Reino da fantasia

Nas estatísticas, o Brasil das novelas
é um país de outro planeta

Ricardo Valladares

Pobreza e riqueza:
no país virtual de
Torre de Babel, 60%
dos brasileiros
passariam a caviar
Foto: Arley Alves  

Durante muitos anos, a classe — felizmente em extinção — dos comunicólogos manteve no país uma discussão cabeça. A questão era se as novelas de TV retratavam ou não a realidade brasileira. Animados com essa conversa para boi dormir, muitos autores de novela chegaram a transpor para suas histórias as mazelas ocasionais do país — em Vale Tudo e Pátria Minha, por exemplo —, com resultados muitas vezes aborrecidos e caricaturais. No terreno frio das estatísticas, há um abismo entre ficção e realidade mais profundo do que aquele que separa a qualidade dos autores de hoje do virtuosismo da falecida Janete Clair. Tomem-se as atuais novelas das 7 e das 8 da Globo, respectivamente Corpo Dourado e Torre de Babel. Caso os indicadores sociais das duas novelas espelhassem a vida real, o Brasil seria um lugar totalmente diferente (veja gráficos).

Se vivêssemos no país mostrado em Torre de Babel, a maioria dos cidadãos (60%) moraria em mansões cinematográficas e iria passar férias na Europa todo ano. Viajando de primeira classe, é claro. Os negros simplesmente não existiriam. O Brasil teria ainda um número alarmante de drogados: nada menos do que 3,5% da população. Essa taxa baixou a zero depois que explodiram o shopping center da novela — uma solução um tanto drástica, convenhamos, para resolver o problema da droga. Se o país de verdade fosse o de Torre de Babel, ele abrigaria um dos maiores contingentes de homossexuais do mundo: 6,5% de seus habitantes. Como os guardiães da moral e dos bons costumes não admitiram esse número nem em ficção, o terceiro sexo foi eliminado na mesma explosão que aboliu o drogado.

Já se Corpo Dourado fosse o espelho do Brasil, o número de pobres seria mínimo: apenas 2,5% dos habitantes. É um índice digno de Primeiro Mundo. Ao contrário do que ocorre na trama de Silvio de Abreu, os negros pelo menos fariam parte da paisagem: somariam 7,5% da população. Em ambos os folhetins, a miséria está totalmente erradicada da vida nacional. Não é à toa que os autores fogem da miséria. A única novela que até hoje se atreveu a mostrá-la com todas as tintas, Brasileiros e Brasileiras, exibida pelo SBT em 1990, foi um retumbante fracasso de audiência.


Lésbicas no
horário das 8: foi
melhor detonar
Fotos: Jorge Baumann  


Viciado em ação, em Torre: a solução final para o problema das drogas


Negros: presentes
na novela
Corpo Dourado


Tabagismo no folhetim
das 8: hábito
quase erradicado
  Foto: Roberto Valverde




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