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O pícaro sonhador

Baudolino é o melhor romance
do escritor italiano Umberto Eco
desde O Nome da Rosa

Carlos Graieb

Anos atrás, Umberto Eco escreveu um pequeno texto sobre a cidade onde nasceu, Alexandria, na Itália. Reuniu recordações de infância, dados históricos e historietas lendárias, tudo em menos de dez páginas. Concluiu que nascera em um lugar desprovido de maiores atrativos – "sem ideais nem paixões, sem retórica e sem mitos". Frustrante? Não necessariamente, para um escritor. Na falta de melhores fontes, Eco parece ter decidido emprestar ele mesmo brilho e graça à história de seu torrão natal. Fez isso em seu novo romance, Baudolino (tradução de Marco Lucchesi; Record; 459 páginas; 35 reais), que narra o surgimento de Alexandria no século XII e ainda cria para ela um impagável herói, batizado com o mesmo nome do padroeiro da cidade, São Baudolino. O livro, porém, não é somente uma homenagem do autor à sua província. De volta ao seu período histórico preferido, Eco compõe uma obra que haverá de deixar espantados aqueles que se acostumaram a pensar na Idade Média apenas como "Idade das Trevas".

É curioso comparar Baudolino a O Nome da Rosa, romance de estréia de Eco, que, lançado em 1981, o tornou um ficcionista de sucesso em todo o mundo. São livros complementares. Enquanto o primeiro se ocupa da religião medieval, o segundo está voltado para o mundo secular. Enquanto em O Nome da Rosa a linguagem é toda elevada, Baudolino mergulha no popular. Os diálogos são proferidos por soldados e camponeses e até os estudiosos se comunicam com gírias que aprenderam de ladrões. No primeiro capítulo, Eco diverte-se na tentativa de recompor o dialeto rude de seus ancestrais. Outra diferença marcante está no cenário. Em vez de trancar seus personagens num mosteiro, Eco permite que eles circulem por mais de um continente. A peripécia inicial da história é justamente a ida de Baudolino para a corte do imperador Frederico Barba Ruiva, que o adota como se fosse um filho. Daí em diante são inúmeras as andanças. Finalmente, é interessante contrapor os heróis dos dois romances. Se o monge-detetive Guilherme de Baskerville, herói de O Nome da Rosa, era uma espécie de cartesiano avant la lettre e encarnava a razão numa época de preconceitos, Baudolino é um adorável mistificador. Em nome do imperador, ele é capaz de ver santos, forjar histórias, falsificar relíquias. Na imaginação de Eco, vira até mesmo o criador de lendas como a do Santo Graal. Mas um detalhe o redime: as mentiras de Baudolino sempre impulsionam em direção à novidade e ao bem. Ele mesmo acaba acreditando em suas invencionices e, no fim do livro, o vemos partir novamente em busca de uma quimera.

Num ensaio dos anos 80 chamado Dez Modos de Sonhar a Idade Média, Eco observou que a época medieval havia sido "o crisol da Europa e da civilização moderna". Nela teriam surgido "todas as coisas com as quais ainda estamos acertando contas" – daí seu enorme fascínio até os dias de hoje. Haveria, no entanto, muitas maneiras de sonhar a Idade Média. Ele, pessoalmente, defendia uma visão do período baseada nas idéias de pluralidade e pluralismo. Sua Idade Média era uma época "de embaralhamento de cartas, em que as grandes penúrias eram acompanhadas por grandes invenções, e a prefiguração de novos modos de vida". Em Baudolino, não resta dúvida, Eco transmite com grande vividez essa imagem positiva do homem medieval.

Como todo romance de Eco, Baudolino procura combinar erudição e diferentes modos de narrativa: o romance de aventuras, o conto fantástico, a história de mistério. Essa fórmula deu muito certo em O Nome da Rosa, mas já não teve tanto sucesso nos romances seguintes do autor, O Pêndulo de Foucault e A Ilha do Dia Anterior, nos quais a miríade de referências cultas resultou em livros chatos. Baudolino não sofre desse mal. Talvez pudesse ser um pouco mais curto, mas, nele, os conhecimentos de Eco estão a serviço de uma história que avança rápido. É o melhor romance de Eco desde O Nome da Rosa – e o leitor se enredará com prazer nas mentiras de Baudolino.

 

Entre ficção e fato

Como as aventuras fantásticas de Baudolino
se misturam com a história real do século XII

1152 d.C. Frederico Barba Ruiva é eleito imperador do Sacro Império Romano Germânico. Dois anos depois, ele se perde num nevoeiro em terras italianas e é ajudado por Baudolino. Em retribuição, ele adota o menino e o leva para a corte.

1168 – Baudolino vai visitar sua terra natal e encontra, no lugar de uma aldeia, uma cidade em construção: Alexandria. No mesmo ano, comunas italianas formam a Liga Lombarda para opor-se a Frederico.

1174 – Frederico resolve destruir Alexandria. Durante o cerco, o pai de Baudolino, Gagliaudo, salva a cidade com a ajuda de sua vaca Rosinha.

1176 – Na batalha de Legnano, o exército imperial é derrotado pela Liga Lombarda. Baudolino salva Frederico dos inimigos.

1189 – Frederico vai para a Terceira Cruzada e Baudolino o acompanha. Depois de reconquistar a Terra Santa, ele pretende partir em busca do lendário reino do Preste João.

1190 – Frederico morre. Afogado, na "versão oficial". Misteriosamente assassinado, no entender de Baudolino.

1204 – Em vez de rumar para o Egito, os soldados da Quarta Cruzada atacam e saqueiam Constantinopla. Em meio à destruição, Baudolino tenta vingar a morte de Frederico e depois narra suas aventuras para o historiador Nicetas Coniates.

 

 

   
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