"A indenização
é justa"
Professor
de Harvard defende políticas
que beneficiem a comunidade negra
para reparar injustiças da escravidão
Eduardo Salgado
AP
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"Onde
estão os rostos negros nas revistas e nos jornais brasileiros, nos
ministérios e altos cargos das empresas?" |
Diretor do
renomado departamento de estudos afro-americanos da Universidade Harvard,
Henry Louis Gates Jr. não é um acadêmico qualquer.
Amigo de Bill Gates e Michael Jordan, Gates Jr. é um dos negros
mais influentes dos Estados Unidos. Nascido numa família pobre,
em 1950, passou a infância no sul do país. Quando tinha 14
anos, foi levado ao hospital com a suspeita de fratura no quadril. Ao
ouvir que o menino queria cursar medicina, o médico respondeu que
ele era um ambicioso sem vergonha e diagnosticou as dores como psicossomáticas,
o que se revelou uma mentira em outro hospital. O co-editor da Encarta
Africana, a enciclopédia da Microsoft sobre a África
e os negros, é casado há 28 anos com Sharon, uma paisagista
branca, e tem duas filhas. Maggie, a mais velha, passou o mês de
julho estudando português e cultura brasileira na Universidade Federal
da Bahia. Gates Jr. recebeu VEJA em seu escritório na Universidade
Harvard, abarrotado de livros e fotos em que aparece com a família
e com o ex-presidente Bill Clinton, para a seguinte entrevista.
Veja
O assunto mais controverso da Conferência Mundial contra
o Racismo, da ONU, é o pedido de indenização para
os países africanos e os descendentes de escravos negros. O senhor
concorda com a indenização?
Gates
Jr.
Sim. O continente africano será devastado se não tomarmos
medidas para ajudá-lo. Os negros do Caribe e da América
Latina também deveriam ser beneficiados. O presidente do Benin
e o de Gana já pediram desculpas por seus antepassados terem lucrado
com a caça a escravos no interior da África. Isso é
um forte contraste com a posição de grandes líderes
do Ocidente que se negam a tratar do tema com honestidade. Alguém
acha que João Paulo II perdeu prestígio ao pedir desculpas
pela cumplicidade do Vaticano durante o holocausto?
Veja
Já que os escravos eram vendidos na África pelos
próprios africanos, e muitos negros enriqueceram com o comércio
de seres humanos, por que falar em indenização agora?
Gates
Jr. Não
há dúvida de que a escravidão tem milhares de anos
e que já existia na África antes do contato com os europeus.
Mas foi a demanda européia que fez com que se tornasse tão
devastadora. O ponto crucial é o seguinte: foram os europeus, os
americanos e os brasileiros brancos que ficaram riquíssimos, não
os chefes das tribos africanas.
Veja
Ao contrário do que ocorre com as vítimas do nazismo,
todos os que foram escravos estão mortos. Quem teria direito à
indenização?
Gates
Jr. Antes
de mais nada, precisamos assumir de forma categórica que os países
europeus enriqueceram tremendamente em conseqüência da derrocada
do continente africano. Graças a determinadas condições
políticas e econômicas, a escravidão permitiu a construção
do que hoje chamamos de economias modernas na América e na Europa.
No que diz respeito à indenização, é óbvio
que não espero receber um cheque pelo correio para comprar um Mercedes.
Veja
O presidente Fernando Henrique Cardoso comentou certa vez que tinha
um pezinho na cozinha. Isso significa dizer que teria algum ancestral
negro. Ele teria direito à indenização?
Gates
Jr.
Nos Estados Unidos, negro é todo aquele que tem algum antepassado
de origem africana. Por isso, o presidente Fernando Henrique Cardoso seria
considerado negro se vivesse em Washington. Quanto à indenização,
temos de pensar em compensações ao grupo, não a indivíduos.
É preciso encontrar uma fórmula que beneficie a parcela
da comunidade negra que necessita de ajuda. Há várias alternativas:
perdoar as dívidas externas dos países africanos, entregar
medicamentos para combater a epidemia de Aids e ter políticas educacionais
voltadas para os negros.
Veja
O que o senhor acha do projeto anunciado pelo governo brasileiro
de aumentar a presença de negros em cursos pré-vestibulares
para facilitar a entrada deles nas universidades?
Gates
Jr.
Isso me parece positivo, mas preciso saber mais para dar minha opinião.
Se o movimento negro brasileiro é contra, provavelmente há
detalhes que não conheço. Nos Estados Unidos, somos a favor
de medidas como essa desde que não sejam usadas contra nós.
Veja
A Conferência da ONU não perderá o foco
se tratar de temas não relacionados diretamente ao racismo?
Gates
Jr.
É crucial falar do preconceito contra os homossexuais. Mesmo porque
há muita gente que sofre por ser de determinada etnia e também
por ser homossexual. Mas o sionismo não tem nada a ver com racismo.
