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Um brasileiro tranqüilo

Ao contrário de outras celebridades, Silvio
Santos nunca foi obcecado por segurança.
Ele acreditava que sua fama o protegeria

Ricardo Valladares

 
Ronaldo Ceravolo

Diferentemente do que acontece com outros milionários e celebridades brasileiras, a segurança pessoal era um tema secundário para Silvio Santos. Isso já saltava aos olhos na primeira vez em que o encontrei, em 1992, durante uma gravação do famoso Topa Tudo por Dinheiro. Caminhando entre as pessoas que fariam parte do auditório, antes de o programa começar, Silvio não contava com nenhum esquema de proteção. Muitos cortavam o seu caminho, tocavam nele, o agarravam e ele nunca se sobressaltava. Ouvia enquanto podia, encerrava a conversa quando achava que tinha de encerrar e exibia uma calma incomum entre gente famosa. Fosse qual fosse a situação, ele saberia como lidar com ela: era isso o que aparentava. Em outra ocasião, fiz plantão diante de sua casa para conseguir uma declaração. Silvio chegou depois de meia hora, dirigindo sozinho um Passat. Corri até a porta da garagem e entrei junto com ele, sem que ninguém me impedisse. Silvio não demonstrou surpresa. Saiu do carro e simplesmente me abriu um sorriso.

 
Claudio Rossi
NO ESCRITÓRIO
Silvio Santos nunca se preocupou muito com sua segurança. Achava que um homem popular como ele não seria molestado por bandidos. Ele foi assaltado algumas vezes, mas sempre se livrou com uma boa conversa na hora do ataque

Meu contato mais longo com ele se deu em abril do ano passado. Como responsável pela cobertura de televisão de VEJA, estive com Silvio para uma série de entrevistas. Conversamos por 25 horas e os bate-papos confirmaram a primeira impressão. Silvio é dono de uma fortuna que gira em torno dos 900 milhões de reais. Mesmo assim, não demonstrava ter medo de assaltos ou seqüestros. Sua despreocupação se baseava na idéia de que sua fama, em vez de expô-lo, o protegia. "Já tentaram me assaltar três vezes. Os ladrões sempre devolveram tudo ao ouvir a voz do Silvio Santos", contou, rindo. Ele tinha uma visão estóica da violência. "Se estamos no meio de uma guerra urbana, vamos fazer o quê? Não adianta ter medo", repetia para seu grande amigo, o cabeleireiro Jassa. Exemplo desse seu comportamento foi a terceira tentativa de assalto, que ocorreu há dois anos, na badalada Rua Oscar Freire, em São Paulo. Dois sujeitos armados bateram no vidro de seu carro e o mandaram entregar o relógio. Ele obedeceu. Ao reconhecê-lo, os ladrões ficaram surpresos e imediatamente o devolveram. Um cidadão comum sairia correndo. Silvio, não. Engatou uma conversa e acabou dando 100 reais para cada um dos delinqüentes. Depois do incidente, preocupado com a mulher e as filhas, decidiu blindar os carros da família. Mandou ainda instalar nos automóveis equipamentos como sirenes e alto-falantes, para espantar os bandidos que agem no trânsito. Em sua casa, havia um circuito de vídeo e um sistema de alarme ligado a uma empresa de segurança residencial – nada que uma casa de classe média não pudesse ter. Dos quinze funcionários que lá trabalhavam, apenas três eram incumbidos da vigilância. Revezavam-se de oito em oito horas e desempenhavam apenas o papel de porteiros, abrigados numa guarita à prova de balas. Silvio não empregava guarda-costas – mais uma vez, por acreditar que o simples fato de ser Silvio Santos o protegia do perigo. Gostava de dirigir sozinho seus carros e sobretudo de passear com seu incomum Lincoln Continental branco, de capota verde. "Quando saio com esse carro, todo mundo me reconhece e abre passagem", dizia ele.

Robson Fernandes/AE
COM A FILHA LIBERTADA
O apresentador abraça Patrícia na sacada de sua casa, quando ela prestava um longo depoimento à imprensa sobre o seu seqüestro e os seqüestradores. Patrícia falou muito em Deus e em injustiça social. Esqueceu que Silvio é o maior pagador de IR do Brasil

Uma das características marcantes de Silvio Santos é que nada parece abatê-lo – o que, claro, não é completamente verdade. Recentemente, teve sintomas de depressão. Não tinha ânimo nem mesmo para levantar da cama. Tentou curar-se à base de Prozac, mas não se deu bem com o remédio, que o deixava muito irritadiço. Para dormir, Silvio precisa recorrer a um tranqüilizante. Volta e meia afirma que as mortes de seu pai, de seu irmão e de sua primeira mulher, Maria Aparecida, foram as únicas coisas que o abalaram profundamente. A partir de agora passará a incluir nesse rol o seqüestro de sua filha e o seu próprio. Ele evita falar sobre o assunto, mas suas relações familiares têm sido fonte de certa angústia. O casamento com Íris Abravanel já passou por muitos solavancos – o último deles há dois meses, quando até se noticiou uma separação. Silvio chegou a dormir em uma cama armada no escritório de sua casa.

 
Antonio Milena
Claudio Rossi
O AMIGO E A MULHER
O cabeleireiro Jassa (à esq.), de quem é cliente e amigo. Íris (à dir.), que é muito religiosa

Como ficou claro na entrevista concedida por Patrícia Abravanel na terça-feira passada, depois do desfecho de seu seqüestro, a religião é motivo de conflito na casa de Silvio. Evangélica assim como a mãe, com a qual freqüenta a Igreja Nova Vida e presta serviço comunitário numa escolinha da instituição, Patrícia lamentou a "falta de Deus" no coração do pai. Judeu que respeita os jejuns de sua crença e lê o Velho Testamento em busca de inspiração, ele diz que não tem nada contra os evangélicos – e até admira seu concorrente, o bispo Edir Macedo, dono da Rede Record. Mas seu desconforto com as carolices de Íris é evidente. No depoimento que prestou à imprensa, Patrícia chegou a atribuir a criminalidade brasileira à injustiça social – e disse que o pai poderia ajudar muito nesse terreno. Esqueceu-se de que Silvio já ajuda. É a pessoa física que mais paga imposto de renda no Brasil. Se os sonegadores o imitassem, pagando corretamente o que escondem da Receita, o Brasil seria um país mais equilibrado e mais justo.

 

Com reportagem de Beatriz Baldim,
Cley Scholz, Felipe Patury, Lia Abbud, Luís Henrique Amaral,
Joana Calmon e Sérgio Ruiz Luz

 
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