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Duas histórias de mulheres
Uma
francesa e uma italiana às voltas com o nascimento,
a morte e os extremos do sofrimento e da paixão
Christine, a
francesa, e Roberta, a italiana. Ambas mulheres, ambas
jovens (28 e 31 anos), ambas protagonistas de histórias
que na semana passada saíram nos jornais. São
histórias diferentes, ocorridas em países diferentes,
em contextos diferentes. Mas talvez, no fundo, queiram
dizer uma mesma coisa, ou uma coisa parecida.
Christine Malèvre
entrou em 1996, aos 25 anos, no serviço de enfermagem do
hospital François Quesnay, em Mantes-la-Jolie, nas
proximidades de Paris. Formou-se em primeiro lugar em sua
turma e no trabalho, segundo o chefe, mostrava-se
"sensível e conscienciosa", entregando-se com
"grande devotamento" a suas tarefas. No dia 2
de maio último, ao comunicar aos superiores o
falecimento de um paciente em estado terminal de câncer,
ela exibiu, segundo a enfermeira-chefe, um comportamento
estranho. Parecia nervosa. Começou-se a suspeitar de que
escondia algo. Foi interrogada. Confessou então que não
só no caso do paciente em questão, mas de uma trintena
de outros, todos velhos e desenganados, os tinha,
digamos, "ajudado" a morrer. Ministrava doses
letais de remédios, para abreviar-lhes o sofrimento.
Christine foi afastada do serviço e está sendo
processada por homicídio doloso.
Roberta Magnani,
funcionária de cartório, e o marido, Mauro Arlenghi,
empresário, viviam em Mortara, no norte da Itália, uma
vida confortável, de muitas viagens e, ao que tudo
indica, muito satisfatória, não fosse uma sombra:
Roberta queria muito ter um filho e não engravidava.
Durante anos tentou vários tipos de tratamento. Enfim,
no final do ano passado, conseguiu. Soube que esperava um
bebê. Felicidade. Mas, pouco depois da boa notícia,
veio a má: estava com câncer. No pulmão, e em estado
avançado. Roberta sentia dores lancinantes. Os médicos
constataram a metástase. Que fazer? A quimioterapia
teria o efeito de aliviar-lhe as dores e, quem sabe,
prolongar-lhe a vida, mas com o inconveniente de que
poderia prejudicar a formação do bebê. Roberta
rejeitou o tratamento. O desejo do bebê era mais forte.
Preferiu a dor, só mitigada, quando era muito forte,
pela morfina. O bebê nasceu um homem, Marco
, de oito meses, no dia 16 de julho. Onze dias
depois, morreu a mãe.
Que teria empurrado
Christine, a francesa, à decisão de encurtar a vida
alheia? O diretor do hospital formula a hipótese de que
ela se tenha impressionado com um episódio ocorrido logo
depois que ingressou no serviço. Um homem de 73 anos
matou com dois tiros no rosto a mulher de 76 anos, em
pleno quarto do hospital, e se matou em seguida. Ele era
inválido e ela sofria do mal de Alzheimer. Numa carta, o
marido disse não suportar mais assistir ao sofrimento da
mulher. No mesmo dia em que confessou ter precipitado a
morte de vários dos pacientes a seus cuidados, Christine
tentou suicidar-se. Foi salva e hoje repousa, sob
cuidados médicos. A Justiça tem sido condescendente com
ela. Não pediu sua prisão, ao contrário do que seria a
regra nos casos de acusações de homicídio.
Como explicar o
sacrifício de Roberta, a italiana? "Era uma mulher
boa", disse o marido ao jornal La Repubblica.
Só isso. "Por favor, não façam dela uma
mártir." Era uma mãe que queria ter um filho. O
bebê nasceu com 1,2 quilo e sobrevive numa incubadeira,
mas, segundo os médicos, tem boas condições de
desenvolver-se normalmente.
As duas histórias
têm a ver com sofrimento físico e morte. Uma delas tem
a ver com nascimento. Na soma, cobrem os dois extremos da
vida, o nascimento e a morte. Não é por acaso que são
protagonizadas por mulheres. A mulher tem mais intimidade
do que o homem tanto com o nascimento quanto com a morte.
Com o nascimento, porque é quem o possibilita. Com a
morte porque, com mais freqüência do que o homem, é
quem está à cabeceira do moribundo. O caso francês
chama a atenção para a profissão de enfermeira. Mais
do que o médico, é ela quem convive com o paciente. É
quem está mais presente, ou pelo menos a primeira a
chegar, nas horas críticas.
Nem a francesa
Christine nem a italiana Roberta devem ser valorizadas
mais do que merecem. Roberta optou por uma linha de
conduta que outras seguiriam. Christine, que, se houvesse
sondagem de opinião a respeito, provavelmente receberia
muito mais aprovações do que reprovações, na verdade
procedeu de forma não só subversiva como reacionária.
Subversiva porque inverte o mandamento primordial da
profissão médica e paramédica de lutar
pela vida, não pela morte. Reacionária porque
caracterizada pelo arbítrio, pelo desejo de fazer
justiça com as próprias mãos e, mais ainda, pelo
delírio de atribuir-se a decisão solitária da vida e
da morte, elementos esses próprios de um tempo anterior
à inestimável conquista humana de organizarem-se as
sociedades sob o império da lei. Roberta e Christine
têm em comum, no entanto, algo de nobremente
arquetípico. Suas histórias são histórias de mulheres
em estado visceral, colocadas num extremo, muito delas,
de paixão e compaixão. São histórias de mulheres.

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