Poço de vícios

A francesa Amélie Nothomb surpreende com tipos abjetos

Amélie: livro
perturbador
e divertido
Foto: Opale  

Nada denuncia mais a falta de imaginação do romance contemporâneo do que o fato de que, para um imenso número de autores, todos os problemas morais se traduzem em assassinato. É como se, para chocar, o escritor só tivesse um recurso: imitar os assassinos em série. A jovem escritora francesa Amélie Nothomb já teve dois de seus seis livros publicados no Brasil. As Catilinárias saiu em 1997. Agora é a vez de Higiene do Assassino (tradução de F. Rangel; Record; 176 páginas; 20 reais). Ambos acabam em crime. Mas nem por isso a ficção de Amélie se limita à rotina da morte violenta, e essa é a boa surpresa.

Ela tem um dom para criar personagens abjetos. É o caso de Pretextat Tach, figura central de Higiene do Assassino. Misógino, racista, ele parece reunir todos os vícios em seu corpo obeso. Tach é, no entanto, um escritor brilhante. Até que ponto é possível desculpar a maldade por causa do gênio? Amélie põe em choque dois códigos — o do artista, que só se importa com a perfeição de sua obra, e o das pessoas "normais", para as quais devem haver outros valores — e avança com humor em busca de uma resposta. Ágil, sua prosa nada tem a ver com a lentidão soporífera que dominou o romance francês das últimas três décadas e ainda inspira boa parte dos autores brasileiros. Ela entretém e perturba. Consegue conciliar esses dois objetivos quase sempre excludentes na literatura.

Carlos Graieb




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