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Edição 1 716 - 5 de setembro de 2001
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A vítima pode ser você

Os seqüestros se banalizam e, agora,
na definição de um especialista, "não
exigem mais que um balcão de bar para
combinar o plano e a escolha de um alvo
que renda uns poucos milhares de reais"

O seqüestro é um crime monstruoso. Estabelece um valor em dinheiro para coisas que não têm preço (a vida de um filho, um pai, um irmão) e submete a família da vítima ao suplício de negociar seu ente querido como se fosse mercadoria. O sofrimento do refém pode ser indescritível. Welington Camargo teve uma orelha decepada, os terroristas estrangeiros que capturaram Abilio Diniz mantiveram um caixão para o caso de resolverem assassiná-lo, o empresário Moyses Leão Struchier ficou guardado numa geladeira, o estudante Marcelo Quintella foi torturado para que um vídeo com as cenas de horror vergassem a família (veja no quadro alguns dos casos que mais horrorizaram o país). À natureza intrinsecamente hedionda desse crime se soma agora a sua banalidade. Ao envolver criminosos cada vez mais inexperientes e vítimas cada vez menos ricas, os seqüestros tornaram-se um crime ao alcance de todos – quase tão corriqueiro quanto um assalto no semáforo. Casos protagonizados por quadrilhas sofisticadas, como as que seqüestraram o publicitário Luiz Salles em 1989 (resgate de 2,5 milhões de dólares) ou o banqueiro Antônio Beltran Martinez em 1986 (um recorde de 4 milhões de dólares), são cada vez mais raros. "A imensa maioria dos seqüestros registrados no país neste ano não exigiu mais que um balcão de bar para combinar o plano, três ou quatro pessoas dispostas a se envolver nele e a escolha de um alvo que pudesse render uns poucos milhares de reais", afirma o coronel da reserva José Vicente Filho, especialista em criminalidade.

Traduzindo: a vítima pode ser você. Especialmente se morar em São Paulo, onde os seqüestros vivem uma fase de proliferação (foram 63 no ano passado e 41 só no primeiro trimestre de 2001, contra 5 e 2, respectivamente, no Rio de Janeiro). Uma amostra de casos registrados em agosto na cidade ilustra a pouca sofisticação da atual onda. Capturada no meio da rua, uma estudante de medicina de 23 anos passou 24 horas em cativeiro e foi solta contra o pagamento de 55.000 reais. Dois integrantes da quadrilha, presos a partir do rastreamento das ligações telefônicas, disseram que a vítima havia sido escolhida simplesmente pela suposta ostentação de riqueza do jipe que dirigia, um Terios, da Daihatsu – um veículo apenas médio. Uma semana depois, foi a vez de um estudante de 17 anos que tomava conta da loja de materiais de construção do pai. Os seqüestradores começaram pedindo 200.000 reais, mas acabaram fazendo negócio por 5.000. Não deu tempo: também caíram em razão dos telefonemas rastreáveis, marca registrada de amadorismo.

O que leva bandidos inexperientes a enveredar por ações que até pouco tempo atrás eram de domínio quase exclusivo da "elite" do crime? Como em outros campos da atividade humana, a criminalidade abomina o vácuo. Todas as vezes que a polícia avança sobre um território, os bandidos, em vez de se converter para a honestidade e os bons modos, migram para outro ramo. Foi assim com os assaltos a banco e os roubos de veículos de carga. A disseminação do dinheiro eletrônico esvaziou os caixas dos bancos e a adoção de recursos como o rastreamento de caminhões tornou esse tipo de roubo mais arriscado. O resultado foi que ambas as modalidades decaíram na preferência dos criminosos: 21% no caso dos roubos de carga, ao longo do ano passado; 52% em relação aos assaltos a banco no primeiro semestre deste ano. No caso de São Paulo, a polícia acredita que a nova geração de seqüestradores resulta de uma migração não só de criminosos especializados nesses dois tipos de delito, mas, principalmente, de grupos muito menos organizados – aqueles que, até pouco tempo atrás, se dedicavam a ações primárias, como o seqüestro relâmpago, que envolve o saque em caixas eletrônicos, exatamente a modalidade mais reprimida ultimamente. "Decisões como as de reforçar o policiamento nos locais e fixar um limite de retirada durante a noite podem ter estimulado os bandidos a incursionar pelo seqüestro improvisado, que não deixa de ser uma variante do seqüestro relâmpago", afirma Tulio Kahn, coordenador do Ilanud, órgão da ONU que estuda a criminalidade.

