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O arquiteto Oscar Niemeyer já rodou o mundo em aviões de todos os tamanhos. Nem por isso deixou de temê-los. A coragem ele tira de uma garrafa. "Meu recurso para enfrentar as intermináveis horas de medo é o uísque", diz. "Começo no bar antes do embarque e vou bebendo durante o vôo." |
| Foto: Dilmar Cavalher/Strana |
Superstições O medo de voar não é exclusividade de quem nunca viajou de avião. Ele afeta, indiscriminadamente, passageiros novatos e veteranos. É um pânico muitas vezes inexplicável, que se manifesta das mais diferentes formas. Em algumas pessoas, as mãos suam e ficam geladas antes mesmo de o avião começar a se mover no pátio do aeroporto. Outras sofrem de palpitações, tonturas e náuseas. Há casos de gente que tem insônia na véspera da viagem. Muitas desenvolvem um estoque impressionante de superstições. Há quem viaje somente na primeira fileira para sair mais rápido em caso de pouso forçado. Outros carregam santinhos, costumam benzer-se durante qualquer turbulência, só embarcam com o pé direito ou evitam ir ao banheiro para não "desequilibrar" a aeronave. "Para quem tem medo de avião, não adianta explicar que apenas um entre milhões de vôos acabará em desastre", diz o psicanalista italiano Leonard Verea, especialista em fobias. "A pessoa sempre viverá a expectativa de que o vôo fatídico pode ser justamente o dela."
A raiz do medo de avião está no próprio subconsciente humano, geneticamente treinado para se mover com os pés bem plantados na superfície terrestre. Ao contrário dos pássaros, a espécie humana evoluiu em terra firme. O máximo que fez além disso, nos últimos milhares de anos, foi embarcar em canoas e navios. Faz menos de um século que as pessoas começaram a tirar o pé do chão para voar em aviões ou balões. É muito natural, portanto, que elas tenham medo de voar. Esse sentimento é tão generalizado que, no mundo todo, muitas companhias têm programas específicos para ajudar seus passageiros a superar esse tipo de dificuldade. É o caso da americana United Airlines e da inglesa Virgin Atlantic, que estão entre as pioneiras nesse tipo de treinamento. No Brasil, a Varig pretende começar até o fim do ano seu projeto batizado de Dessensibilização do Medo de Voar. Depois de enfrentar problemas com passageiros acometidos de ataques de pânico durante o vôo, a companhia dará cursos com o objetivo de fazer com que essas pessoas se sintam em condições de viajar.
| O escritor paraibano e secretário da Cultura de Pernambuco, Ariano Suassuna, não hesita em trocar o avião por uma viagem de carro. "Pelo menos em terra a paisagem vai mudando", diz ele. "Lá em cima é céu e nuvem o tempo todo." Nem o péssimo estado das rodovias brasileiras o faz mudar de idéia. "Na estrada, tem um buraco aqui, outro mais adiante. No avião, aonde você vai o buraco vai embaixo." | ![]() |
| Foto: Dorival Elze |
Há tipos diferentes de medo relacionados ao avião. Um deles diz respeito à impotência e ao enclausuramento do passageiro. Numa viagem de ônibus, se o motorista correr demais ou o tempo estiver chuvoso, ainda é possível pedir que ele baixe a velocidade ou espere a chuva passar. Num avião, isso é impossível. O passageiro está totalmente à mercê da habilidade do piloto e da segurança do equipamento. Só lhe resta confiar e torcer para que tudo corra bem durante o vôo. "No dia-a-dia, estamos sempre controlando nosso risco, seja atravessando uma rua fora da faixa de pedestres, seja subindo num banquinho para trocar uma lâmpada", diz a psicóloga e comissária Rosana D'Orio, da Varig. "Já durante um vôo, os passageiros de um avião não têm nenhum controle sobre suas vidas. Estão enfiados em uma máquina cujo funcionamento não conseguem compreender e não têm para onde fugir."
