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A força
está com
Steven Spielberg
Seus
dezenove filmes faturaram
quase 10 bilhões de dólares nas
bilheterias mundiais e moldaram
o gosto do público. Agora, com
A.I. Inteligência Artificial, o
diretor americano dá sua cartada
mais ambiciosa
Isabela
Boscov, de Nova York
2001 Warner Bros & DreamWorks, LLC
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| Haley
Joel Osment, como o robô-menino David, em A.I.: o tema da solidão
infantil novamente na pauta do diretor |

Veja também |
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No
início do ano passado, o diretor americano Steven Spielberg anunciou
que pretendia jogar pela janela cerca de 1 bilhão de dólares.
Seus filhos ficaram aborrecidos. Não por causa do dinheiro, mas
pela notícia de que seu pai desistira de dirigir a adaptação
do primeiro livro da série Harry Potter a qual, como quaisquer
outras crianças do planeta, os Spielbergs mais novos adoram. O
diretor é um dos homens mais poderosos da indústria do entretenimento
(na verdade, ajudou a inventá-la da forma como ela existe hoje),
e o acordo oferecido a ele refletia essa importância. O cineasta
dirigiria o episódio inicial da saga do bruxinho e produziria os
seis capítulos seguintes. Some-se o salário às porcentagens
sobre a bilheteria, mais uma coisinha aqui e outra ali, e a remuneração
de Spielberg por toda a empreitada iria bater, calcula-se, nessa cifra
monumental de 1 bilhão. Mas ele, de fato, não precisa do
dinheiro, já que sua fortuna pessoal é estimada em 2 bilhões
de dólares.
A
esta altura da vida 54 anos de idade e vários megassucessos
, também não sente necessidade de gratificar seu ego,
competindo com o amigo George Lucas ou com James Cameron, de Titanic,
pelo primeiro lugar na bilheteria. E tampouco veria com bons olhos a ingerência
da autora de Harry Potter, a inglesa J.K. Rowling, na execução
do projeto. "Quando estou atrás da câmara, viro um egoísta.
Tudo o que me interessa é me satisfazer como criador", disse Spielberg
a VEJA. O diretor preferiu dedicar-se a um projeto bem mais desafiador:
A.I. Inteligência Artificial, que estréia no
Brasil na próxima sexta-feira e lhe foi legado pelo cultuado Stanley
Kubrick, de 2001 Uma Odisséia no Espaço. A.I.
se passa no futuro e trata de um robô construído para ser
o filho perfeito: sempre criança, sempre saudável, irrevogavelmente
apaixonado por sua "mãe" e também assustadoramente
vulnerável, já que seus circuitos o impedem de se defender
da rejeição. São temas típicos do diretor
de E.T. Mas Spielberg os trata com uma circunspecção
e uma profundidade que demonstram que ele chegou mesmo à maturidade.
Muito já se falou sobre o ponto de vista indisfarçavelmente
edipiano de boa parte dos filmes de Spielberg, ou sobre sua fixação
com o tema da solidão infantil. Até A Lista de Schindler,
ele foi atacado por sua postura juvenilizante e teve de conviver com a
alcunha de "Peter Pan do cinema". Ainda hoje, é comum que a crítica
descarte seus filmes como sentimentais ou piegas. A verdade é que
nem os mal-humorados podem deixar de reconhecer que o impacto da obra
de Spielberg ultrapassa o campo cinematográfico e chega à
área do comportamento. Para começar, ele influenciou a maneira
de fazer cinema, já que responde por alguns dos grandes saltos
tecnológicos das últimas décadas, do boneco de E.T.
aos dinossauros digitais de Jurassic Park. O diretor também
revolucionou a engrenagem de Hollywood. Até seu advento, a temporada
de verão americana era a zona morta do calendário de lançamentos,
os jovens eram um público desprezado e filmes não eram eventos
da cultura pop. Tubarão, de 1975, inverteu todos esses conceitos,
e é sob sua égide que se vive até hoje. Alguns analistas
acreditam até mesmo que, não fosse Spielberg, o cinema estaria
condenado à decadência como ramo do entretenimento. Secundado
por George Lucas, ele teria reensinado as pessoas a sair de casa para
ver filmes na tela grande, injetando dinheiro numa indústria que
andava à beira do esgotamento.
