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O organizado
Fernando instalou-se no flat de Alphaville sob o nome de Claudemir Souza
e a profissão de músico depois de receber o resgate. À
noite, foi visto no restaurante. Tomou um uísque Red Label e uma
dose de martini e fumou cigarros Free. Ninguém o acompanhava. Na
manhã seguinte, saiu moreno, como sempre foi, e voltou da rua louro,
cheio de pacotes. Comprou ternos e sapatos. Entre a saída e a volta,
uma camareira foi limpar seu apartamento e tomou um susto diante da quantidade
de armas que viu embaixo da cama. Por isso um segurança do hotel
telefonou ao delegado Armando Bélio, do 91º Distrito de São
Paulo. Bélio mandou três investigadores para o flat. Fernando
ainda não tinha retornado. Eles abriram o apartamento, confirmaram
a existência de armas, encontraram o dinheiro 464.850
reais e chamaram o delegado, que foi lavrar um auto de apreensão
na delegacia e deixou para trás os três policiais. "Não
fiz ligação com o caso do seqüestro", sustenta o delegado.
"Por isso não acionei na hora a delegacia especializada." O chefe
da Delegacia Anti-Seqüestro, Wagner Giudice, soube, porém,
que havia a possibilidade de pegar um suspeito em Alphaville. Mandou para
lá mais três policiais, com a missão de ajudar os
que tinham chegado primeiro. Foi depois disso que o seqüestrador
chegou, matou e fugiu.
Fernando
imaginava que, tendo matado policiais civis, seria trucidado se fosse
encontrado por colegas deles. Por isso exigiu que a Polícia Civil
ficasse fora das negociações e não se contentou com
uma garantia qualquer. Fez Silvio Santos telefonar ao secretário
de Segurança, Marco Vinício Petrelluzzi, para exigir a presença
do governador Geraldo Alckmin. Caso contrário não se entregaria.
O momento do telefonema ao secretário foi um dos poucos em que
Silvio exibiu nervosismo. Fez um apelo pela presença do governador
e disse que as ameaças que sofria pareciam sérias. "Havia
tantos argumentos a favor da minha ida até lá quanto contra",
diz Geraldo Alckmin. "Tive de tomar uma decisão de médico:
a gente erra menos quando age." Depois que Alckmin chegou, bastaram quinze
minutos para que o bandido se entregasse à Polícia Militar.
O governador disse ao seqüestrador que dava sua fiança pessoal
pela vida de Fernando. O rapaz entregou as armas, pediu para tomar um
banho e saiu num carro da polícia usando roupas de Silvio Santos.
Foi levado para um presídio que não é controlado
pela Polícia Civil nem está subordinado à Secretaria
da Segurança, e sim à de Administração Penitenciária.
Essa
segunda ação do bandido no mesmo cenário pôs
todo o Brasil diante da televisão. Quatro redes de TV transmitiram
ao vivo e foram muito além de suas médias de audiência
no horário. Num episódio raríssimo, a Rede Globo
transmitiu direto, durante cinco horas e quarenta minutos, sem intervalos
comerciais. De tudo o que aconteceu na frente da casa, só a entrada
do seqüestrador não foi mostrada pela TV. Mas foi vista. A
repórter de televisão Carla Augusta Sant'anna, da Rede Bandeirantes,
dava plantão diante da residência de Silvio, para tentar
uma entrevista. Ela viu um rapaz suspeito passar diante da casa e encostar-se
no muro, atrás da guarita ocupada pelo porteiro. Passou a observá-lo
e notou quando ele saltou para dentro do quintal. Foi Carla quem avisou
o porteiro da invasão. Câmaras de TV foram ligadas logo em
seguida e só pararam de funcionar depois das 3 da tarde, quando
as filhas e a mulher de Silvio voltaram para casa.
Por que
Fernando imaginou que teria garantia de vida voltando à residência
do apresentador? A atitude pode parecer louca, porque reproduz a clássica
teoria de que o bandido sempre volta ao local do crime. E pode também
parecer genial, porque ali seria o último lugar em que o procurariam.
Mas o seqüestrador de Patrícia tinha pelo menos duas razões
que não eram fruto nem de loucura nem de genialidade. A primeira
decorria de sua situação: perseguido, ferido, sem o dinheiro
do resgate e certo de que acabaria pego, ele acreditava precisar de um
trunfo para negociar sua rendição sem o risco de cair nas
mãos da Polícia Civil. "Ele foi para lá assim como
poderia ter ido para uma emissora de rádio", diz o capitão
Diógenes Vieira Lucca, comandante do Grupo de Ações
Táticas Especiais da polícia paulista, especializado em
negociações. A outra razão tem contorno psicológico.
Ao contar como foi tratada no cativeiro, logo após a libertação,
Patrícia disse perdoar os seqüestradores, afirmou ter rezado
junto com eles e revelou ter tido uma estada cordial com os bandidos.
O pai, por seu lado, até fez brincadeira com o assunto. Especialistas
entendem que, diante disso, o bandido pode ter sentido que receberia ajuda
se os procurasse. "Quando Patrícia abriu os braços para
falar dos seqüestradores, o Fernando entendeu que seria acolhido
na casa de Silvio, que na verdade pode ser seu ídolo", diz a psicanalista
Anna Verônica Mautner, de São Paulo.
Essa tese,
mesmo que fundamentada do ponto de vista psicanalítico, acaba dando
uma medida da situação de balbúrdia alcançada
na questão da segurança em São Paulo. Assim como
se critica Silvio Santos por ter um esquema de segurança frágil
para uma pessoa com sua fortuna e projeção, joga-se para
a vítima parte da responsabilidade de ter sido alvo de um criminoso.
Como se o bandido, com sua perversidade, e a polícia, com suas
falhas, pouco tivessem a ver com a segurança do cidadão.

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