A solução é tão banal quanto os atuais "seqüestros de pobre": prender os bandidos. Ao contrário de assaltos a banco, por exemplo, seqüestros são crimes virtualmente imprevisíveis – a polícia não tem como se prevenir contra eles e os aparatos de dissuasão só estão ao alcance dos muito ricos. Nesse caso, afirma o coronel José Vicente da Silva Filho, "a única forma de prevenção é a repressão", e a onda de seqüestros só irá diminuir à medida que a polícia conseguir mostrar que é capaz de trancafiar os criminosos. A experiência carioca, em que se misturam iniciativa privada e atuação policial, confirma a análise. Exasperado com o surto de seqüestros que bateu em 108 casos em 1995, um grupo de empresários, publicitários e advogados de primeira linha, todos seqüestráveis e alguns até ex-seqüestrados, criou o primeiro disque-denúncia e estabeleceu uma cooperação estreita com a polícia. Para coordenar o processo foi deslocado um executivo do mercado financeiro, José Antônio Borges Fortes. Ex-diretor de banco, ele estabeleceu um sistema de garantia total de sigilo no qual a identidade do denunciante não é revelada nem no momento do pagamento de uma recompensa. O disque-denúncia permitiu a descoberta de dezesseis cativeiros e levou a polícia a fazer mais de trinta prisões. "A lógica do bandido não difere da do senso comum: estabelece uma relação de custo-benefício", diz o coronel Vicente. "Se ele percebe que as ações não vêm tendo sucesso, concluirá que não vale a pena investir nelas. O contrário é igualmente verdadeiro: o fracasso da polícia agora poderá ter efeitos catastróficos." Depois de um caso espantoso e midiático como o de Silvio Santos e sua filha, o contingente cada vez maior de vítimas em potencial de seqüestros banais e anônimos se pergunta para que lado vai a coisa.

O ALÍVIO, A DOR, O HORROR, O HORROR

Alguns dos casos mais notórios do país exemplificam o suplício das vítimas e a barbárie dos seqüestradores

Clique nos números para ler as legendas
Itamar Miranda/Ag. Estado
Ag. Estado/Ed. Ferreira
Paulo Jares
Nélio Rodrigues/Álbum de família
Aa
Nellie Solitrenick
Luis Dantas
Luis
Gladstone Campos
Fernando Calzzani

1 Aos 81 anos e quase falido, o empresário Girsz Aronson ficou catorze dias em poder dos bandidos

2 O irmão do cantor Zezé Di Camargo, Welington, só voltou depois de três meses – e com a orelha mutilada

3 A prova cruel dos bandidos de que o estudante Marcelo Quintella vivia: num vídeo, ele surge apanhando, vendado

4 Asfixiada, esquartejada e queimada, a pequena Miriam Brandão morreu porque chorou e chamou pela mãe

5 O comerciante carioca Ignácio de Loyola passou cinco dias em poder de criminosos, acorrentado e no escuro

6 Os seqüestradores de Abilio Diniz estavam dispostos a tudo: a polícia encontrou até um caixão no cativeiro

7 A liberdade do banqueiro Antônio Beltran Martinez teve preço recorde: 4 milhões de dólares para os bandidos

8 Denúncia anônima ajudou a polícia carioca a libertar Rosângela Simões em oito dias e sem pagar resgate

9 A mineira Gleica Fonseca ficou dezoito dias acorrentada em um buraco na terra. Sua liberdade custou 700 000 dólares

10 O menino Fernando Junqueira foi pego em sua casa por seis pessoas. Uma delas era professora

 

SEQÜESTRADOR BOM É SEQÜESTRADOR PRESO

Cenas como estas têm poder de dissuasão: ferido no rosto, Manoel de Oliveira é preso no Paraná; a jovem universitária Márcia Carrasco, com o namorado, chora na delegacia; Rosimeire da Silva e William Gontijo Ferreira, os assassinos da pequena Miriam, prestam contas.

 
Edson Gutti
Claudio Pedroso

 
Nelio Rodrigues

Thaís Oyama, Ronaldo França,
Bel Moherdaui e Rosana Zakabi

 

 
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