Acima de tudo, porém, Spielberg mudou o paladar do público.
Fez com que os espectadores descobrissem gostos e interesses que eles
próprios nem imaginavam ter. Antes de Spielberg, aventuras cheias
de rompantes, como as de Indiana Jones, ou de fantasia, como E.T.,
eram coisa para a garotada. Seus filmes, contudo, atravessam todas as
faixas etárias. Não há marmanjo que não tenha
sucumbido às lágrimas com a história do alienígena
que quer voltar para casa. Até o escritor inglês Martin Amis,
um dos mais refinados da nova geração, confessou ter chorado
ao assistir a E.T. "Trata-se de um filme que apela aos sentimentos
de maneira desavergonhada. Mas não há nada nele que sugira
meretrício. Sua pureza é utópica e impossível
de ser forjada", escreveu Amis em 1982. Nesse sentido, o da influência
sobre a platéia, o diretor tem poucos rivais. Pode ser colocado
no mesmo patamar de Charles Chaplin ou Alfred Hitchcock.
Spielberg recebeu VEJA na semana retrasada, num restaurante de East Hampton,
um balneário de ricos a três horas de carro de Nova York.
O cineasta mora nas cercanias de Los Angeles, mas costuma rumar para East
Hampton no verão, em companhia da família: a atriz Kate
Capshaw e sete filhos uma moça da primeira união
de Kate, o garoto Max, nascido do casamento de Spielberg com a atriz Amy
Irving (hoje mulher do diretor brasileiro Bruno Barreto), mais três
meninas e dois garotos. Theo e Mikaela, ambos negros, são adotados.
Com seu aperto de mão forte, seus modos calorosos e vestido com
jeans e camiseta, Spielberg não aparenta ser um magnata, produtor
de cerca de cinqüenta títulos para o cinema e a televisão
(incluindo a série Plantão Médico) e sócio
do estúdio DreamWorks, que em sete anos de existência responde
por outra meia centena de lançamentos (entre eles, Beleza Americana
e Gladiador). Sua jovialidade impressiona. Spielberg adora falar
de filmes, mas não só. Ele se entusiasma também quando
o assunto é sua paixão por sua mulher, o caráter
do ator Ben Kingsley, narrador de A.I. Inteligência Artificial
e amigo seu, o progresso de Tom Cruise como intérprete, os dilemas
que contrapõem a ética à ciência ou sua determinação
em abrir espaço para a convivência familiar em sua agenda
apertadíssima. Nela estão incluídos vários
projetos filantrópicos e o comando da Fundação Shoah,
que recolhe depoimentos de sobreviventes do Holocausto. Em outros tempos,
abrangia também o discreto apoio ao ex-presidente Bill Clinton,
inclusive durante o período de escândalo que se abateu sobre
a Casa Branca.
Mais velho dos quatro filhos (ele tem três irmãs) do casal
Arnold e Leah, Steven Spielberg nasceu em 18 de dezembro de 1946 em Cincinnati,
no Estado de Ohio, e cresceu em Phoenix, no Arizona ambientes não
muito diversos das cidades em que transitam os protagonistas de filmes
como Contatos Imediatos do Terceiro Grau ou E.T. Como eles
também, Spielberg vivia dramas que a tranqüilidade do cenário
não pareceria ensejar. Sofria de maneira aguda com as troças
anti-semitas de que era vítima e passou boa parte da vida num estado
de alheamento à sua herança judaica. Também se ressentia
da ausência do pai, um engenheiro que ele certa vez descreveu como
"uma formiga operária", tal sua dedicação ao trabalho.
Esse sentimento virou revolta quando, no final da adolescência,
seus pais se divorciaram. O diretor, de qualquer forma, guarda boas lembranças
do austero Arnold. Uma das passagens mais vívidas da infância,
diz, é a de ser acordado no meio da noite pelo pai para ver uma
chuva de meteoros. Arnold, além disso, combatera na II Guerra e
gostava de contar suas histórias ao filho. Os primeiros exercícios
de Spielberg com uma câmara, lá pelos 12 anos, foram filmes
de guerra estrelados pelos colegas de escola. Vê-los é uma
revelação: intercalando cenas filmadas no quintal de casa
com trechos de velhos cinejornais comprados em sebos, Spielberg mostra
que desde muito cedo já sabia enquadrar, cortar e montar. Seu pai
lhe sugeria alguns truques. Para simular explosões, Arnold mostrou
ao filho que ele deveria colocar terra e pedras numa extremidade de uma
tábua. O "ator" pisava firme sobre a outra ponta e o entulho voava
alto, como se uma bomba o tivesse alvejado.
