se fecha no luto, é
esquecido pelo mundo. Mas cada dia é terrível.
É preciso vestir uma fantasia e ir para a rua, forçando-me
a voltar a viver. Você se acostuma com a dor, mas ela
é uma constante. Todo dia você se levanta e sente
que está faltando alguma coisa.
O SENHOR TEM
ALGUMA REVOLTA PELO QUE ACONTECEU? Tenho uma revolta com
a vida. Pais como nós não merecem isso. A gente
não se conforma. Pais tão presentes, tão
cuidadosos... Isso não era para acontecer conosco.
A vida é injusta. Alguém com minha idade e com
tantos cabelos brancos já deveria saber que a vida
não é justa. É uma enorme frustração
saber que não haverá futuro. Em que ela se formaria?
Será que iria se casar? Com quem? São coisas
que a gente não vai saber nunca.
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