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Luiz
Felipe de Alencastro
A
Aids no Brasil
e na China
"Surgirão
estudos sobre as diferenças
históricas, culturais e sociais que explicam a
situação diversa da Aids nos dois
países, mas
a praga
está sendo mais contida aqui porque
somos uma democracia, e
lá há uma ditadura"
Ilustração Ale Setti
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Há trinta anos, os livros de história estavam marcados pelos
postulados cientificistas e racionalistas do começo do século
XX. Epidemias e fanatismos religiosos apareciam como coisas do passado
varridas pelo progresso da ciência, da laicidade e da razão.
Assim, retrospectivamente, o alastramento de novas intolerâncias
religiosas e de vagas epidêmicas em várias partes do mundo
aparece como uma incongruidade histórica. No que concerne às
doenças de massa, os acontecimentos recentes continuam a surpreender.
Quando a Aids começou a se espalhar, muita gente se assustou, achando
que o Brasil seria maciçamente atingido por essa nova peste. Veio
a Aids com o seu cortejo de mortes e de sofrimentos, mas o mal não
assumiu em nosso país as proporções catastróficas
que adquiriu em nações africanas e asiáticas. Todo
cuidado é pouco, mas a vigilância da população,
dos especialistas e dos serviços de saúde pública
parece ter conseguido limitar o desastre. Além disso, o Brasil
implementou o tratamento dos aidéticos, desmentindo as correntes
conservadoras dos países ricos, ainda ativas no governo Bush, que
defendem métodos unicamente preventivos fora da Europa e dos Estados
Unidos. Para essas correntes, só as nações ricas
poderiam arcar com os custos do tratamento gratuito dos aidéticos
no âmbito da saúde pública. Quebrando patentes, fabricando
genéricos e obrigando os grandes laboratórios ocidentais
a reduzir os preços dos medicamentos, o Brasil não aceitou
as imposições dos países ricos. O mais recente embate
dessa luta opõe o ministro da Saúde, José Serra,
à Roche, empresa farmacêutica suíca, em torno da droga
Viracept, utilizada nos coquetéis para controlar a doença
nos aidéticos.
Desse modo, o Brasil pôde apresentar nos foros internacionais resultados
de uma política de saúde seriamente efetivada no país,
obtendo apoio de amplos setores da opinião pública mundial
(bem ao contrário do que sucede na Conferência Mundial contra
o Racismo, em Durban, onde a delegação brasileira propõe
agora, em favor dos negros, cotas educacionais até então
inaplicadas e nem sequer sugeridas nas duas presidências de FHC).
Há um forte contraste entre o combate à Aids no Brasil,
de um lado, e nos países africanos e asiáticos, de outro.
Na África, a doença se apresenta como um dos maiores dramas
que têm afligido esse continente martirizado. Na Ásia, e
em particular na China, a epidemia avança num ritmo assustador.
Organismos da ONU calculam que haja 1 milhão de chineses infectados
com o HIV atualmente e que o número pode saltar para 20 milhões
de casos em 2010. Todos os especialistas concordam quanto ao fato de que
grande parte da responsabilidade pelo desastre cabe ao governo de Pequim.
Num país onde quase tudo é segredo de Estado, a doença
avançou durante muito tempo sem encontrar barreiras. Principal
vetor de contaminação, a coleta de sangue para fins comerciais
só foi proibida no final de 1998. Na província de Henan,
74% dos habitantes que vendiam sangue estão infectados, o que representa
uma cifra de 700.000 casos.
O governo chinês, que não hesita em copiar produtos industriais
patenteados, não pensou em fabricar genéricos para tratamentos
de aidéticos nem desenvolveu políticas preventivas. A primeira
conferência de um alto responsável governamental sobre a
situação da Aids na China ocorreu agora, no final de agosto.
Altura em que vários sites de internet, escapando ao controle chinês,
anunciavam o aumento de 67% nos casos de HIV no primeiro semestre de 2001.
Surgirão, decerto, estudos sobre as diferenças históricas,
culturais e sociais que explicam a situação diversa da Aids
no Brasil e na China. No entanto, será difícil escapar de
uma evidência cristalina: a praga está sendo mais contida
aqui porque o Brasil é uma democracia e a China, uma ditadura.
Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris Sorbonne (lfa@workmail.com)
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