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Edição 1 716 - 5 de setembro de 2001
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Luiz Felipe de Alencastro

A Aids no Brasil
e na China

"Surgirão estudos sobre as diferenças
históricas, culturais e sociais que explicam a
situação diversa da Aids nos
dois países, mas
a
praga está sendo mais contida aqui porque
somos uma democracia,
e lá há uma ditadura"


Ilustração Ale Setti


Há trinta anos, os livros de história estavam marcados pelos postulados cientificistas e racionalistas do começo do século XX. Epidemias e fanatismos religiosos apareciam como coisas do passado varridas pelo progresso da ciência, da laicidade e da razão. Assim, retrospectivamente, o alastramento de novas intolerâncias religiosas e de vagas epidêmicas em várias partes do mundo aparece como uma incongruidade histórica. No que concerne às doenças de massa, os acontecimentos recentes continuam a surpreender.

Quando a Aids começou a se espalhar, muita gente se assustou, achando que o Brasil seria maciçamente atingido por essa nova peste. Veio a Aids com o seu cortejo de mortes e de sofrimentos, mas o mal não assumiu em nosso país as proporções catastróficas que adquiriu em nações africanas e asiáticas. Todo cuidado é pouco, mas a vigilância da população, dos especialistas e dos serviços de saúde pública parece ter conseguido limitar o desastre. Além disso, o Brasil implementou o tratamento dos aidéticos, desmentindo as correntes conservadoras dos países ricos, ainda ativas no governo Bush, que defendem métodos unicamente preventivos fora da Europa e dos Estados Unidos. Para essas correntes, só as nações ricas poderiam arcar com os custos do tratamento gratuito dos aidéticos no âmbito da saúde pública. Quebrando patentes, fabricando genéricos e obrigando os grandes laboratórios ocidentais a reduzir os preços dos medicamentos, o Brasil não aceitou as imposições dos países ricos. O mais recente embate dessa luta opõe o ministro da Saúde, José Serra, à Roche, empresa farmacêutica suíca, em torno da droga Viracept, utilizada nos coquetéis para controlar a doença nos aidéticos.

Desse modo, o Brasil pôde apresentar nos foros internacionais resultados de uma política de saúde seriamente efetivada no país, obtendo apoio de amplos setores da opinião pública mundial (bem ao contrário do que sucede na Conferência Mundial contra o Racismo, em Durban, onde a delegação brasileira propõe agora, em favor dos negros, cotas educacionais até então inaplicadas e nem sequer sugeridas nas duas presidências de FHC).

Há um forte contraste entre o combate à Aids no Brasil, de um lado, e nos países africanos e asiáticos, de outro. Na África, a doença se apresenta como um dos maiores dramas que têm afligido esse continente martirizado. Na Ásia, e em particular na China, a epidemia avança num ritmo assustador. Organismos da ONU calculam que haja 1 milhão de chineses infectados com o HIV atualmente e que o número pode saltar para 20 milhões de casos em 2010. Todos os especialistas concordam quanto ao fato de que grande parte da responsabilidade pelo desastre cabe ao governo de Pequim. Num país onde quase tudo é segredo de Estado, a doença avançou durante muito tempo sem encontrar barreiras. Principal vetor de contaminação, a coleta de sangue para fins comerciais só foi proibida no final de 1998. Na província de Henan, 74% dos habitantes que vendiam sangue estão infectados, o que representa uma cifra de 700.000 casos.

O governo chinês, que não hesita em copiar produtos industriais patenteados, não pensou em fabricar genéricos para tratamentos de aidéticos nem desenvolveu políticas preventivas. A primeira conferência de um alto responsável governamental sobre a situação da Aids na China ocorreu agora, no final de agosto. Altura em que vários sites de internet, escapando ao controle chinês, anunciavam o aumento de 67% nos casos de HIV no primeiro semestre de 2001.

Surgirão, decerto, estudos sobre as diferenças históricas, culturais e sociais que explicam a situação diversa da Aids no Brasil e na China. No entanto, será difícil escapar de uma evidência cristalina: a praga está sendo mais contida aqui porque o Brasil é uma democracia e a China, uma ditadura.


Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris – Sorbonne (
lfa@workmail.com)

 
 
   
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