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Edição 1 716 - 5 de setembro de 2001
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Terremoto sob seus pés

Ficar ou pular fora? Como resolver esse
dilema quando a crise começa a
rondar
a empresa em que você trabalha

Maurício Oliveira

Um dos momentos mais difíceis para um profissional administrar em sua carreira é aquele em que nuvens carregadas se formam no horizonte da empresa e o pessimismo toma conta do ambiente de trabalho. Ninguém sabe responder ao certo, por exemplo, se a companhia vai sobreviver às dificuldades que enfrenta ou ser negociada com algum concorrente mais poderoso. Para o funcionário que percebe a crise cada vez mais próxima de sua mesa de trabalho, esse momento costuma representar um dilema: fico ou pulo fora? Obviamente, não existe uma maneira segura de saber se uma empresa está enfrentando problemas fatais ou apenas passando por dificuldades superáveis. Os especialistas aconselham as pessoas tocadas por essa dúvida desconcertante a ficar atentas a certos sinais que antecedem uma crise empresarial grave – daquelas que mudam a vida de cada funcionário. Veja quadro, que conta em detalhe quais são esses sinais. O mais evidente são os noticiários negativos em publicações respeitadas e que nunca merecem desmentido da empresa. A perda freqüente de talentos reconhecidos para os concorrentes é outro sintoma a levar em conta.

Por outro lado, um bom indício de que vale a pena apostar na recuperação da companhia é a transparência com que a direção trata a crise no ambiente corporativo. Segundo a consultora Gisela Ferreira, a primeira vítima nesses casos costuma ser justamente a sinceridade dos superiores. Os riscos, afinal, são grandes. Admitir problemas financeiros graves pode ser o sinal que faltava para liquidar a reputação da empresa não apenas diante dos funcionários, mas também de clientes, fornecedores e credores. O engenheiro civil Valsuir Galvão, de 50 anos, não entendeu que seu empregador estava chegando ao fundo do poço em 1995, quando a construtora para a qual trabalhava, em Brasília, passou a vender os imóveis a preço de custo, para fazer caixa. Mais tarde, sucederam-se atrasos nos pagamentos dos funcionários e fornecedores. Por fim, veio a falência. Além de perder o emprego, o engenheiro, que ocupava um posto de diretor, ficou sem os últimos seis salários e deixou de receber cerca de 200.000 reais em direitos trabalhistas. A construtora era a malfadada Encol, responsável pela evaporação da poupança de mais de 40.000 famílias em vários Estados. "Tive todos os sinais de que deveria ter abandonado o barco, mas insisti até o fim. Hoje me arrependo muito por isso", diz Galvão.

Com quase vinte anos de casa, ele se sentia emocionalmente compelido a participar do esforço para salvar a construtora, mas, de acordo com os consultores em recursos humanos, esse tipo de fidelidade já não se justifica hoje em dia. "A partir da reengenharia dos anos 80, muitas empresas passaram a considerar os funcionários como descartáveis. Em contrapartida, o profissional ganhou o direito de pensar em primeiro lugar na própria carreira", diz Simon Franco, diretor da TMP Worldwide no Brasil, especializada em contratação de executivos. "A única estratégia eficaz para não ser pego de surpresa é estar sempre à espera de reviravoltas", sustenta o administrador de empresas Maurício Baccini, de São Paulo. Depois de 23 anos na multinacional Xerox, ele acaba de deixar o cargo de gerente-geral da filial paulista. A tradicional companhia do ramo de copiadoras convive com prejuízos nos balanços desde 1999 e vive um processo mundial de reestruturação, que inclui demissões e redução geral das despesas. "Torço para que a empresa se recupere das dificuldades, mas percebi que estava na hora de percorrer outro caminho", diz Baccini. Uma atitude certamente pragmática, de quem veste a camisa da empresa – mas tem sempre outra no armário, bem passada e pronta para usar em caso de necessidade.

 
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