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Edição 1 716 - 5 de setembro de 2001
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AMAR OU NÃO, EIS A QUESTÃO

No cenário futurista descrito em A.I. – Inteligência Artificial (A.I. Artificial Intelligence, Estados Unidos, 2001), as calotas polares se descongelaram e cidades inteiras submergiram. Os sobreviventes dos países desenvolvidos preservam sua riqueza por meio de um severo controle de natalidade. A indústria cibernética encontra-se num estágio tão avançado que criou andróides para executar tarefas subalternas e servir de companhia. Seu próximo passo é criar uma máquina que também tenha sentimentos. É aqui que entra em cena o casal Monica e Henry Swinton. Eles se mostram os candidatos ideais para testar um robô-menino, capaz de amar. Monica e Henry têm um filho, mas ele está há anos em coma. Por que não reconstruir a família com uma criança que só sente amor e devoção? Há várias reflexões a fazer sobre essa pergunta. Uma delas é crucial: mesmo numa sociedade em que seres "orga" (de "orgânicos") e "meca" (de "mecânicos") convivem rotineiramente, como a de A.I., ninguém ainda se indagou que tipo de responsabilidade um ser humano tem para com a emoção de um ser manufaturado. São, por assim dizer, as letras miúdas do contrato. E é por causa delas que David, o robô "adotado" por Monica (magnificamente interpretado por Haley Joel Osment), será lançado na mais absoluta experiência de rejeição que se possa pensar. E olhe que, em matéria de horror emocional, a imaginação do americano Stanley Kubrick (que concebeu A.I. e o "deu" a Spielberg) voava longe.

 
2001 Warner Bros & DreamWorks, LLC
A "mãe" de David ativa o robô: ambivalência

Se Spielberg é o cineasta da fantasia convertida em realidade, Kubrick era o da realidade transformada em pesadelo impessoal. Spielberg é instintivo, Kubrick era por excelência racional. É fascinante (e nada acidental) que essa história tenha atraído ambos: tudo em A.I. é ambivalente, a começar por David. O pequeno robô pode ser considerado humano porque ama – ou talvez o fato de só saber amar, e nada mais, o torne essencialmente artificial. Spielberg diz que teria topado fazer A.I. mesmo que Kubrick nada tivesse a ver com o projeto. E é fácil perceber por quê. Em certo sentido, o filme fala de um menino que fará de tudo para realizar seu sonho – tornar-se um menino de verdade, como Pinóquio. Mas a crueldade e a esterilidade do mundo em que vivem os protagonistas são típicas de Kubrick. Se ele tivesse dirigido o filme, é certo que a segunda parte do enredo, em que David vagueia em companhia do robô-amante Gigolô Joe (Jude Law, excelente), teria ficado um bocado mais pesada – não que isso seja melhor ou pior. Kubrick, afinal, deu várias provas de que tinha plena confiança no julgamento do amigo. Com toda a razão.

Spielberg, por sua vez, deixa-se influenciar pelo estilo frio e distante de Kubrick. Compõe cenários ora minimalistas, ora atordoantes e dá imensa importância às vozes, como era o hábito de Kubrick. A narração de Ben Kingsley é excepcional, e o tom rouco e amargo do ursinho de pelúcia Teddy, um brinquedo inteligente, é um dos lances mais criativos do filme. Em meio a tantas homenagens, Spielberg preserva sua identidade. Acaba se saindo com um dos filmes mais belos de sua carreira e uma fita bem mais digna de ser o testamento de Kubrick do que De Olhos Bem Fechados.

 

O DIRETOR E AS CRIANÇAS

Trabalhar com crianças é uma parte fundamental da carreira de Spielberg. Segundo sua produtora, o segredo de tantos bons desempenhos é não subestimar a garotada

 
Warner Bros INC
2001 Warner Bros & DreamWorks, LLC
Com Christian Bale, em Império do Sol, de 1987: um dos poucos atores mirins a provar seu talento também depois de adulto Com Haley e Jude Law, nas filmagens de A.I.: o menino é a mais extraordinária das crianças com as quais Spielberg já trabalhou

 
Universal and Amnlm
Com Joseph Mazzello, em Jurassic Park: instruções muito diretas e trabalho rápido

 

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Estação VEJA
  Confira trailer e fotos do filme A.I- Inteligência Artificial


   
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