Não sei por que esse tema foi incluído nas discussões.
Veja
O senhor é vítima de racismo?
Gates
Jr.
A herança do racismo é ainda muito presente nos Estados
Unidos. As estatísticas mostram que é mais provável
um policial parar um carro de luxo dirigido por um negro do que por um
branco para conferir se o automóvel não foi roubado. Isso
é racismo. Nos Estados Unidos, estamos na melhor e na pior época.
Desde a década de 60, as coisas melhoraram muito. Por outro lado,
quase 40% das crianças negras vivem na linha da pobreza. Ainda
assim, o melhor lugar no Ocidente para um negro viver é os Estados
Unidos. Temos um discurso mais honesto e aberto sobre racismo do que qualquer
outro país na América.
Veja
No Brasil, houve uma miscigenação sem paralelo nos Estados
Unidos. Isso não é prova de democracia racial?
Gates
Jr. O
Brasil nega o tempo inteiro a existência do racismo, mas onde estão
os rostos negros nas revistas e nos jornais brasileiros, nos ministérios
e altos cargos das empresas? Não esqueçamos: o Brasil é
o segundo maior país negro do mundo, atrás somente da Nigéria.
Nos Estados Unidos, os negros são por volta de 10% da população.
No Brasil, são quase a metade. Por isso, as políticas em
favor dos negros devem ser adotadas com mais urgência.
Veja
É possível vencer a batalha contra o preconceito
racial?
Gates
Jr.
A causa do racismo é econômica. As tensões entre cristãos
e islâmicos na Bósnia têm claras conotações
econômicas. É assim com o anti-semitismo. Os judeus foram
perseguidos por ser bem-sucedidos, ainda que judeus pobres tenham sido
vítimas do anti-semitismo na Rússia e na Alemanha. O caso
dos negros é dialético. São discriminados porque
estão na base da pirâmide social e estão na base da
pirâmide social porque são discriminados. Adolf Hitler teve
de colocar estrelas amarelas nas roupas dos judeus para torná-los
visíveis. Com os negros, a natureza encarregou-se de fazer a diferença.
Para aplacar as conseqüências do racismo no caso específico
dos negros, a solução é fazer com que um número
crescente deles suba na pirâmide social. Vivo num bairro de classe
média na cidade de Cambridge, em Massachusetts, e ninguém
me chama de crioulo. Quanto mais sucesso você tem na profissão,
mais o racismo diminui.
Veja
Quais são as principais diferenças entre o racismo
nos Estados Unidos e o do Brasil?
Gates
Jr.
O combate ao racismo nos Estados Unidos é tão difícil
quanto no Brasil. Os dois países tiveram sistemas escravocratas
por um longo tempo. Minha faxineira é brasileira. Começou
por baixo, não falava quase nada de inglês. Hoje é
fluente, tem uma empresa, limpa várias casas e aposto que seus
filhos vão estudar nas melhores universidades americanas. Qual
é o outro país do mundo que oferece essas oportunidades?
Dos sistemas que conheço, o capitalismo é o mais justo,
o que permite a ascensão social de qualquer indivíduo, independentemente
da cor da pele e da origem. Infelizmente, o sistema capitalista nem sempre
é aplicado da melhor forma.
Veja
Muitos imigrantes, entre eles brasileiros, "estão fazendo
a América". Por que tantos negros americanos não conseguem
sair dos guetos?
Gates
Jr.
Não é sequer uma questão de cor da pele. Cambridge
está cheia de negros haitianos donos de táxi, com casa própria
e filhos em escolas particulares. Detalhe: falam mal inglês e grande
parte deles tem um nível educacional muito baixo. O sucesso decorre
do fato de o imigrante descer do avião sem passado e apenas com
o futuro na nova terra. Os negros americanos não se comportam como
imigrantes. Muitos deles foram vencidos pelo sistema. Se você tentar
ir além, será puxado para baixo. Lá em casa tem um
cartaz na cozinha que diz o seguinte: "Planejar um jardim é acreditar
no futuro". Depois de 200 anos de opressão, o que aconteceu foi
que os negros deixaram de acreditar no futuro.
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Por que isso não aconteceu com o senhor?
Gates
Jr. É
por causa de minha família que sou um professor de renome e meu
irmão é um médico famoso em Nova York. Meu pai era
operário. Trabalhava numa indústria de papel e numa empresa
de telefonia para pagar nosso estudo. Minha mãe nunca cansou de
dizer que poderíamos ser o que quiséssemos. Dizia que éramos
lindos, brilhantes e maravilhosos. É aquela história. Se
você insistir diariamente nos elogios, até um macaco é
capaz de acreditar. O ambiente a minha volta sempre reforçava a
idéia de que um dia seria bem-sucedido. Não sabia se seria
um psiquiatra, um cirurgião ou um advogado. Isso é como
ter turbinas amarradas às costas. Esse fator foi importante, mas
não explica tudo. Há uma questão que é estrutural.
