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O que as baianas
não têm
Gal Costa
e Maria Bethânia perdem
espaço no mercadofonográfico.
Mas por razões diferentes

Sérgio
Martins
Reginaldo Teixeira

Bethânia:
bom CD, carreira sem concessões e desemprego |
Duas das principais intérpretes da música brasileira, Gal
Costa e Maria Bethânia passam por momentos críticos em sua
carreira. Ambas estão com disco novo na praça. A primeira
lançou, no início de agosto, De Tantos Amores, em
que relê sucessos de outrora, como Folhetim e Índia.
O disco foi recebido de maneira morna e as vendas não decolaram.
Maria Bethânia, por seu turno, soltou na semana passada Maricotinha,
CD que vale por uma despedida: ela já sabe que seu contrato com
a gravadora BMG não será renovado. As companhias de discos
agora preferem investir em cantoras que custam pouco e vendem muito, como
Ana Carolina e Cássia Eller, cujos CDs ultrapassaram a marca de
250.000 unidades. Resumindo: as musas veteranas da MPB perderam terreno.
Marcus Mendonça

Gal
Costa: só afinação não basta |
O caso das duas cantoras não é idêntico. Nos anos
70 e 80, Gal gravou discos de qualidade indiscutível. Nos últimos
dez anos, contudo, seu trabalho foi empalidecendo. Não que ela
tenha deixado de cantar direito: o problema é que suas interpretações
se tornaram burocráticas, ficando a dever em ousadia e imaginação.
Um bom exemplo disso é a versão do clássico Folhetim
no novo disco. Na primeira gravação da música,
em 1978, sua voz exalava sedução e ela parecia assumir a
identidade da prostituta apresentada pela letra. Já na releitura
atual, Gal acerta as notas e nada mais. A cantora parece demonstrar
cada vez menos interesse pela própria carreira. Em outros tempos,
soube cercar-se de gente jovem sempre que precisou sacudir o marasmo.
Não mais. "Queríamos que ela gravasse com gente da nova
geração, mas Gal optou pelos arranjos de Wagner Tiso e por
músicas manjadas", espeta um executivo da MTV sobre o CD acústico
que a cantora lançou em 1997. Sua atenção para o
trabalho de compositores jovens é nula.
De Bethânia
não se pode dizer que passe por uma crise criativa. Ela sempre
se notabilizou pelo repertório criterioso e pela busca por novos
compositores. Essa opção foi vital para que chegasse a vender
mais de 1 milhão de discos no começo dos anos 90. Maricotinha
mostra a competência de Bethânia. Ela faz até um compositor
mediano como Chico César soar acima da média, na bela Dona
do Dom, que abre o álbum. Em vez de tornar-se vítima
de seu próprio desinteresse, no entanto, Bethânia se tornou
vítima da lógica do mercado, que exige retorno rápido.
Com vendas médias de 150.000 exemplares em seus últimos
discos, Bethânia, com toda sua obstinada exigência em matéria
de produção, é hoje considerada uma artista cara
demais. Ao contrário do irmão, Caetano Veloso (e também
de Gilberto Gil), ela não conseguiu encontrar uma maneira de alternar
discos autorais com trabalhos de interesse comercial. Ousadia casada a
faro popular: é isso que as baianas já não têm.
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