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A vítima
pode ser você
Os
seqüestros se banalizam e, agora,
na definição de um especialista, "não
exigem mais que um balcão de bar para
combinar o plano e a escolha de um alvo
que renda uns poucos milhares de reais"
O
seqüestro é um crime monstruoso. Estabelece um valor em dinheiro
para coisas que não têm preço (a vida de um filho,
um pai, um irmão) e submete a família da vítima ao
suplício de negociar seu ente querido como se fosse mercadoria.
O sofrimento do refém pode ser indescritível. Welington
Camargo teve uma orelha decepada, os terroristas estrangeiros que capturaram
Abilio Diniz mantiveram um caixão para o caso de resolverem assassiná-lo,
o empresário Moyses Leão Struchier ficou guardado numa geladeira,
o estudante Marcelo Quintella foi torturado para que um vídeo com
as cenas de horror vergassem a família (veja
no quadro alguns dos casos que mais horrorizaram o país).
À natureza intrinsecamente hedionda desse crime se soma agora
a sua banalidade. Ao envolver criminosos cada vez mais inexperientes e
vítimas cada vez menos ricas, os seqüestros tornaram-se um
crime ao alcance de todos quase tão corriqueiro quanto um
assalto no semáforo. Casos protagonizados por quadrilhas sofisticadas,
como as que seqüestraram o publicitário Luiz Salles em 1989
(resgate de 2,5 milhões de dólares) ou o banqueiro Antônio
Beltran Martinez em 1986 (um recorde de 4 milhões de dólares),
são cada vez mais raros. "A imensa maioria dos seqüestros
registrados no país neste ano não exigiu mais que um balcão
de bar para combinar o plano, três ou quatro pessoas dispostas a
se envolver nele e a escolha de um alvo que pudesse render uns poucos
milhares de reais", afirma o coronel da reserva José Vicente Filho,
especialista em criminalidade.
Traduzindo: a vítima pode ser você. Especialmente se morar
em São Paulo, onde os seqüestros vivem uma fase de proliferação
(foram 63 no ano passado e 41 só no primeiro trimestre de 2001,
contra 5 e 2, respectivamente, no Rio de Janeiro). Uma amostra de casos
registrados em agosto na cidade ilustra a pouca sofisticação
da atual onda. Capturada no meio da rua, uma estudante de medicina de
23 anos passou 24 horas em cativeiro e foi solta contra o pagamento de
55.000 reais. Dois integrantes da quadrilha, presos a partir do rastreamento
das ligações telefônicas, disseram que a vítima
havia sido escolhida simplesmente pela suposta ostentação
de riqueza do jipe que dirigia, um Terios, da Daihatsu um veículo
apenas médio. Uma semana depois, foi a vez de um estudante de 17
anos que tomava conta da loja de materiais de construção
do pai. Os seqüestradores começaram pedindo 200.000 reais,
mas acabaram fazendo negócio por 5.000. Não deu tempo: também
caíram em razão dos telefonemas rastreáveis, marca
registrada de amadorismo.
O
que leva bandidos inexperientes a enveredar por ações que
até pouco tempo atrás eram de domínio quase exclusivo
da "elite" do crime? Como em outros campos da atividade humana, a criminalidade
abomina o vácuo. Todas as vezes que a polícia avança
sobre um território, os bandidos, em vez de se converter para a
honestidade e os bons modos, migram para outro ramo. Foi assim com os
assaltos a banco e os roubos de veículos de carga. A disseminação
do dinheiro eletrônico esvaziou os caixas dos bancos e a adoção
de recursos como o rastreamento de caminhões tornou esse tipo de
roubo mais arriscado. O resultado foi que ambas as modalidades decaíram
na preferência dos criminosos: 21% no caso dos roubos de carga,
ao longo do ano passado; 52% em relação aos assaltos a banco
no primeiro semestre deste ano. No caso de São Paulo, a polícia
acredita que a nova geração de seqüestradores resulta
de uma migração não só de criminosos especializados
nesses dois tipos de delito, mas, principalmente, de grupos muito menos
organizados aqueles que, até pouco tempo atrás, se
dedicavam a ações primárias, como o seqüestro
relâmpago, que envolve o saque em caixas eletrônicos, exatamente
a modalidade mais reprimida ultimamente. "Decisões como as de reforçar
o policiamento nos locais e fixar um limite de retirada durante a noite
podem ter estimulado os bandidos a incursionar pelo seqüestro improvisado,
que não deixa de ser uma variante do seqüestro relâmpago",
afirma Tulio Kahn, coordenador do Ilanud, órgão da ONU que
estuda a criminalidade.
