
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Hackers:
os nossos
são campeões
Brasil
abriga cinco
dos dez grupos
mais ativos de vândalos cibernéticos

Rosana
Zakabi
Antonio Milena
 |
Pelo
prazer de estragar
O paulistano Master System, 16 anos, é um dos integrantes do
tty0, o sexto no ranking dos grupos de hackers mais ativos do mundo.
Com seus colegas, já
desfigurou mais de 300 sites, entre eles o da loja brasileira PlugUse
e o da Suzuki da Itália. No início do ano, o pai de
um
colega de escola ofereceu pagamento para que ele atacasse o sistema
de uma empresa concorrente, mas System não aceitou. Aprendeu
a
lidar com computadores aos
9 anos de idade. "Gosto de
invadir porque não tem nada
para fazer em casa", diz |
Quem acessou o site oficial da Varig há algumas semanas teve uma
surpresa: em vez das informações sobre a corporação,
havia um pingüim lilás gigante com os dizeres Brazil owned
again (o Brasil controla novamente, em inglês) em verde e amarelo.
O responsável pela travessura eletrônica foi um grupo de
hackers, ou crackers, como são conhecidos os vândalos on-line,
chamado tty0. Por trás do nome impronunciável estão
sete garotos de 15 e 16 anos que moram em São Paulo. No dia do
ataque, eles ficaram vasculhando sites de grandes empresas para verificar
se encontravam alguma falha que facilitasse a entrada. Até que
um deles achou, justamente no site da Varig. "Assim que descobri o erro,
acionei os outros e começamos a invasão, que durou sete
minutos", conta o líder do grupo, que se esconde atrás do
apelido "Abh0r". De acordo com o instituto europeu Alldas, que monitora
ataques virtuais, o tty0 é o sexto mais atuante do mundo. Não
é o único brasileiro em destaque. Entre as dez gangues mais
perigosas do planeta, o ranking inclui cinco brasileiras, inclusive o
primeiro lugar, ocupado pelo Silver Lords, com mais de 1.000 invasões.
Criado há alguns anos, esse grupo ficou famoso entre os ciberpiratas
por promover uma espécie de vestibular on-line para aceitar novos
integrantes. No ano passado, o Silver Lords se desfez e foi adotado por
dois membros do Paquistão. Mesmo assim, alguns hackers nacionais
ainda invadem em seu nome para manter a supremacia brasileira. Estima-se
que opere no Brasil meia centena de equipes com capacidade técnica
para causar estragos significativos. Numa única tarde, podem desfigurar
duas dezenas de páginas. O Brazil Hackers Sabotage (BHS), o terceiro
no ranking do Alldas, é responsável por mais de 700 ataques
e prefere invadir sites bem conhecidos, como a home page da Xuxa e a loja
virtual da Som Livre. Em uma invasão recente, deixou uma declaração
de amor à atriz Mel Lisboa, a Anita da minissérie global.
O Prime Suspectz, em quinto lugar com 533 invasões, adora desfigurar
os sites da Microsoft, para provar que a gigante da informática
também é vulnerável. Na sétima posição
estão os Demonios, com mais de 300 ataques no currículo,
a maioria em sites de Taiwan, Coréia e China.
Claudio Rossi
 |
Um
bom negócio
Juliano
Carneiro, 20 anos, transformou a bisbilhotice eletrônica em
um bom negócio.
Há cinco anos começou
a entrar em sites para tentar descobrir falhas nos servidores. Quando
achava algum
erro, mandava um e-mail avisando o administrador do sistema. Acabou
fazendo amizade
com os provedores e, pouco depois, montou a
própria empresa, a internetSegura.com.br, especializada em
segurança de
redes. Cobra 8 000 reais pela
proteção de uma empresa
de pequeno porte |
O
que torna o Brasil tão fértil em hackers é a impunidade.
Se um hacker brasileiro entra em um computador só para ver o que
há lá dentro e não altera as informações,
não está cometendo um delito, pois não há
lei que defina isso. Nos Estados Unidos poderia pegar dez anos de cadeia.
Há uma dezena de projetos de lei que tratam do tema no Congresso
Nacional, mas nenhum saiu do papel até agora. O estrago causado
pelo vandalismo eletrônico é pesado. Numa pesquisa recente,
a Módulo Security Solutions, especializada em segurança
de redes, encontrou companhias que tiveram prejuízo de 1 milhão
de reais com invasões no ano passado. Apesar do custo elevado,
a maioria não denuncia os ataques à polícia com medo
de prejudicar sua imagem. Seis em cada dez empresas nem sequer admitem
ter sido vítimas de vandalismo eletrônico. "É um erro,
pois esse tipo de atitude acaba incentivando a ação dos
invasores", diz o advogado Renato Opice Blum, especialista em direito
eletrônico.
Um grupo hacker geralmente tem de três a oito integrantes de 15
a 20 anos que não se conhecem pessoalmente. São jovens de
classe média, conversam via e-mail, chat ou ICQ. Muitos agem apenas
como pichadores, desfigurando as páginas para chamar a atenção,
mas vários se profissionalizam, tornando-se espiões industriais.
É o caso do cracker identificado como Phrozen_Byte. "Raramente
entro por diversão, só a trabalho", diz. Por encomenda de
um concorrente, ele invadiu e desfigurou um dos sites da Hewlett-Packard,
a HP Store. O contratante queria o banco de dados da loja e a ficha completa
dos clientes: RG, endereço, o que compravam e como era feito o
pagamento. Byte ficou uma semana analisando o sistema, copiou os dados
de 1.800 cadastros e, no último dia, mudou os preços dos
produtos para 1,99 real. "O administrador só descobre que o site
foi invadido depois que a página principal é alterada",
diz. Ele não revela quanto ganhou para fazer o serviço,
mas conta que a negociação foi feita por e-mail e o pagamento
foi enviado a uma caixa postal. A HP abriu processo judicial para investigar
o caso. Em nota oficial, admite que é uma empresa muito visada,
mas evita fazer acusações.
A
experiência como hacker pode ser uma boa oportunidade para negócios
dentro da lei. Empresas de segurança preferem contratar ciberpiratas.
Além de conhecer todas as falhas nos sistemas e saber como saná-las,
a maioria age apenas por diversão, sem a intenção
de roubar ou se tornar um criminoso. Muitas companhias buscam a mão-de-obra
diretamente nas páginas invadidas e entram em contato com os hackers
via e-mail. Foi o que aconteceu com o especialista em segurança
de sistemas André Fucs, 23 anos. Hacker desde a puberdade, foi
procurado pela Módulo e recebeu uma proposta de trabalho, que aceitou.
"Faço o que gosto", diz ele. Na semana passada, o hacker Master
System, 16 anos, do grupo tty0, comemorava sua primeira oferta de emprego
em uma empresa de segurança de sistemas. "Vou poder trabalhar com
o que gosto e ainda ganhar um dinheirinho com isso", festeja o adolescente.

Veja também
|
|
|
|
|
|
 |
|
 |

|
 |