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Edição 1 716 - 5 de setembro de 2001
Entrevista: HENRY LOUIS GATES JR.

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"A indenização é justa"

Professor de Harvard defende políticas
que beneficiem a comunidade negra
para reparar injustiças da escravidão

Eduardo Salgado

 
AP
"Onde estão os rostos negros nas revistas e nos jornais brasileiros, nos ministérios e altos cargos das empresas?"

Diretor do renomado departamento de estudos afro-americanos da Universidade Harvard, Henry Louis Gates Jr. não é um acadêmico qualquer. Amigo de Bill Gates e Michael Jordan, Gates Jr. é um dos negros mais influentes dos Estados Unidos. Nascido numa família pobre, em 1950, passou a infância no sul do país. Quando tinha 14 anos, foi levado ao hospital com a suspeita de fratura no quadril. Ao ouvir que o menino queria cursar medicina, o médico respondeu que ele era um ambicioso sem vergonha e diagnosticou as dores como psicossomáticas, o que se revelou uma mentira em outro hospital. O co-editor da Encarta Africana, a enciclopédia da Microsoft sobre a África e os negros, é casado há 28 anos com Sharon, uma paisagista branca, e tem duas filhas. Maggie, a mais velha, passou o mês de julho estudando português e cultura brasileira na Universidade Federal da Bahia. Gates Jr. recebeu VEJA em seu escritório na Universidade Harvard, abarrotado de livros e fotos em que aparece com a família e com o ex-presidente Bill Clinton, para a seguinte entrevista.

Veja – O assunto mais controverso da Conferência Mundial contra o Racismo, da ONU, é o pedido de indenização para os países africanos e os descendentes de escravos negros. O senhor concorda com a indenização?
Gates Jr. – Sim. O continente africano será devastado se não tomarmos medidas para ajudá-lo. Os negros do Caribe e da América Latina também deveriam ser beneficiados. O presidente do Benin e o de Gana já pediram desculpas por seus antepassados terem lucrado com a caça a escravos no interior da África. Isso é um forte contraste com a posição de grandes líderes do Ocidente que se negam a tratar do tema com honestidade. Alguém acha que João Paulo II perdeu prestígio ao pedir desculpas pela cumplicidade do Vaticano durante o holocausto?

Veja – Já que os escravos eram vendidos na África pelos próprios africanos, e muitos negros enriqueceram com o comércio de seres humanos, por que falar em indenização agora?
Gates Jr. – Não há dúvida de que a escravidão tem milhares de anos e que já existia na África antes do contato com os europeus. Mas foi a demanda européia que fez com que se tornasse tão devastadora. O ponto crucial é o seguinte: foram os europeus, os americanos e os brasileiros brancos que ficaram riquíssimos, não os chefes das tribos africanas.

Veja – Ao contrário do que ocorre com as vítimas do nazismo, todos os que foram escravos estão mortos. Quem teria direito à indenização?
Gates Jr. – Antes de mais nada, precisamos assumir de forma categórica que os países europeus enriqueceram tremendamente em conseqüência da derrocada do continente africano. Graças a determinadas condições políticas e econômicas, a escravidão permitiu a construção do que hoje chamamos de economias modernas na América e na Europa. No que diz respeito à indenização, é óbvio que não espero receber um cheque pelo correio para comprar um Mercedes.

Veja – O presidente Fernando Henrique Cardoso comentou certa vez que tinha um pezinho na cozinha. Isso significa dizer que teria algum ancestral negro. Ele teria direito à indenização?
Gates Jr. – Nos Estados Unidos, negro é todo aquele que tem algum antepassado de origem africana. Por isso, o presidente Fernando Henrique Cardoso seria considerado negro se vivesse em Washington. Quanto à indenização, temos de pensar em compensações ao grupo, não a indivíduos. É preciso encontrar uma fórmula que beneficie a parcela da comunidade negra que necessita de ajuda. Há várias alternativas: perdoar as dívidas externas dos países africanos, entregar medicamentos para combater a epidemia de Aids e ter políticas educacionais voltadas para os negros.

Veja – O que o senhor acha do projeto anunciado pelo governo brasileiro de aumentar a presença de negros em cursos pré-vestibulares para facilitar a entrada deles nas universidades?
Gates Jr. – Isso me parece positivo, mas preciso saber mais para dar minha opinião. Se o movimento negro brasileiro é contra, provavelmente há detalhes que não conheço. Nos Estados Unidos, somos a favor de medidas como essa desde que não sejam usadas contra nós.

Veja – A Conferência da ONU não perderá o foco se tratar de temas não relacionados diretamente ao racismo?
Gates Jr. – É crucial falar do preconceito contra os homossexuais. Mesmo porque há muita gente que sofre por ser de determinada etnia e também por ser homossexual. Mas o sionismo não tem nada a ver com racismo. Não sei por que esse tema foi incluído nas discussões.

