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Sérgio
Abranches
Um
viés do bem
"Sem
ação específica para
eliminar o racismo não se conseguirá
mais do que melhorar a distribuição
de renda entre os brancos"
O presidente do Banco Central, Armínio Fraga, ensinou ao país
que existe a possibilidade de um viés ser positivo. Toda semana
que tem reunião do Copom, para decidir o que fazer com a taxa de
juros, a maioria fica esperando ou que eles caiam ou que, pelo menos,
o BC indique viés de baixa. Nesse caso, o viés sinaliza
que, se tendências ainda difusas da economia se firmarem antes da
próxima reunião do conselho, o presidente do BC poderá
reduzir a taxa de juros sem a necessidade de ouvi-lo.
O Brasil está precisando de outro viés positivo, que direcione
a atuação de instituições públicas
e privadas para uma posição de favorecimento dos negros.
Discriminar positivamente, para eliminar barreiras que impedem o acesso
dos negros à educação, à renda, aos melhores
empregos. Toda vez que trato aqui das desigualdades duráveis do
Brasil, recebo manifestações de uma minoria que se manifesta
contra a idéia de que existe racismo no Brasil e que ele seja a
fonte principal das enormes distâncias sociais que separam os brasileiros
na base e no topo da ordem social e de sua persistência.
Tenho falado muito aqui das duas faces da realidade social brasileira:
a luminosa, marcada por mudanças positivas e avanços inegáveis
em nossa realidade econômica, social e política, e a dolorosa,
definida pela persistência da pobreza, da desigualdade, da corrupção
e de outras mazelas. Elas estão claramente correlacionadas, da
seguinte maneira: há limites para progresso adicional significativo
na redução da pobreza e da desigualdade, se não houver
um claro redirecionamento das ações públicas e privadas.
Mais ainda, se não houver um claro viés racial, a favor
dos negros, o combate à pobreza pode não contribuir para
uma redução significativa das desigualdades.
A desigualdade é alta e durável no Brasil porque ela tem
cor. A cor determina uma diferenciação entre brasileiros
que se justapõem à estratificação social,
seja por classes, seja por ocupações. Nas classes mais altas
quase não há negros. No proletariado de menor qualificação,
os negros predominam. Os de maior qualificação são
majoritariamente brancos. Se, para simplificar, dividirmos os grupos ocupacionais
no Brasil em três, no mais baixo, estão 19% dos brancos e
30% dos negros. No intermediário se concentram 49% dos brancos
e 59% dos negros. No mais alto, encontram-se 32% dos brancos e 11% dos
negros. Claro, existem muitos brancos muito pobres, mas são a parcela
minoritária. A maioria dos mais pobres é de negros e, principalmente,
negras, vítimas de dupla discriminação, pela cor
e pelo gênero.
O que a maioria não reconhece é a existência desse
componente puramente racial da desigualdade. Dentro de cada grupo social
ou ocupacional, os brancos têm, na média, situação
bem melhor que os negros. Nelson do Valle Silva deu os números
em estudo recente. Um trabalhador manual rural branco tem um salário
médio que é o dobro daquele pago a um trabalhador manual
rural negro. Ambos são trabalhadores manuais rurais,
mas um é branco e o outro negro. Essa única diferença
está associada a uma distância salarial de 100%.
Sem ação específica para eliminar o racismo não
se conseguirá mais do que melhorar a distribuição
de renda entre os brancos, que não é tão escandalosamente
desigual como é entre brancos e negros. As barreiras são
raciais, não são econômicas. Para superá-las
não basta aumentar o emprego e elevar os salários de base
de todos. É preciso fazê-lo com viés para eliminar
as diferenças por cor, deixando apenas aquelas ligadas à
qualificação e às aptidões pessoais. Há
formas menos conflituosas e mais inteligentes de ação afirmativa
que as cotas.
Nenhuma política econômica pode romper o sutil bloqueio do
"perfil adequado" ao acesso de negros aos melhores cargos e funções
oferecidos no mercado. Só um viés a favor fará com
que um negro ou negra, com igual ou melhor qualificação
que seus concorrentes brancos a um cargo de gerência, não
ouça mais a resposta "você se saiu muito bem, mas não
tem exatamente o perfil de que nossa empresa está precisando".
Fernando Henrique Cardoso fez um gesto inédito da história
da Presidência brasileira: assumiu o reconhecimento coletivo da
existência do racismo no documento que o Brasil apresenta à
Conferência Mundial contra o Racismo. Foi o primeiro passo de uma
longa caminhada. Ele ainda pode dar o próximo, antes de terminar
seu governo, adotando iniciativas pioneiras de ação afirmativa.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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