Falha humana Outro dos motivos pelos quais o avião inspira medo é o fato de que boa parte dos acidentes aéreos ainda permanece envolta em mistério. Cerca de 30% dos acidentes com jatos nos últimos dez anos ficaram sem explicação definitiva. É o caso da explosão do Boeing 747 da TWA, pouco depois de decolar de Nova York rumo a Paris, em julho de 1996. Os engenheiros da FAA, órgão encarregado de fiscalizar a segurança aérea nos Estados Unidos, retiraram milhares de fragmentos do avião do fundo do Oceano Atlântico, gastaram mais de 10 milhões de dólares para remontá-los e não chegaram a um resultado conclusivo.
Apenas 6% dos acidentes aéreos fatais com jatos comerciais nos últimos dez anos foram provocados por falhas de manutenção. Nessa área, mais uma vez, alguns incidentes trabalham a favor do pânico. Há dois meses, a FAA mandou trocar os fios elétricos que passam por dentro dos tanques de combustível nos 370 aviões mais antigos do modelo 737, lançado ao ar na década de 60. Por acaso, uma companhia americana descobriu que estavam descascando e em muitos aparelhos já havia risco real de explosão. Esse problema não estava previsto nos manuais da Boeing. Nos seus novos modelos, ela e sua maior concorrente, a Airbus, cuidam de bloquear a maior causa dos acidentes aéreos: a falha humana, responsável por sete entre dez desastres aéreos fatais. Os fabricantes de aviões investem cada vez mais em equipamentos à prova de erros. Hoje, todos os jatos que saem da fábrica da Airbus são equipados com o sistema fly-by-wire, mecanismo de computadores que impede que o avião faça manobras além de seus limites.
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Medroso assumido, o cantor Ed Motta detesta os informes do comandante sobre as condições de vôo, ainda que sejam excelentes. "Isso é coisa de sádico", diz ele. Procura espantar o medo lendo gibis. "Para que precisamos saber a quantos metros estamos do chão?" |
| Foto: Renan Cepeda |
Competição feroz A Organização Internacional de Aviação Civil determina que a cada ano (ou semestre, a partir dos 40 anos) todos os pilotos passem por um check-up médico completo. Além disso, uma vez por ano, os pilotos brasileiros fazem um vôo de checagem acompanhados de um supervisor do Departamento de Aviação Civil, DAC, e outro em simulador no qual são submetidos a diversas situações de emergência. "Cada vez mais, o piloto deve saber administrar seu vôo, tornar-se uma espécie de gerente que sabe tudo o que se passa dentro da aeronave para agir em caso de emergência", diz Airton Borghi, chefe da seção de investigação e prevenção de acidentes aeronáuticos da Transbrasil. A principal ferramenta na qual os especialistas confiam para diminuir o erro do piloto é o Crew Research Management, treinamento feito em terra que visa aprimorar a comunicação entre piloto, co-piloto e o resto da tripulação. No Brasil, Transbrasil, Varig e TAM já o adotaram. Com o aperfeiçoamento técnico e a evolução dos aviões, é possível que o risco de voar caia ainda mais. Nos próximos vinte anos, a FAA espera reduzir em 80% a atual taxa de acidentes da aviação mundial. Mesmo assim, é provável que para muita gente o medo de voar continue tão irracional como era para o falecido poeta Vinicius de Moraes. Ele não gostava de avião com o seguinte argumento: "É mais pesado do que o ar, tem motor a explosão e foi inventado por um brasileiro".
Hoje, é provável que Vinicius acrescentasse mais um item à sua lista. É o atendimento dispensado aos passageiros pelas companhias aéreas. Ele piorou muito ultimamente. As queixas contra essas empresas são cada vez maiores (veja quadro). Isso também fez aumentar a suspeita de que algumas delas tenham relaxado no cuidado com a segurança de seus vôos, da mesma maneira que relaxaram no atendimento de balcão. Submetidas a uma competição feroz, que fez as tarifas baixarem em média 20% desde o início do ano, as empresas enfrentam a necessidade de aumentar rapidamente seu número de vôos e a ocupação das aeronaves para recuperar a receita perdida com o corte nas tarifas. Algumas tiveram de fazer demissões para evitar maiores dificuldades financeiras. Em maio, o DAC exigiu que a Vasp tomasse providências por considerar que a empresa tinha pessoal insuficiente para sua malha de vôos. "Não demitimos pessoal de manutenção, tripulação ou atendimento", garantiu a VEJA o porta-voz da empresa, Ruy Nogueira. Segundo ele, o número de funcionários caiu de 7.160 em fevereiro para 6.800 em junho. Hoje, estaria em 8.000.