Veja – O senhor é vítima de racismo?
Gates Jr. – A herança do racismo é ainda muito presente nos Estados Unidos. As estatísticas mostram que é mais provável um policial parar um carro de luxo dirigido por um negro do que por um branco para conferir se o automóvel não foi roubado. Isso é racismo. Nos Estados Unidos, estamos na melhor e na pior época. Desde a década de 60, as coisas melhoraram muito. Por outro lado, quase 40% das crianças negras vivem na linha da pobreza. Ainda assim, o melhor lugar no Ocidente para um negro viver é os Estados Unidos. Temos um discurso mais honesto e aberto sobre racismo do que qualquer outro país na América.

Veja – No Brasil, houve uma miscigenação sem paralelo nos Estados Unidos. Isso não é prova de democracia racial?
Gates Jr. – O Brasil nega o tempo inteiro a existência do racismo, mas onde estão os rostos negros nas revistas e nos jornais brasileiros, nos ministérios e altos cargos das empresas? Não esqueçamos: o Brasil é o segundo maior país negro do mundo, atrás somente da Nigéria. Nos Estados Unidos, os negros são por volta de 10% da população. No Brasil, são quase a metade. Por isso, as políticas em favor dos negros devem ser adotadas com mais urgência.

Veja – É possível vencer a batalha contra o preconceito racial?
Gates Jr. – A causa do racismo é econômica. As tensões entre cristãos e islâmicos na Bósnia têm claras conotações econômicas. É assim com o anti-semitismo. Os judeus foram perseguidos por ser bem-sucedidos, ainda que judeus pobres tenham sido vítimas do anti-semitismo na Rússia e na Alemanha. O caso dos negros é dialético. São discriminados porque estão na base da pirâmide social e estão na base da pirâmide social porque são discriminados. Adolf Hitler teve de colocar estrelas amarelas nas roupas dos judeus para torná-los visíveis. Com os negros, a natureza encarregou-se de fazer a diferença. Para aplacar as conseqüências do racismo no caso específico dos negros, a solução é fazer com que um número crescente deles suba na pirâmide social. Vivo num bairro de classe média na cidade de Cambridge, em Massachusetts, e ninguém me chama de crioulo. Quanto mais sucesso você tem na profissão, mais o racismo diminui.

Veja – Quais são as principais diferenças entre o racismo nos Estados Unidos e o do Brasil?
Gates Jr. – O combate ao racismo nos Estados Unidos é tão difícil quanto no Brasil. Os dois países tiveram sistemas escravocratas por um longo tempo. Minha faxineira é brasileira. Começou por baixo, não falava quase nada de inglês. Hoje é fluente, tem uma empresa, limpa várias casas e aposto que seus filhos vão estudar nas melhores universidades americanas. Qual é o outro país do mundo que oferece essas oportunidades? Dos sistemas que conheço, o capitalismo é o mais justo, o que permite a ascensão social de qualquer indivíduo, independentemente da cor da pele e da origem. Infelizmente, o sistema capitalista nem sempre é aplicado da melhor forma.

Veja – Muitos imigrantes, entre eles brasileiros, "estão fazendo a América". Por que tantos negros americanos não conseguem sair dos guetos?
Gates Jr. – Não é sequer uma questão de cor da pele. Cambridge está cheia de negros haitianos donos de táxi, com casa própria e filhos em escolas particulares. Detalhe: falam mal inglês e grande parte deles tem um nível educacional muito baixo. O sucesso decorre do fato de o imigrante descer do avião sem passado e apenas com o futuro na nova terra. Os negros americanos não se comportam como imigrantes. Muitos deles foram vencidos pelo sistema. Se você tentar ir além, será puxado para baixo. Lá em casa tem um cartaz na cozinha que diz o seguinte: "Planejar um jardim é acreditar no futuro". Depois de 200 anos de opressão, o que aconteceu foi que os negros deixaram de acreditar no futuro.

Veja – Por que isso não aconteceu com o senhor?
Gates Jr. – É por causa de minha família que sou um professor de renome e meu irmão é um médico famoso em Nova York. Meu pai era operário. Trabalhava numa indústria de papel e numa empresa de telefonia para pagar nosso estudo. Minha mãe nunca cansou de dizer que poderíamos ser o que quiséssemos. Dizia que éramos lindos, brilhantes e maravilhosos. É aquela história. Se você insistir diariamente nos elogios, até um macaco é capaz de acreditar. O ambiente a minha volta sempre reforçava a idéia de que um dia seria bem-sucedido. Não sabia se seria um psiquiatra, um cirurgião ou um advogado. Isso é como ter turbinas amarradas às costas. Esse fator foi importante, mas não explica tudo. Há uma questão que é estrutural. No século XIX, você podia ser a pessoa mais inteligente do mundo, mas se tivesse a pele escura não seria aceito.

