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Roberto
Pompeu de Toledo
A renúncia
do grande mistificador
Quarenta anos depois, depoimentos
de dois próximos lançam mais luz
sobre o gesto de Jânio
"Não
brinco mais." Pode haver reação mais característica
do menino mimado? Ele se julga o mais importante, o centro de tudo. É
cheio de vontades. E tem necessidade de, a todo momento, ser reforçado
em sua convicção de que é o melhor, o mais amado
e o mais necessário. Precisa de obediência e de homenagens.
Nem pensar em contrariá-lo. Senão... Não brinca mais.
Aí, de duas uma. Ou fazem como ele exige, e então volta
mais forte e mais caprichoso ainda, ou não fazem, e ele, para manter
a palavra, precisa mesmo deixar de brincar, ainda que esteja louco para
continuar, e a ameaça não passasse de blefe. Jânio
Quadros lançou mão do estratagema do "não brinco
mais" sete meses depois de ter assumido a Presidência da República,
e aconteceu-lhe o pior: não lhe pediram para ficar.
Por ocasião
dos quarenta anos da renúncia de Jânio à Presidência,
completados no último dia 25, dois artigos de jornal, escritos
ambos por pessoas próximas do ex-presidente, vieram reforçar
a compreensão do episódio. Ora, direis, e precisa? O episódio
já não está arquicompreendido, em sua natureza de
clara e canhestra tentativa de golpe? Na verdade, começa por aí
a utilidade dos referidos artigos. Ainda pairam sobre o episódio
umas sobras da mistificação com que se pretendeu envolvê-lo.
Tal esforço, destinado a recobri-lo com a névoa das fantasias
conspiratórias, foi inaugurado pelo próprio renunciante,
na carta em que aludia a "forças terríveis", e, constantemente
realimentado por ele próprio, teve, e ainda tem, adeptos fiéis.
Os artigos de que aqui se tratará vão ambos na direção,
para quem ainda teimava em duvidar disso, da tentativa de golpe. De quebra,
têm a vantagem de esclarecer o tipo de golpe que o então
presidente tinha na cabeça.
O primeiro,
publicado no jornal O Estado de S. Paulo (edição
de 25 de agosto), é de autoria do neto de Jânio, o antigo
Jânio John, que hoje se assina Jânio Quadros Neto. De mistura
a algumas passagens obscuras, e outras tantas em que, desfiando preferências
políticas atuais, equilibra elogios ao governador paulista Geraldo
Alckmin com bordoadas no governador mineiro Itamar Franco e no ex-ministro
(e ex-assessor de Jânio) José Aparecido de Oliveira, o forte
do texto é o relato de uma conversa em que o neto afirma ter ouvido
do avô uma confissão completa de suas intenções.
A renúncia foi apresentada ao Congresso numa sexta-feira. Jânio
não esperava que fosse homologada naquele mesmo dia. Quando menos,
seria discutida durante todo o fim de semana. Dada a instabilidade da
situação, e a desconfiança com que o vice João
Goulart era visto pelos empresários, políticos e militares,
um movimento irresistível o levaria de volta ao poder, com instrumentos
mais fortes, para governar, do que os disponíveis na ordem constitucional
vigente.
Nenhuma
novidade, exceto pelo seguinte e inédito fato: no artigo do neto,
a história é contada pelo próprio Jânio. Ele
mesmo, que sempre insistiu em revesti-la da aura de mistério. Um
Jânio desprevenido confessa em seguida, segundo o neto, que nunca
se desculpou pelo ato, que não lhe "sai da mente um segundo".
O segundo
artigo, publicado na Folha de S. Paulo (24 de agosto), é
de autoria do advogado Saulo Ramos, que, muito antes de ministro da Justiça,
no governo Sarney, foi jovem oficial de gabinete de Jânio, durante
sua curta Presidência. Para Saulo Ramos, Jânio tramava um
golpe constitucional. Ou seja: não é que quisesse governar
sem Constituição. O que queria era outra Constituição.
Seu modelo era o general De Gaulle, que renunciou ao poder na França,
em 1946, e doze anos depois, em 1958, convocado a voltar para debelar
o caos e a ameaça de guerra civil que se esboçava no país
em paralelo à guerra de independência da Argélia,
só concordou em fazê-lo depois de satisfeita a exigência
de elaboração de uma nova Constituição, moldada
a seu feitio personalista. A tese não é nova, mas ganha
força quando vem de um íntimo como Saulo. "Passei a entender
por que Jânio falava tanto em De Gaulle", escreve o ex-ministro
da Justiça.
Jânio
era tão mimado que nem julgou necessário preparar nada.
Não combinou o golpe com os ministros militares, ou com os parlamentares
e governadores fiéis. Não o fez nem mesmo com os auxiliares
mais próximos. Esperava que tudo lhe caísse no colo, como
acontecera outras vezes na vida, useiro antigo que era do recurso do "não
brinco mais". No fundo, estava despreparado até para a mais comezinha
das responsabilidades de um chefe de governo, que é administrar
pressões. Daí sua aflição com a oposição
e a impaciência com os constrangimentos constitucionais. Ele não
era apenas um louco que se imaginava Jânio Quadros, como disse alguém,
talvez Carlos Lacerda. Seu caso era mais grave. Era um mistificador de
tal ordem que acabou mistificando a si mesmo, vendo De Gaulle ao se olhar
no espelho e confundindo o Brasil com a França. Tudo deu errado.
Segundo o historiador Francisco Iglésias, "entre as várias
maneiras de alguém entrar para a História, Jânio escolheu
a cômica".
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