Até agora não existem provas de que a redução de custos tenha afetado o serviço de manutenção dos aviões em qualquer companhia. Mas a queda do padrão de atendimento no balcão é interpretada por muitos passageiros como um indício de desorganização que poderia eventualmente estender-se a outros domínios da companhia. Ainda mais quando se sabe que a guerra entre as empresas aéreas deverá continuar pesada por mais algum tempo. Na semana passada, a Varig e a Rio-Sul anunciaram uma parceria para aumentar o número de vôos na ponte aérea RioSão Paulo e para a criação do mesmo tipo de serviço nas rotas de São Paulo a Brasília e Belo Horizonte a preços competitivos. "O movimento da ponte aérea cresceu 20% neste ano, por isso decidimos aumentar também o número de vôos", diz o presidente da Varig, Fernando Pinto. A TAM já havia anunciado que aumentaria de quinze para 23 seus vôos diários entre Rio e São Paulo. Vasp e Transbrasil também pretendem aumentar o número de vôos entre as duas cidades quando a ponte aérea voltar a operar no Aeroporto Santos Dumont, no Rio. O aeroporto está sendo recuperado do incêndio que o destruiu no começo do ano.
Piloto rebaixado
Essa disputa, que resulta em maior número de vôos e
tarifas mais em conta, é boa para os passageiros. Até
alguns meses atrás, as tarifas aéreas no Brasil estavam
entre as mais caras do mundo. Protegidas da competição
por leis e regulamentos federais, as companhias tinham
linhas cativas, nas quais praticavam preços
estabelecidos pelo governo. Nessa área, as coisas têm
melhorado muito. Resta saber se, pressionadas pela
competição a que não estavam habituadas, todas as
companhias aéreas conseguirão manter os padrões de
segurança e serviço. Incidentes como o pouso equivocado
da TAM em Guarapari e as panes nos aviões da Vasp e da
Varig dão sinal de que nem tudo vai bem nessa área. No
caso de Guarapari, a TAM rebaixou para co-piloto o
comandante do vôo, Edinir Tozzi, e fará com que ele
passe por uma reciclagem. O Departamento de Aviação
Civil transferiu para funções burocráticas um major da
Aeronáutica que estava na cabine dos pilotos
fiscalizando o vôo. Mesmo assim, tanto a companhia
quanto o próprio órgão encarregado de zelar pela
segurança aérea saíram do episódio desmoralizados.
Apesar dos últimos incidentes, os índices de segurança das companhias aéreas brasileiras são bastante razoáveis. Algumas estão nos mesmos patamares das empresas européias (veja quadro). Além disso, as estatísticas mostram que voar tem ficado cada vez mais seguro, devido à fabricação de aviões melhores e à criação de sistema de proteção ao vôo mais eficiente. No mundo inteiro, os índices de acidentes fatais diminuíram bastante a partir do início da década de 60. Em 1959, ocorriam trinta desastres a cada milhão de vôos. Com os jatos, essa média caiu para pouco mais de um acidente por milhão e permanece estável. O problema é que o número de passageiros e aviões cresce rapidamente em todo o mundo. Em conseqüência, o número absoluto de acidentes também cresce. Em 1970, quando o primeiro Jumbo decolou de Nova York, com destino a Londres, 300 milhões de pessoas embarcavam em vôos regulares em todo o mundo. No ano passado, 1,2 bilhão de passageiros voaram quatro vezes mais. As projeções são de que esse número chegará a 2,5 bilhões em 2008. Um estudo publicado recentemente pela Boeing mostra que, se a segurança não melhorar ainda mais, em 2015 haverá um acidente com destruição total da aeronave por semana em algum lugar do mundo. O desafio é acabar com esse pequeno "se".
| Infograficos: A. Caires
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