Veja – O senhor é a favor da ação afirmativa, a adoção de políticas em favor de determinados grupos?
Gates Jr. – Claro. Entrei na Universidade Yale junto com outros 96 estudantes negros na década de 70. No ano anterior, apenas seis se formaram. Caso Yale não tivesse incentivado a entrada de estudantes negros oriundos das classes trabalhadora e média, jamais teria tido a chance de estudar lá. Negros e brancos não começam a corrida a partir da mesma linha. Fomos preteridos durante muito tempo. É por isso que os Estados Unidos e o Brasil precisam de mais ação afirmativa. Essa é a maneira mais eficiente de promover a mobilidade social. Desde a morte de Martin Luther King, em 1968, a classe média negra dos Estados Unidos quadruplicou.

Veja – A criação de cotas não é uma injustiça para pessoas competentes, que podem ser preteridas apenas porque são brancas?
Gates Jr. – Sou totalmente contra as cotas. A ação afirmativa apenas faz com que a questão racial seja considerada na hora da seleção, não que seja o fator determinante. A Universidade Harvard poderia preencher todas as suas vagas com homens brancos, todos com notas altíssimas. Mas será que isso seria interessante para a instituição e a sociedade? Claro que não. A diversidade é importante. Precisamos de mulheres e homens do Brasil, da Inglaterra, da Nigéria. Cristãos, muçulmanos, budistas. Harvard quer educar os líderes do mundo, não apenas os dos Estados Unidos. Nessa instituição, levam-se tantas coisas em conta na hora da seleção dos alunos. Cursos, idiomas, esportes. Por que não a raça?

Veja – Isso não é racismo também?
Gates Jr. – Noventa e seis por cento dos negros admitidos em Harvard acabam o curso. Esse porcentual é maior que o dos alunos brancos.

Veja – Os negros americanos são racistas?
Gates Jr. – Nos Estados Unidos, todo mundo é racista. No movimento negro, também há radicalismo. Mas é errado achar que a maioria dos negros americanos é ligada a extremistas. Os negros são majoritariamente pacíficos.

Veja – O que deve ser feito para resgatar os negros que vivem na pobreza?
Gates Jr. – Precisamos de programas educacionais. Alfabetizar e treinar as crianças. Prepará-las para o futuro. Também precisamos colocar as mães na escola. Para educá-las, para fazer com que ajudem seus filhos. Não adianta deixar uma criança cinco horas na escola se ela vai voltar para uma casa na qual não se valoriza a educação. Não estou dizendo nada de novo. Todos nós sabemos o caminho. O problema é que fazer um negócio desses custa caro.

Veja – Além da questão humanitária, há razões econômicas para fazer esse investimento?
Gates Jr. – Sem dúvida. Estamos desperdiçando o potencial dessas pessoas. Pense bem: o negro que trabalha com o jogo ilegal é um grande matemático. O traficante de drogas sabe tudo de armas e logística. Caso esse pessoal tivesse chances, poderia estar nas universidades, nas grandes empresas e em órgãos do governo. O que um negro nascido numa favela do Rio em uma família sem educação pode fazer para abrir um negócio? A principal motivação dos traficantes das favelas do Rio e dos bairros pobres americanos não é a droga, mas o desafio empreendedor.

Veja – Chama a atenção como a polícia americana costuma tolerar os quebra-quebras em guetos negros, como se eles tivessem direito a fazer baderna. Por que esse privilégio?
Gates Jr. – Isso não é de maneira nenhuma um tratamento especial. É, sim, uma estratégia para evitar algo pior. Se a polícia tivesse tomado alguma atitude no grande quebra-quebra de Los Angeles no começo dos anos 90, as conseqüências seriam muito piores. Como dizem os bombeiros, às vezes é melhor deixar o fogo queimar até se dissipar.

Veja – A globalização dos meios de comunicação ajuda a diminuir a desconfiança entre etnias diferentes?
Gates Jr. –
Outro dia encontrei um motorista peruano que disse ter visto numa pequena cidade dos Andes, pela televisão, o secretário de Estado Colin Powell quando ainda era o comandante do Exército americano. A primeira reação desse peruano foi de incredulidade. Um negro comandante? Muita gente ainda acredita que não existem negros inteligentes. O acesso aos meios de comunicação aos poucos vai mudando a imagem que se tem sobre as raças. Mas é verdade que existe o perigo de tudo ficar parecido com a globalização. Sofro com o seguinte paradoxo: quero que a Bahia continue sendo a Bahia, com seu candomblé e sua culinária. De outro lado, quero que todo mundo saiba onde a Bahia fica e o que representa.


 
 
   
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