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5 de setembro de 2007
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Auto-retrato
Gabriel Padilha

Oscar Cabral


Faz um ano que cinco jovens morreram em um trágico acidente de automóvel no Rio de Janeiro. O motorista estava alcoolizado. Dentro do carro estava Ana Clara Padilha, de apenas 17 anos. Seu pai, o arquiteto Gabriel Padilha, está publicando um livro, Relato de um Amor, pela Nova Fronteira, em que conta a dor dilacerante de perder um filho, como demonstra seu relato ao repórter Marcelo Bortoloti.

O SENHOR TOMAVA PRECAUÇÕES PARA QUE ALGO DESSE TIPO NÃO ACONTECESSE? Eu tinha uma preocupação até doentia com acidentes de carro. Todos os acidentes que saíam no jornal eu recortava e colocava no mural dos meus filhos. Um mês antes, havia acontecido um acidente com dois jovens e eu mostrei a reportagem para a Ana Clara. Ela estava sentada onde você está agora.

COMO O SENHOR RECEBEU A NOTÍCIA DO ACIDENTE? Fui dormir tranqüilo, pensando que ela estava na casa de uma amiga, que foi o que havia me dito que faria. Às 6 horas da manhã, uma outra amiga dela ligou dizendo que tinha acontecido um acidente. Eu me levantei correndo, com o coração descontrolado. Chegando lá encontrei um cenário de horror, uma praça de guerra. Eu me identifiquei a um bombeiro e ele disse que a Ana Clara tinha falecido. Fiquei paralisado. Meu filho foi até um dos corpos no chão e gritou: "É ela, meu pai". Foi uma dor avassaladora. Fiz um enorme esforço e me aproximei da minha filha. Fiquei lá com ela, segurando sua mão. Parecia que ela estava dormindo. Não pode haver na vida uma dor pior do que a de ver um filho morto.

O SENHOR MUDARIA ALGUMA COISA NA EDUCAÇÃO DE SEUS FILHOS? Não consigo imaginar como poderia dar mais do que dei. Quando minha filha arrumou um namorado de 18 anos e com carro, eu fiquei com a orelha em pé. Ela tinha regras claras de que não deveria sair de carro com o namorado. Em outras ocasiões ela já tinha se negado a voltar com ele. Mas na cabecinha dela, naquela noite, ela deve ter pensado que os acidentes não ocorrem em pequenas distâncias, como foi o caso. Acho que é preciso uma mão pesada do estado para punir os que dirigem nesse tipo de situação.

COMO FOI SEU ÚLTIMO ENCONTRO COM ELA? Fomos almoçar, num sábado, e até falamos de acidente de automóvel. Eu disse que, quando ela completasse 18 anos, a primeira coisa que iria fazer era tirar a carteira de motorista. Queria vê-la no banco do motorista. Voltamos para casa e logo depois ela saiu para ir ao teatro. Nunca mais a vi.

COMO FICOU SUA RELAÇÃO COM OS OUTROS FILHOS DEPOIS DISSO? Eu mergulhei muito na Ana Clara depois da morte. O quarto dela virou meu escritório, e eu passava dias ali escrevendo. Por causa disso até me distanciei um pouco deles. Mas, por conselho do meu analista, eu sentava para conversar, falava que estava escrevendo um livro sobre a irmã deles.

E COMO É A VIDA HOJE? Com muito esforço, estamos tentando reconstruí-la. Se você se fecha no luto, é esquecido pelo mundo. Mas cada dia é terrível. É preciso vestir uma fantasia e ir para a rua, forçando-me a voltar a viver. Você se acostuma com a dor, mas ela é uma constante. Todo dia você se levanta e sente que está faltando alguma coisa.

O SENHOR TEM ALGUMA REVOLTA PELO QUE ACONTECEU? Tenho uma revolta com a vida. Pais como nós não merecem isso. A gente não se conforma. Pais tão presentes, tão cuidadosos... Isso não era para acontecer conosco. A vida é injusta. Alguém com minha idade e com tantos cabelos brancos já deveria saber que a vida não é justa. É uma enorme frustração saber que não haverá futuro. Em que ela se formaria? Será que iria se casar? Com quem? São coisas que a gente não vai saber nunca.

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