Spielberg diz que ele e seu pai se reaproximaram em anos recentes, e que
as diferenças ficaram no passado. "Mas sei que já dei aos
meus filhos mais do que ele me deu", acrescenta. Nos três anos que
separaram A Lista de Schindler de Amistad, o diretor dedicou-se
quase que somente à família. Também gosta que as
crianças o acompanhem às locações. E Theo,
que foi com Spielberg à entrevista a VEJA, confirma que o pai prepara
o café da manhã e leva os filhos à escola sempre
que possível. "A ética do meu pai era a dos imigrantes russos,
que tinham de se entregar totalmente ao trabalho e não encontravam
tempo para conviver com os filhos. Eu, mesmo quando não tenho tempo
para a família, arranjo", resume.
Queira-se ou não, Spielberg é integrante de uma das gerações
mais brilhantes já surgidas em Hollywood, a que inclui Martin Scorsese,
Francis Ford Coppola e Brian De Palma, além de George Lucas. Mas,
enquanto seus amigos aprontavam todas, ele sempre foi caretíssimo.
Não se metia em encrencas com mulheres, não usava drogas
e não bebia álcool preceitos que continuam valendo.
"Mesmo na juventude, eu era um cidadão certinho e muito entediante",
brinca ele, depois de recusar uma segunda xícara de chá.
Como estava invariavelmente sóbrio, Spielberg era o motorista a
quem todos recorriam na hora de levar para o hospital algum sujeito com
overdose de mescalina, por exemplo. "Eu via meus amigos fumar maconha
ou tomar LSD e, depois, passar cinco horas olhando para uma parede. Decidi
que não queria essa vida para mim. Gosto de estar no controle da
situação", diz. A produtora Kathleen Kennedy, que trabalha
com Spielberg há mais de vinte anos, acrescenta que ele está
sempre alerta (sim, o diretor foi escoteiro), sabe delegar tarefas, é
muito direto e gosta de trabalhar rápido. Se algo dá errado
no set, não demora mais que alguns minutos para reorganizar as
tarefas. "Steven detesta ver gente parada", disse Kathleen a VEJA. Ele
também gosta de distribuir elogios sempre que sejam cabíveis.
Em momentos de maior frustração, porém, é
capaz de dar uns berros, diz Kathleen. "Mas, no geral, confrontos não
fazem o seu estilo", completa a produtora.
Se há uma coisa de que o cineasta faz questão é que
todos estejam tão preparados quanto ele ao início de cada
dia de trabalho. "É preciso fazer a lição de casa
direitinho", conta Haley Joel Osment, de 13 anos, que estrelou O Sexto
Sentido e interpreta o robô David em A.I. Entre todas
as crianças muito especiais com que o diretor já trabalhou,
Haley é a mais extraordinária. Filho de uma professora e
de um ator, ele tem uma irmã mais nova e leva a vida de um garoto
normal: joga videogames, freqüenta a escola e brinca com os amigos.
No set, comporta-se como um profissional com anos de experiência.
Foi de Haley a sugestão de que seu personagem em A.I. nunca
piscasse, para frisar que ele é um andróide. O inglês
Gary Oldman, que usou o mesmo recurso em Drácula, diz que
esse procedimento é um martírio. "O segredo de Steven é
tratar as crianças da mesma forma que os adultos, sem diminuí-las",
diz Kathleen Kennedy. "Ao mesmo tempo, ele é capaz de brincar com
elas de igual para igual. Com isso, imediatamente ganha a atenção
e o respeito da garotada."
