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infeliz, leitor
"Os
povos mais felizes do mundo
são os hispânicos. Imagino que
os brasileiros se encaixem nessa
categoria. Vemos o lado bom até
do pau-de-arara"
Você é feliz? O professor Ed Diener, da Universidade de Illinois,
é um estudioso da felicidade. Numa entrevista para a revista New
Scientist, citou uma pesquisa com os favelados da Índia, segundo
a qual, por incrível que pareça, um miserável mal nutrido
com renda diária de 5 dólares tende a ser mais feliz que um
miserável faminto com renda diária de 1 dólar. A seguir,
Diener analisou o caso dos milionários que aparecem na lista da revista
Forbes. Concluiu, novamente com estupor, que o proprietário
de um iate de 70 metros costuma ser mais feliz que, digamos, um cobrador
de ônibus.
Descontando-se o fator financeiro, porém, os povos mais felizes
do mundo, de acordo com o professor, seriam os hispânicos. Imagino
que os brasileiros se encaixem nessa categoria. Como todos os hispânicos,
teríamos a capacidade de ver o lado bom das coisas. Um perfeito
exemplo de nosso comportamento é que apenas 30% dos brasileiros
confiam na democracia. Ou seja, vemos o lado bom até do pau-de-arara.
Outro dado que confirma essa tendência é que 80% dos brasileiros
gostariam que aumentasse a presença estatal na economia. Significa
que vemos o lado bom daqueles velhos bancos falidos e daquelas velhas
filas para comprar telefone.
A felicidade dos hispânicos, para o professor Diener, também
é motivada pela absoluta falta de sentimento de culpa que caracteriza
nossas culturas. Na recente polêmica com o técnico Luiz Felipe
Scolari, o goleiro paraguaio José Luís Chilavert lembrou
as terras que o Brasil roubou durante a Guerra do Paraguai. Terras que
deveríamos indenizar. Assim como deveríamos indenizar nossos
índios, os descendentes de escravos, os imigrantes europeus trazidos
para o Brasil com falsas promessas e qualquer outra pessoa que tenha tido
o azar de nascer no país. Duvido que algum jogador de futebol brasileiro
saiba das atrocidades que cometemos no Paraguai. Ignoramos o sentimento
de culpa. Para a nossa imensa felicidade.
O professor afirma que a felicidade tem o poder de incrementar as defesas
imunológicas e de garantir maior longevidade. É o que promete
o Mestre Li, fundador da seita chinesa Falun Gong. Ele diz que foi mandado
à Terra por um ente supremo, para ensinar o caminho da felicidade,
salvando a humanidade da arte moderna, do rock, dos alienígenas
e da ciência. Ele proíbe seus adeptos de tomar remédios
ou consultar médicos: basta ler seus livros de auto-ajuda para
ganhar um terceiro olho e curar qualquer doença. A seita é
fortemente reprimida pelas autoridades chinesas. Volta e meia alguém
se imola em protesto contra o governo, conquistando a felicidade eterna.
Mestre Li, muito feliz, vive em Nova York, graças aos direitos
autorais de seus livros de auto-ajuda.
Todos os livros de auto-ajuda ensinam a atingir a felicidade. O professor
Diener vê com simpatia essas obras, porque a felicidade depende
apenas de umas regrinhas de bom senso. Será? Apesar de ser hispânico,
costumo ver o lado ruim das coisas. Ao longo da História, nada
trouxe tanta infelicidade quanto a busca da felicidade. Espero que você
seja feliz. Caso contrário, é melhor fugir de quem estuda
felicidade, ensina felicidade ou promete felicidade. Seja orgulhosamente
infeliz.
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