No século XIX, você podia ser a pessoa mais inteligente do
mundo, mas se tivesse a pele escura não seria aceito.
Veja
O senhor é a favor da ação afirmativa,
a adoção de políticas em favor de determinados grupos?
Gates
Jr.
Claro. Entrei na Universidade Yale junto com outros 96 estudantes negros
na década de 70. No ano anterior, apenas seis se formaram. Caso
Yale não tivesse incentivado a entrada de estudantes negros oriundos
das classes trabalhadora e média, jamais teria tido a chance de
estudar lá. Negros e brancos não começam a corrida
a partir da mesma linha. Fomos preteridos durante muito tempo. É
por isso que os Estados Unidos e o Brasil precisam de mais ação
afirmativa. Essa é a maneira mais eficiente de promover a mobilidade
social. Desde a morte de Martin Luther King, em 1968, a classe média
negra dos Estados Unidos quadruplicou.
Veja
A criação de cotas não é uma injustiça
para pessoas competentes, que podem ser preteridas apenas porque são
brancas?
Gates
Jr. Sou
totalmente contra as cotas. A ação afirmativa apenas faz
com que a questão racial seja considerada na hora da seleção,
não que seja o fator determinante. A Universidade Harvard poderia
preencher todas as suas vagas com homens brancos, todos com notas altíssimas.
Mas será que isso seria interessante para a instituição
e a sociedade? Claro que não. A diversidade é importante.
Precisamos de mulheres e homens do Brasil, da Inglaterra, da Nigéria.
Cristãos, muçulmanos, budistas. Harvard quer educar os líderes
do mundo, não apenas os dos Estados Unidos. Nessa instituição,
levam-se tantas coisas em conta na hora da seleção dos alunos.
Cursos, idiomas, esportes. Por que não a raça?
Veja
Isso não é racismo também?
Gates
Jr. Noventa
e seis por cento dos negros admitidos em Harvard acabam o curso. Esse
porcentual é maior que o dos alunos brancos.
Veja
Os negros americanos são racistas?
Gates
Jr.
Nos Estados Unidos, todo mundo é racista. No movimento negro, também
há radicalismo. Mas é errado achar que a maioria dos negros
americanos é ligada a extremistas. Os negros são majoritariamente
pacíficos.
Veja
O que deve ser feito para resgatar os negros que vivem na pobreza?
Gates
Jr. Precisamos
de programas educacionais. Alfabetizar e treinar as crianças. Prepará-las
para o futuro. Também precisamos colocar as mães na escola.
Para educá-las, para fazer com que ajudem seus filhos. Não
adianta deixar uma criança cinco horas na escola se ela vai voltar
para uma casa na qual não se valoriza a educação.
Não estou dizendo nada de novo. Todos nós sabemos o caminho.
O problema é que fazer um negócio desses custa caro.
Veja
Além da questão humanitária, há
razões econômicas para fazer esse investimento?
Gates
Jr. Sem
dúvida. Estamos desperdiçando o potencial dessas pessoas.
Pense bem: o negro que trabalha com o jogo ilegal é um grande matemático.
O traficante de drogas sabe tudo de armas e logística. Caso esse
pessoal tivesse chances, poderia estar nas universidades, nas grandes
empresas e em órgãos do governo. O que um negro nascido
numa favela do Rio em uma família sem educação pode
fazer para abrir um negócio? A principal motivação
dos traficantes das favelas do Rio e dos bairros pobres americanos não
é a droga, mas o desafio empreendedor.
Veja
Chama a atenção como a polícia americana
costuma tolerar os quebra-quebras em guetos negros, como se eles tivessem
direito a fazer baderna. Por que esse privilégio?
Gates
Jr.
Isso não é de maneira nenhuma um tratamento especial. É,
sim, uma estratégia para evitar algo pior. Se a polícia
tivesse tomado alguma atitude no grande quebra-quebra de Los Angeles no
começo dos anos 90, as conseqüências seriam muito piores.
Como dizem os bombeiros, às vezes é melhor deixar o fogo
queimar até se dissipar.
Veja
A globalização dos meios de comunicação
ajuda a diminuir a desconfiança entre etnias diferentes?
Gates Jr. Outro dia encontrei um motorista peruano que
disse ter visto numa pequena cidade dos Andes, pela televisão,
o secretário de Estado Colin Powell quando ainda era o comandante
do Exército americano. A primeira reação desse peruano
foi de incredulidade. Um negro comandante? Muita gente ainda acredita
que não existem negros inteligentes. O acesso aos meios de comunicação
aos poucos vai mudando a imagem que se tem sobre as raças. Mas
é verdade que existe o perigo de tudo ficar parecido com a globalização.
Sofro com o seguinte paradoxo: quero que a Bahia continue sendo a Bahia,
com seu candomblé e sua culinária. De outro lado, quero
que todo mundo saiba onde a Bahia fica e o que representa.
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