Apesar de seus numerosos detratores, Spielberg sempre contou com a admiração
de outros cineastas alguns deles lendários. Foi o inglês
David Lean, de Lawrence da Arábia, por exemplo, quem sugeriu
a ele que realizasse O Império do Sol. E Stanley Kubrick,
que se fascinou com E.T., nunca quis outra pessoa para dirigir
A.I. "Stanley achava que sua personalidade mais sombria seria uma
limitação e que Steven era o diretor perfeito para iluminar
essa história", disse a VEJA Jan Harlan, cunhado e produtor de
Kubrick. Desde o início da década de 80, Kubrick trabalhava
com a idéia de transformar em filme o conto Superbrinquedos
Duram o Verão Todo, de Brian Aldiss (que está sendo
lançado no país pela Companhia das Letras). Chegou a construir
um robô para "interpretar" David, mas não conseguiu transformá-lo
numa criatura atraente. Teria, portanto, de encontrar um ator adequado.
"Demoro tanto para rodar meus filmes que, até terminar, o garoto
já estará tirando sua carta de motorista", disse Kubrick
a Spielberg quando se decidiu a procurá-lo, em 1994. Durante meses,
os dois trocaram copiosos telefonemas e fax. Excêntrico, Kubrick
exigiu que o amigo instalasse o aparelho em seu próprio quarto.
Volta e meia, as páginas começavam a entrar em plena madrugada
para desespero de Kate Capshaw, que às 6 da manhã
já começa a preparar a criançada para a escola. Spielberg,
porém, devolveu o projeto para Kubrick. "Você tem três
filhas e um filho David. É você quem precisa contar
a história dele", justificou.
Quando Kubrick morreu, em 1999, logo após completar De Olhos
Bem Fechados, Spielberg voltou atrás. Procurado pela família
do diretor, concordou em levar A.I. adiante, baseando-se nas anotações
e em quase 1.000 desenhos de produção deixados pelo amigo.
O resultado é um drama riquíssimo, em que as personalidades
antagônicas de Kubrick e Spielberg ora se fundem, ora colidem, e
no qual o tema do amor não correspondido é levado às
últimas conseqüências. "O amor traz mais sofrimento
que alegria, e conquistá-lo é algo que requer muita tortura",
diz Spielberg. "Quando conheci Kate, no teste para Indiana Jones e
o Templo da Perdição, no início dos anos 80,
fiquei arrasado por ela ter entrado em minha vida. Apaixonei-me assim
que pus os olhos nela, mas sabia que era uma ligação impossível",
conta o diretor. Kate era casada e ele estava comprometido com Amy Irving.
Só em 1991 Kate e Spielberg se casaram. E a atriz, que foi criada
como metodista, converteu-se ao judaísmo, marcando a reconciliação
de Spielberg também com suas origens.
Embora seja um filme belíssimo (ou talvez por isso), A.I.
não estourou nas bilheterias dos Estados Unidos. Produzido ao custo
de 90 milhões de dólares, arrecadou até agora 78
milhões, uma quantia baixa para os padrões americanos. É
provável que, num lance inédito, faça mais dinheiro
no Japão. "Não me incomodo quando não gostam de um
filme meu, como aconteceu com 1941 ou Hook. O que me chateia
é quando a platéia não entende a fita", diz Spielberg.
É uma situação à qual não está
habituado, já que mesmo quando aborda assuntos sérios ele
costuma ser muito bem recebido, como comprovam A Lista de Schindler
e O Resgate do Soldado Ryan. Ainda assim, não pretende render-se.
Entre seus próximos projetos, não há nada de muito
leve. Spielberg acaba de dirigir Tom Cruise em Minority Report,
uma ficção científica em que o governo mata assassinos
potenciais antes que eles possam cometer seu primeiro crime. "Apelidei
o filme de Corra Cruise, Corra, porque ele corre o tempo todo",
brinca o diretor, que é um admirador do filme alemão Corra
Lola, Corra. Em seguida, deve trabalhar com Leonardo DiCaprio em Catch
Me If You Can (Pegue-me Se Puder, numa tradução literal),
sobre o único adolescente a ter figurado na lista dos dez mais
procurados pela polícia federal americana. Também deve fazer
uma recriação dos últimos anos da vida de Abraham
Lincoln, baseada num livro em que o lendário presidente aparece
como um homem racista e perturbado. E há tempos planeja adaptar
o best-seller Memórias de uma Gueixa. "Como produtor, costumo
ser generoso. Estou trabalhando na continuação de Homens
de Preto, por exemplo, porque sei que meus filhos adorariam ver esse
filme", diz Spielberg. "Mas, como diretor, a única criança
a que eu tento agradar sou eu mesmo."
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