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AMAR
OU NÃO, EIS A QUESTÃO
No
cenário futurista descrito em A.I. Inteligência
Artificial (A.I. Artificial Intelligence, Estados Unidos, 2001),
as calotas polares se descongelaram e cidades inteiras submergiram.
Os sobreviventes dos países desenvolvidos preservam sua riqueza
por meio de um severo controle de natalidade. A indústria
cibernética encontra-se num estágio tão avançado
que criou andróides para executar tarefas subalternas e servir
de companhia. Seu próximo passo é criar uma máquina
que também tenha sentimentos. É aqui que entra em
cena o casal Monica e Henry Swinton. Eles se mostram os candidatos
ideais para testar um robô-menino, capaz de amar. Monica e
Henry têm um filho, mas ele está há anos em
coma. Por que não reconstruir a família com uma criança
que só sente amor e devoção? Há várias
reflexões a fazer sobre essa pergunta. Uma delas é
crucial: mesmo numa sociedade em que seres "orga" (de "orgânicos")
e "meca" (de "mecânicos") convivem rotineiramente, como a
de A.I., ninguém ainda se indagou que tipo de responsabilidade
um ser humano tem para com a emoção de um ser manufaturado.
São, por assim dizer, as letras miúdas do contrato.
E é por causa delas que David, o robô "adotado" por
Monica (magnificamente interpretado por Haley Joel Osment), será
lançado na mais absoluta experiência de rejeição
que se possa pensar. E olhe que, em matéria de horror emocional,
a imaginação do americano Stanley Kubrick (que concebeu
A.I. e o "deu" a Spielberg) voava longe.
2001 Warner Bros & DreamWorks, LLC
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| A
"mãe" de David ativa o robô: ambivalência |
Se
Spielberg é o cineasta da fantasia convertida em realidade,
Kubrick era o da realidade transformada em pesadelo impessoal. Spielberg
é instintivo, Kubrick era por excelência racional.
É fascinante (e nada acidental) que essa história
tenha atraído ambos: tudo em A.I. é ambivalente,
a começar por David. O pequeno robô pode ser considerado
humano porque ama ou talvez o fato de só saber amar,
e nada mais, o torne essencialmente artificial. Spielberg diz que
teria topado fazer A.I. mesmo que Kubrick nada tivesse a
ver com o projeto. E é fácil perceber por quê.
Em certo sentido, o filme fala de um menino que fará de tudo
para realizar seu sonho tornar-se um menino de verdade, como
Pinóquio. Mas a crueldade e a esterilidade do mundo em que
vivem os protagonistas são típicas de Kubrick. Se
ele tivesse dirigido o filme, é certo que a segunda parte
do enredo, em que David vagueia em companhia do robô-amante
Gigolô Joe (Jude Law, excelente), teria ficado um bocado mais
pesada não que isso seja melhor ou pior. Kubrick,
afinal, deu várias provas de que tinha plena confiança
no julgamento do amigo. Com toda a razão.
Spielberg,
por sua vez, deixa-se influenciar pelo estilo frio e distante de
Kubrick. Compõe cenários ora minimalistas, ora atordoantes
e dá imensa importância às vozes, como era o
hábito de Kubrick. A narração de Ben Kingsley
é excepcional, e o tom rouco e amargo do ursinho de pelúcia
Teddy, um brinquedo inteligente, é um dos lances mais criativos
do filme. Em meio a tantas homenagens, Spielberg preserva sua identidade.
Acaba se saindo com um dos filmes mais belos de sua carreira e uma
fita bem mais digna de ser o testamento de Kubrick do que De
Olhos Bem Fechados.
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