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Edição 1 716 - 5 de setembro de 2001
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O que as baianas não têm

Gal Costa e Maria Bethânia perdem
espaço no mercadofonográfico.
Mas por razões diferentes

Sérgio Martins


Reginaldo Teixeira

Bethânia: bom CD, carreira sem concessões e desemprego


Duas das principais intérpretes da música brasileira, Gal Costa e Maria Bethânia passam por momentos críticos em sua carreira. Ambas estão com disco novo na praça. A primeira lançou, no início de agosto, De Tantos Amores, em que relê sucessos de outrora, como Folhetim e Índia. O disco foi recebido de maneira morna e as vendas não decolaram. Maria Bethânia, por seu turno, soltou na semana passada Maricotinha, CD que vale por uma despedida: ela já sabe que seu contrato com a gravadora BMG não será renovado. As companhias de discos agora preferem investir em cantoras que custam pouco e vendem muito, como Ana Carolina e Cássia Eller, cujos CDs ultrapassaram a marca de 250.000 unidades. Resumindo: as musas veteranas da MPB perderam terreno.


Marcus Mendonça

Gal Costa: só afinação não basta


O caso das duas cantoras não é idêntico. Nos anos 70 e 80, Gal gravou discos de qualidade indiscutível. Nos últimos dez anos, contudo, seu trabalho foi empalidecendo. Não que ela tenha deixado de cantar direito: o problema é que suas interpretações se tornaram burocráticas, ficando a dever em ousadia e imaginação. Um bom exemplo disso é a versão do clássico Folhetim no novo disco. Na primeira gravação da música, em 1978, sua voz exalava sedução e ela parecia assumir a identidade da prostituta apresentada pela letra. Já na releitura atual, Gal acerta as notas – e nada mais. A cantora parece demonstrar cada vez menos interesse pela própria carreira. Em outros tempos, soube cercar-se de gente jovem sempre que precisou sacudir o marasmo. Não mais. "Queríamos que ela gravasse com gente da nova geração, mas Gal optou pelos arranjos de Wagner Tiso e por músicas manjadas", espeta um executivo da MTV sobre o CD acústico que a cantora lançou em 1997. Sua atenção para o trabalho de compositores jovens é nula.

De Bethânia não se pode dizer que passe por uma crise criativa. Ela sempre se notabilizou pelo repertório criterioso e pela busca por novos compositores. Essa opção foi vital para que chegasse a vender mais de 1 milhão de discos no começo dos anos 90. Maricotinha mostra a competência de Bethânia. Ela faz até um compositor mediano como Chico César soar acima da média, na bela Dona do Dom, que abre o álbum. Em vez de tornar-se vítima de seu próprio desinteresse, no entanto, Bethânia se tornou vítima da lógica do mercado, que exige retorno rápido. Com vendas médias de 150.000 exemplares em seus últimos discos, Bethânia, com toda sua obstinada exigência em matéria de produção, é hoje considerada uma artista cara demais. Ao contrário do irmão, Caetano Veloso (e também de Gilberto Gil), ela não conseguiu encontrar uma maneira de alternar discos autorais com trabalhos de interesse comercial. Ousadia casada a faro popular: é isso que as baianas já não têm.

   
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