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Um
novo arranjo familiar
Crescem
os casos de homens que
ganham a guarda dos filhos, mas
isso ainda causa estranhamento
Flávia
Varella
Oscar Cabral
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Claudio Rossi
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| Jany,
que deixou os filhos com o ex-marido e agora os tem de volta: "Não
tive apoio" |
Renato
cuida sozinho de Gabriel desde que ele tinha 2 anos: "Um aprendizado" |
Na
época de sua separação, há seis anos, Jany
Maria dos Santos entrava no trabalho às 8 e meia da manhã,
saía no fim do dia e ia direto para a faculdade. Seu marido era
quem administrava o dia-a-dia dos filhos, Bruno, então com 9 anos,
Mariana, com 7, e Matheus, de 1 ano e meio. "Os papéis lá
em casa estavam invertidos", conta ela. A inversão oficializou-se.
A guarda legal dos filhos maiores ficou com o pai após a separação
do casal. Dois anos depois, o pequeno Matheus também foi entregue
ao ex-marido de Jany. Essa solução retrata uma mudança
social ainda incipiente, mas cada vez mais comum. O porcentual de brasileiros
que vivem em casas onde moram um homem sem a mulher, mas com filhos, praticamente
triplicou nas duas últimas décadas, de acordo com o IBGE.
O novo Código Civil, aprovado no início de agosto, agora
define que fica com a guarda dos filhos quem tiver melhor condição,
sem prioridade para as mães. Essa nova estrutura familiar, porém,
ainda causa estranhamento. "Eu sabia que estava fazendo o melhor, mas
não tive nenhum apoio. Até minha mãe e minhas irmãs
condenaram", diz a bancária Jany.
A situação doméstica "invertida" criada na casa de
Jany é reflexo de uma sociedade diferente que se foi formando com
o esmorecimento do antigo padrão familiar de homem responsável
por prover os recursos materiais e mulher encarregada dos cuidados da
casa e dos filhos. "O conceito de família mudou num crescendo desde
1950, até que começou a aparecer, muito mais recentemente,
no mundo do direito", afirma a advogada paulista Maria das Graças
Pereira Mello. Há poucos anos, um juiz só tirava a guarda
dos filhos de uma mãe se ela cometesse falta muito grave. Mães
que abriam mão desse direito, então, praticamente inexistiam.
Prova da naturalidade da questão é que hoje, seis anos após
a separação, Jany está com os três filhos de
volta a sua casa e com a guarda deles. "Agora a situação
é outra. O pai casou-se com uma mulher que já tinha três
filhos, eu tenho mais tempo livre e mais dinheiro para oferecer o que
eles querem", resume a mãe.
Robson Monteiro
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Símbolo Imagem/Ricardo Leal
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A
atriz Giulia Gam perdeu a guarda do filho Theo para o ex-marido
Pedro Bial: na maioria dos casos há disputa judicial |
Uma
estatística feita pelo juiz Guilherme Gonçalves Strenger
dos processos litigiosos da cidade de São Paulo revelou que neste
ano, pela primeira vez, os pedidos de guarda de filhos feitos por homens
superaram os de mulheres. "É um bom retrato da mudança de
comportamento da sociedade", diz. Nos Estados Unidos, onde houve um aumento
de 62% no número de pais que cuidam dos filhos sozinhos nos últimos
dez anos, a maioria dos casos ocorre porque as mães entendem que
os filhos ficarão melhor com os pais e cedem a guarda. "No Brasil
ainda é raro a mãe concordar pacificamente com a cessão.
Mas acredito que vamos evoluir para o reconhecimento das mulheres de que
isso é normal", afirma o juiz.
A disputa pela guarda de filhos na Justiça é sempre uma
situação dolorosa. Os atores Felipe Camargo e Vera Fischer
brigam há quatro anos para ter o poder sobre o menino Gabriel e
já participaram de sete audiências. No início do ano
o jornalista Pedro Bial conseguiu a guarda do filho Theo, de 3 anos. A
mãe, a atriz Giulia Gam, ficou desalentada e agora, enquanto o
processo corre na Justiça, tenta chegar a um acordo com o ex-marido.
"A disputa é muito desgastante, até para o filho. Pois é
difícil mantê-lo alheio a todo o sofrimento de tantas audiências,
sempre com o risco de a situação mudar", afirma Felipe Camargo.
"Ter a responsabilidade de cuidar de um filho, por outro lado, é
muito enriquecedor." Sua opinião é confirmada pela psicóloga
Rosane Mantilla de Souza, que fez sua tese de doutorado sobre homens que
ficam com os filhos. Segundo ela, todos eles relatam uma transformação
pessoal agradável, na qual parecem mais sensíveis a nuances
de comportamento. "Conviver com o Gabriel é um constante aprendizado
do exercício de amar", diz o músico Renato Garcia, que tem
a guarda do filho desde que o menino tinha 2 anos e meio. "É emocionante
vê-lo aprender a ler, observar seu primeiro dente cair. Com seu
jeito calmo e doce, ele me ensinou muito sobre a tranqüilidade para
resolver as questões da vida."
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