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De religioso a bandidoA
história da metamorfose de Fernando
Ricardo Mendonça e Guido Orgis
Fernando Dutra Pinto e Esdras, irmãos e comparsas, nasceram em Guarulhos, na Grande São Paulo, de uma família cristã de classe média. O pai Antônio, motorista, a mãe Anésia, dona-de-casa, e os seis irmãos são conhecidos membros da Assembléia de Deus, uma seita evangélica que já se pode chamar de tradicional num ramo que gera novas denominações a cada ano. Fernando era um garoto tranqüilo, estudioso e prestativo. Nunca tirou nota vermelha na escola. Terminou o 2º grau em 1999 e tinha planos de formar-se advogado. "Namoramos dois anos, acabou, mas ficamos superamigos depois", conta Sônia Regina Dourado, hoje com 31 anos, mãe de dois filhos. Fernando organizava eventos sociais da igreja, cantava no coral e chegou a liderar o grupo de jovens da congregação. Era um campeão comunitário. Formou mutirões de pintura de casas e escolas. "Ele era um batalhador que sempre ajudou todo mundo por aqui", diz a dona-de-casa Sônia de Fátima Barbosa. Aos 15 anos, Fernando começou a trabalhar como empacotador num pequeno supermercado da cidade de Itapevi, o San, de onde foi demitido por ser considerado lento. "Ele era bom e calmo, mas o serviço exigia mais esperteza", explica Setsuko Sato, dona do estabelecimento. Todas essas pessoas que conviveram com o Fernando de bom comportamento ficaram chocadas com o seqüestrador e assassino que descobriram na semana passada. Tentavam entender a brusca mudança ocorrida tanto no rapaz quanto em seu irmão Esdras. "Não foi isso que semeamos", disse o pai, que chegou a ser pastor da igreja durante alguns anos.
Embora fortemente arraigada no instrumental populista, a idéia de que o crime é fruto exclusivo de condições sociais adversas é tão atraente quanto falsa. São inúmeras as evidências estatísticas de que muitos adolescentes cometem delinqüências e pequenos furtos. Por que apenas alguns, e não a maioria, passam ao banditismo pesado como ocorreu com Fernando Dutra Pinto e o irmão? As razões são várias. Mas todas têm em comum o fato de que o jovem passa por um momento de ruptura com seus valores familiares, religiosos e sociais quando se torna um bandido. "A pessoa simplesmente perde o controle interno, o freio que a impedia de cometer crimes. Chame esse freio de moralidade pessoal ou caráter, o certo é que ele perde o efeito", diz Leda Cosmides, pesquisadora americana da Universidade da Califórnia. Com os irmãos Dutra Pinto a ferrugem dos valores religiosos começou bem antes, longe dos olhos dos vizinhos. A princípio ninguém estranhou muito quando eles passaram a freqüentar a igreja apenas em datas cerimoniais. Isso é comum. Os jovens têm de ganhar a vida, muitas vezes longe de casa, a igreja passa a ser uma atividade secundária. Também acharam normal quando o tímido Fernando se tornou um namorador ousado e inconstante. O alarme deveria ter soado quando Fernando teve seu primeiro envolvimento com a polícia. Há três anos, foi pego por uma patrulha policial com um revólver Taurus calibre 22 preso à cintura. Antônio pagou a fiança para libertar o filho. Dez meses depois, antes mesmo de o inquérito da primeira apreensão ter sido concluído, Fernando foi preso novamente por porte ilegal de arma. Dessa vez, um Taurus 38, o mesmo calibre usado pela polícia.
Dizem os especialistas que os pais deveriam ter dado um basta no garoto naquele momento. "No fundo, no fundo, não existem medidas públicas capazes de mudar os mecanismos internos de controle que fazem de um adolescente normal um bandido", diz a professora Leda Cosmides, uma das maiores estudiosas do fenômeno da criminalidade nos Estados Unidos. O que a professora afirma, em resumo, é que não há medida tomada por governos que seja capaz de impedir que surjam novos Fernandos de lares relativamente estáveis mesmo quando encravados em vizinhanças de classe média e, portanto, livres das carências materiais extremas com que se acostumou no Brasil a justificar até os crimes mais bárbaros. Criminosos em potencial como eram Fernando e Esdras depois de deixar a igreja podem ter sua trajetória interrompida mais facilmente pela família do que pela Justiça ou pela polícia. Ou mesmo pela religião. "A Febem está cheia de garotos que foram contidos por suas igrejas até a adolescência e, então, sentindo-se liberados, passaram a cometer crimes", diz Fátima Marques, psicóloga e assistente técnica da Febem em São Paulo.
Cerca de dois meses atrás, os Dutra Pinto mudaram para a Zona Leste de São Paulo. A família instalou-se numa casa decente com três quartos, dois banheiros, sala e cozinha, que custou 60.000 reais e foi paga com contribuição de todos os filhos e filhas. Fernando e o irmão Esdras, seu companheiro inseparável, não tinham nenhuma ocupação conhecida. Não estudavam, não trabalhavam nem tinham renda. Mas decidiram alugar uma casinha numa rua próxima à casa dos pais. "Fernando andava frustrado desde que foi reprovado no vestibular de direito", lembra seu pai. "Foi aí que ele disse que tinha de dar um jeito na vida, arrumar dinheiro para comprar as coisas que queria." Nesta última temporada, Fernando almoçava e jantava com a família todos os dias. Na entrada e na saída, pedia a bênção dos pais. Todas as tardes, às 16 horas, sentava-se com o irmão à beira da calçada. Os dois bebiam cerveja, fumavam e conversavam por uma hora. Foi nesse tempo que Fernando planejou, cuidadosamente e por escrito, o golpe que atrairia a atenção de todo o país e arruinaria sua vida. "Nessa fase da vida, quando nada do que a família planejou parece dar certo, o jovem quer se sentir importante, o maioral, e arrisca tudo", explica Rafik Jorge Chakur, psicólogo do Projeto Pixote da Universidade Federal de São Paulo, que reabilita menores infratores. "Ao lado do psicológico e do social, o componente econômico pode ser crucial para entender esses ritos de passagem do bem para o mal", sugere Gary Becker, economista da Universidade de Chicago, ganhador do Prêmio Nobel de sua especialidade. Becker é autor de um estudo célebre intitulado Crime e Castigo: uma Abordagem Econômica. Sua obra mostra de maneira prodigiosamente simples que a ação criminosa que visa obter vantagem material e não aquelas derivadas da paixão ou da loucura é precedida de um cálculo de risco/benefícios. "Se o criminoso decide agir é porque mentalmente chegou à conclusão de que tem chances de sair ileso e, em caso de ser preso, pagar um preço não exorbitante à sociedade", diz Becker. Fernando Dutra Pinto agiu como um calculista ousado nos últimos dias. Cada passo dele foi dado de acordo com o cálculo proposto pelo economista ganhador do Nobel. Na decisão de voltar à casa de Silvio Santos na manhã de quinta-feira o cálculo fica óbvio. Como fugitivo, sua sentença de morte estava lavrada, se fosse apanhado pela Polícia Civil de São Paulo, depois de matar dois de seus integrantes num tiroteio. Cometendo um segundo crime diante das câmaras de televisão, pelo menos sobreviveria. E foi isso que aconteceu.
Com reportagem de Gabriela Carelli
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