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Edição 1 716 - 5 de setembro de 2001
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Seja infeliz, leitor

"Os povos mais felizes do mundo
são os hispânicos. Imagino que
os brasileiros se encaixem nessa
categoria. Vemos o lado bom até
do pau-de-arara"

Você é feliz? O professor Ed Diener, da Universidade de Illinois, é um estudioso da felicidade. Numa entrevista para a revista New Scientist, citou uma pesquisa com os favelados da Índia, segundo a qual, por incrível que pareça, um miserável mal nutrido com renda diária de 5 dólares tende a ser mais feliz que um miserável faminto com renda diária de 1 dólar. A seguir, Diener analisou o caso dos milionários que aparecem na lista da revista Forbes. Concluiu, novamente com estupor, que o proprietário de um iate de 70 metros costuma ser mais feliz que, digamos, um cobrador de ônibus.

Descontando-se o fator financeiro, porém, os povos mais felizes do mundo, de acordo com o professor, seriam os hispânicos. Imagino que os brasileiros se encaixem nessa categoria. Como todos os hispânicos, teríamos a capacidade de ver o lado bom das coisas. Um perfeito exemplo de nosso comportamento é que apenas 30% dos brasileiros confiam na democracia. Ou seja, vemos o lado bom até do pau-de-arara. Outro dado que confirma essa tendência é que 80% dos brasileiros gostariam que aumentasse a presença estatal na economia. Significa que vemos o lado bom daqueles velhos bancos falidos e daquelas velhas filas para comprar telefone.

A felicidade dos hispânicos, para o professor Diener, também é motivada pela absoluta falta de sentimento de culpa que caracteriza nossas culturas. Na recente polêmica com o técnico Luiz Felipe Scolari, o goleiro paraguaio José Luís Chilavert lembrou as terras que o Brasil roubou durante a Guerra do Paraguai. Terras que deveríamos indenizar. Assim como deveríamos indenizar nossos índios, os descendentes de escravos, os imigrantes europeus trazidos para o Brasil com falsas promessas e qualquer outra pessoa que tenha tido o azar de nascer no país. Duvido que algum jogador de futebol brasileiro saiba das atrocidades que cometemos no Paraguai. Ignoramos o sentimento de culpa. Para a nossa imensa felicidade.

O professor afirma que a felicidade tem o poder de incrementar as defesas imunológicas e de garantir maior longevidade. É o que promete o Mestre Li, fundador da seita chinesa Falun Gong. Ele diz que foi mandado à Terra por um ente supremo, para ensinar o caminho da felicidade, salvando a humanidade da arte moderna, do rock, dos alienígenas e da ciência. Ele proíbe seus adeptos de tomar remédios ou consultar médicos: basta ler seus livros de auto-ajuda para ganhar um terceiro olho e curar qualquer doença. A seita é fortemente reprimida pelas autoridades chinesas. Volta e meia alguém se imola em protesto contra o governo, conquistando a felicidade eterna. Mestre Li, muito feliz, vive em Nova York, graças aos direitos autorais de seus livros de auto-ajuda.

Todos os livros de auto-ajuda ensinam a atingir a felicidade. O professor Diener vê com simpatia essas obras, porque a felicidade depende apenas de umas regrinhas de bom senso. Será? Apesar de ser hispânico, costumo ver o lado ruim das coisas. Ao longo da História, nada trouxe tanta infelicidade quanto a busca da felicidade. Espero que você seja feliz. Caso contrário, é melhor fugir de quem estuda felicidade, ensina felicidade ou promete felicidade. Seja orgulhosamente infeliz.

 
 
   
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