"O promotor
assassino vai participar como
autoridade em julgamentos de assassinatos
na cidade onde morou o jovem que ele mesmo
assassinou! Isso é um tapa na cara do Brasil"
Em 30 de dezembro
de 2004, o promotor de Justiça Thales Ferri Schoedl,
então com 26 anos, saía de uma festa com a namorada
em Bertioga, no litoral paulista, e, diz ele, foi provocado
por um grupo de rapazes. Disparou onze tiros. Matou Diego
Modanez, 20 anos, e feriu com quatro tiros Felipe Siqueira
Cunha de Souza, hoje com 23 anos.
Termina aqui, com
esse relato breve e seco, a narrativa dos fatos. E começa
a lógica do deboche.
Preso em flagrante,
Thales Schoedl ficou 49 dias na cadeia e ganhou o direito
de responder ao processo em liberdade. Tudo perfeitamente
legal. Chegou a ser expulso pelo Ministério Público
de São Paulo, que não queria um promotor assassino
nos seus quadros, mas Thales Schoedl recorreu à Justiça
e conseguiu o cargo de volta. Tudo perfeitamente legal. Foi
expulso uma segunda vez e, de novo, conseguiu ser reintegrado.
De novo, tudo perfeitamente legal.
Thales Schoedl
obteve, agora, uma outra vitória. Como já tem
tempo suficiente na função, pediu para ganhar
estabilidade, como acontece com os promotores depois de dois
anos de trabalho. E ganhou. Por 16 votos a 15, o Ministério
Público de São Paulo concedeu a estabilidade
ao promotor assassino. Afinal, o debate sobre a estabilidade
é uma questão de natureza administrativa e,
nesse terreno, não havia nada que depusesse contra
Thales Schoedl. Como questões criminais não
podem interferir em questões administrativas, os procuradores
entenderam que Thales Schoedl tem todas as condições
de trabalhar como promotor. Tudo, mais uma vez, perfeitamente
legal. Legal e lógico.
A história
não acaba aí. Ao dar estabilidade ao promotor
assassino, o Ministério Público lhe restituiu
o salário 10 500 reais mensais e a função
de promotor de Justiça! De Justiça! Suas atribuições
incluem fazer o tribunal do júri, onde se julgam crimes
contra a vida! Sim, crimes contra a vida! O promotor assassino
trabalhará com casos que envolvem assassinatos! O Ministério
Público fez ainda mais: despachou o promotor para a
cidade de Jales, no interior de São Paulo. Logo Jales!
Jales é a cidade onde a família de Modanez,
o jovem morto, morou durante um tempo! O promotor assassino
participará como autoridade em julgamentos de assassinatos
na cidade onde morou o jovem que ele mesmo assassinou! É
a lógica do deboche.
Ninguém
desconhece que um réu, mesmo confesso, não pode
ser punido enquanto não for julgado culpado. Portanto,
Thales Schoedl tem direito ao trabalho, ao salário,
a morar em qualquer cidade brasileira, como qualquer inocente.
Mas a ninguém escapa igualmente que se trata de uma
decisão cega e burra, cruel e estúpida, ainda
que tecnicamente perfeita. É esse formalismo estúpido,
esse pombalismo podre que nos conduz a injustiças inomináveis.
A decisão
não é um insulto apenas à família
de Diego Modanez. É um insulto a toda a sociedade,
ao sentimento de justiça e humanidade que todo o país
precisa cultivar para manter-se minimamente agregado. Isso
é um tapa na cara do Brasil. Diante de tamanha afronta,
a conclusão de Sônia Modanez sobre o futuro do
assassino de seu filho é de uma resignação
apavorante:
Ele não
irá preso. Perdi a esperança quanto a isso.
É rico, é influente, vai alegar legítima
defesa e nada vai acontecer.