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Edição 1 716 - 5 de setembro de 2001
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Eles querem mais

Cineastas brasileiros arquitetam
um plano
para obter novas verbas.
Adivinhe quem paga

 
Ricardo Chvaicer
O Guarani: será que esse filme é mesmo um "espelho da identidade nacional"?

Na semana passada, a valorosa turma do cinema nacional quase conseguiu passar uma medida que significa mais uma tungada no bolso do governo (leia-se contribuinte) e de empresários do setor de entretenimento e comunicação. Criado em setembro do ano passado pelo governo federal, com o objetivo de elaborar um plano estratégico, o Grupo Executivo de Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica (Gedic) coroou seus trabalhos apresentando à Presidência da República um inacreditável projeto de fomento ao setor. Os caciques do Gedic – entre os quais se encontram o cineasta Cacá Diegues, o produtor Luiz Carlos Barreto e o ex-superintendente da Embrafilme Gustavo Dahl – esperavam transformar em medida provisória as suas propostas megalomaníacas, por meio das quais sonham arrecadar nove vezes mais dinheiro do que o setor vem obtendo com as leis de incentivo cultural. Como um bom filme brasileiro, no entanto, o projeto do Gedic foi feito com desleixo e arrogância. Setores que seriam pesadamente atingidos pelas medidas, como os da TV aberta e da TV paga, reclamaram de não ter sido ouvidos e começaram a protestar. Na sexta-feira, um verdadeiro qüiproquó se havia formado em Brasília, e o Gedic não conseguiu emplacar o pacote tão facilmente quanto desejava. O governo já não sabia se aprovava parte dele por meio de medida provisória e colocava o resto num projeto de lei, ou se mandava tudo de uma vez para uma discussão aberta no Congresso. Essa segunda forma seria a mais democrática – mas os cineastas brasileiros não gostam desse tipo de democracia.


Fernando Lemos/Strana
Barreto (foto) e Diegues, do Gedic: projeto recebido sob muitos protestos


O projeto do Gedic é mesmo mirabolante. Um de seus pontos é a criação de uma agência de controle, a Ancinav, e de um Conselho Superior do Cinema e do Audiovisual, que definirá políticas para o setor. Com eles, os dinossauros do cinema pretendem reviver a estatal Embrafilme. Já tem até gente de olho nas sinecuras. Mas a menina-dos-olhos desse pessoal são, claro, os mecanismos de arrecadação de dinheiro. A contribuição que já incide sobre filmes e séries estrangeiros exibidos no país em cinema, vídeo ou TV seria turbinada e passaria a incidir também sobre a remessa de rendimentos de multinacionais do setor para o exterior. Além disso, o Gedic pretende taxar entre 2% e 4% o rendimento bruto das redes de televisão. Segundo os executivos da TV paga, isso aumentaria de tal forma os custos do negócio que ele poderia ser inviabilizado no país. Outra novidade é que os bancos criariam e administrariam fundos de investimento batizados de Funcines, para fornecer empréstimos a cineastas e distribuidores. Finalmente, quer-se dar um jeitinho para estender até 2006 os benefícios generosos da Lei do Audiovisual, previstos para ser extintos em 2003. Tudo isso porque, segundo a turma do Gedic, o cinema é uma área cultural estratégica, por servir de "espelho da identidade nacional". Pura bobagem. A menos que se concorde que filmes como O Guarani, de Norma Bengell, que teve parte de seu orçamento desviado para os bolsos da diretora, espelhem uma certa propensão brasileira para a malandragem.

 

É UMA FESTA

27 milhões de reais foi o que as leis de incentivo fiscal arrecadaram em 2000 para a área cinematográfica brasileira

250 milhões de reais por ano é o total que se estima atingir com as novas medidas

Com esse dinheiro, seria possível construir 3 000 bibliotecas públicas

 

 
 
   
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