A solução é tão banal quanto os atuais "seqüestros
de pobre": prender os bandidos. Ao contrário de assaltos a banco,
por exemplo, seqüestros são crimes virtualmente imprevisíveis
a polícia não tem como se prevenir contra eles e
os aparatos de dissuasão só estão ao alcance dos
muito ricos. Nesse caso, afirma o coronel José Vicente da Silva
Filho, "a única forma de prevenção é a repressão",
e a onda de seqüestros só irá diminuir à medida
que a polícia conseguir mostrar que é capaz de trancafiar
os criminosos. A experiência carioca, em que se misturam iniciativa
privada e atuação policial, confirma a análise. Exasperado
com o surto de seqüestros que bateu em 108 casos em 1995, um grupo
de empresários, publicitários e advogados de primeira linha,
todos seqüestráveis e alguns até ex-seqüestrados,
criou o primeiro disque-denúncia e estabeleceu uma cooperação
estreita com a polícia. Para coordenar o processo foi deslocado
um executivo do mercado financeiro, José Antônio Borges Fortes.
Ex-diretor de banco, ele estabeleceu um sistema de garantia total de sigilo
no qual a identidade do denunciante não é revelada nem no
momento do pagamento de uma recompensa. O disque-denúncia permitiu
a descoberta de dezesseis cativeiros e levou a polícia a fazer
mais de trinta prisões. "A lógica do bandido não
difere da do senso comum: estabelece uma relação de custo-benefício",
diz o coronel Vicente. "Se ele percebe que as ações não
vêm tendo sucesso, concluirá que não vale a pena investir
nelas. O contrário é igualmente verdadeiro: o fracasso da
polícia agora poderá ter efeitos catastróficos."
Depois de um caso espantoso e midiático como o de Silvio Santos
e sua filha, o contingente cada vez maior de vítimas em potencial
de seqüestros banais e anônimos se pergunta para que lado vai
a coisa.
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O
ALÍVIO, A DOR, O HORROR,
O HORROR
Alguns
dos casos mais notórios do país exemplificam o suplício
das vítimas e a barbárie dos seqüestradores
Clique
nos números para ler as legendas
Itamar Miranda/Ag.
Estado
 |
Ag. Estado/Ed.
Ferreira
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Paulo Jares
 |
Nélio Rodrigues/Álbum
de família
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Aa
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Nellie Solitrenick
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Luis Dantas
 |
Luis
 |
Gladstone Campos
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Fernando Calzzani
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1
Aos 81 anos e quase falido, o empresário Girsz Aronson ficou
catorze dias em poder dos bandidos
2
O irmão do cantor Zezé Di Camargo, Welington, só
voltou depois de três meses e com a orelha mutilada
3
A prova cruel dos bandidos de que o estudante Marcelo Quintella
vivia: num vídeo, ele surge apanhando, vendado
4
Asfixiada, esquartejada e queimada, a pequena Miriam Brandão
morreu porque chorou e chamou pela mãe
5
O
comerciante carioca Ignácio de Loyola passou cinco dias em
poder de criminosos, acorrentado e no escuro
6
Os seqüestradores de Abilio Diniz estavam dispostos a tudo:
a polícia encontrou até um caixão no cativeiro
7
A liberdade do banqueiro Antônio Beltran Martinez teve preço
recorde: 4 milhões de dólares para os bandidos
8
Denúncia anônima ajudou a polícia carioca a
libertar Rosângela Simões em oito dias e sem pagar
resgate
9
A mineira Gleica Fonseca ficou dezoito dias acorrentada em um buraco
na terra. Sua liberdade custou 700 000 dólares
10
O menino Fernando Junqueira foi pego em sua casa por seis pessoas.
Uma delas era professora
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SEQÜESTRADOR
BOM É SEQÜESTRADOR
PRESO
Cenas
como estas têm poder de dissuasão:
ferido no rosto, Manoel de Oliveira
é preso no Paraná; a jovem universitária
Márcia Carrasco, com o namorado,
chora na delegacia; Rosimeire
da Silva e William Gontijo Ferreira,
os assassinos da pequena Miriam,
prestam contas.
Edson Gutti
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Claudio Pedroso
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Nelio Rodrigues
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Thaís
Oyama, Ronaldo França,
Bel Moherdaui e Rosana Zakabi

Saiba mais |
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