Ao fazer do nascimento da filha um
show televisivo, Xuxa se transforma na
versão nacional do rei das esquisitices

Marcelo Camacho


Foto: J. Corazzi
Sasha no Jornal Nacional e a maternidade decorada: tudo é espetáculo

Para todo mundo, o nascimento de uma criança é uma alegria a ser repartida entre parentes e amigos mais chegados. A apresentadora Xuxa Meneghel não é como todo mundo. Ela fez do nascimento de sua filha, Sasha, um show de televisão em horário nobre. Na noite de terça-feira dia 28, com pouco mais de dezenove horas de vida, a filha da apresentadora com o modelo Luciano Szafir já protagonizava, no Jornal Nacional, o "show da Sasha". Ela foi estrela de uma reportagem com dez minutos de duração, maior do que a dedicada à privatização do sistema Telebrás, que ocupou quatro minutos e meio. Pela tela da Globo, milhões de espectadores viram um vídeo com imagens do bebê e descobriram que, às 8h34 daquele dia, Sasha tomou seu primeiro banho; às 8h46, teve as unhas cortadas; às 8h50, ganhou no dedo do meio da mão esquerda um anel de ouro; às 8h53, espirrou.

Na noite anterior, a apresentadora, já com algumas contrações, passara por exames que revelaram que uma cesariana imediata seria a melhor opção. Da clínica onde fez esses exames ela deveria ter seguido diretamente para a maternidade, onde até os corredores estavam decorados para melhor aparecer nas fotos. Xuxa, no entanto, resolveu dar antes uma passadinha em casa, no distante bairro de Vargem Grande. Queria trocar de roupa e cortar as unhas. Só depois disso partiu para o hospital. Seu carro foi seguido por uma caravana de familiares, empregados e fãs. Xuxa acenava pela janela com uma camiseta branca nas mãos, gritando: "Vai nascer!" Os ocupantes dos outros automóveis buzinavam. "Ela nem parecia que estava indo ter o bebê. Parecia que estava para fazer um show", observou a ex-paquita Ana Paula Almeida, uma das integrantes da carreata.

E estava mesmo. Xuxa está cada vez mais parecida com o seu ídolo, o cantor Michael Jackson. Para ambos, tudo na vida parece só ganhar sentido na medida em que pode virar espetáculo — ou render um bom contrato. A maneira com que decidiram ter filhos foi semelhante. Os namoros de Xuxa, que muitas vezes pareciam mais um golpe publicitário do que qualquer outra coisa, sucederam-se sem que a apresentadora aparecesse grávida. Falava constantemente em ter um filho, mas nunca se referia à figura do pai para esse projeto familiar. Assim como Michael Jackson, que resolveu ter uma criança e procurou a mãe que poderia dá-la, Xuxa resolveu ter seu bebê antes de ter-se decidido pelo pai. Quando ficou grávida, a própria família do modelo Luciano Szafir ficou revoltada. Num desabafo, o pai de Luciano, Gabriel, chegou a declarar que seu filho não era um "reprodutor". No caso de Michael Jackson, ficou claro que o cantor procurava uma barriga de aluguel. Depois de se divorciar de Lisa Marie Presley, filha de Elvis, ele escolheu a enfermeira Debbie Rowe, que trabalhava no consultório de seu dermatologista e que, durante anos, se oferecera para carregar no ventre um filho seu. Em torno do caso, correu o boato, nunca confirmado, de inseminação artificial.  

Minizoológico — Xuxa e Michael Jackson se parecem também na maneira com que descartaram seus parceiros depois que eles cumpriram, a contento, a função de garantir a prole. Michael Jackson e Debbie Rowe não vivem juntos. Ele cria seus dois filhos sozinho, num castelo infantilóide chamado "Terra do Nunca", onde existe um minizoológico, duas locomotivas e um parque de diversões. Da mesma forma, após uma longa troca de insultos entre Xuxa e os parentes de Luciano, a apresentadora se separou do namorado. Segundo os irmãos de Luciano, a família Szafir foi até proibida de visitar o bebê. Uma das irmãs, a advogada Alexandra, divulgou uma nota à imprensa dizendo que nem com a interferência do irmão conseguira uma autorização para visitar a sobrinha na maternidade. Se Michael Jackson tem sua "Terra do Nunca", Xuxa irá criar sua filha, sem Szafir, na "Casa Rosa", localizada num terreno de 70.000 metros quadrados onde, em vez de trenzinho, há carrinhos de golfe como meio de transporte.

Lá, Xuxa construiu para Sasha um quarto de 130 metros quadrados, tamanho de um bom apartamento de classe média. Para decorá-lo, chamou o arquiteto Cláudio Bernardes. "Tentei fazer um quarto de criança, mas ela quis tudo futurista. Não assino o meu nome naquela coisa", queixa-se Bernardes. O quarto da criança abriga um closet com dez portas de armário, um banheiro com hidromassagem e uma piscina de 12 metros quadrados. Mesmo antes de nascer, Sasha, embora sem nenhum produto com seu nome, já ajudava a mãe a ganhar dinheiro. Com a publicidade gerada pela gravidez, as fraldas Xuxa by Drypper venderam 40 milhões de unidades em um mês. Szafir, por sua vez, tirou uma casquinha posando para um anúncio de cuecas, em que se lê a frase "O pai do ano". Michael Jackson também faturou com o nascimento de seu primeiro filho. Não promoveu, como Xuxa, um show televisivo, mas mandou fazer uma foto de divulgação, cinco semanas após o parto, e a vendeu por 1,7 milhão de dólares. Se casassem, Xuxa e Michael Jackson, que inclusive se conhecem pessoalmente, formariam um belo par e poderiam ter filhos juntos. Mas isso, claro, está fora de cogitação.

Um mestre do privado

Dorrit Harazim

Vinte dias antes de Sasha, outra brasileirinha de nome torto, Kadja, nascia em São Paulo com algum estardalhaço. Chegou a freqüentar o noticiário nacional durante os primeiros dias de vida. Veio ao mundo sem cobertura de televisão, mas com platéia ao vivo. Nasceu de madrugada numa calçada do bairro de Santo Amaro, a vinte passos de um hospital público da cidade mais rica da América Latina. A separá-la do chão infecto, apenas uma toalha providencialmente estendida por alguém. Nasceu ali porque sua mãe, apesar da bolsa já rompida, teve recusada a internação no hospital, saiu andando à procura de outro e não agüentou. Pariu ali mesmo. E o que Kadja tem a ver com Sasha? Tudo. Os dois bebês, e o tipo de Brasil que conheceram desde os primeiros segundos de vida, retratam aberrações nacionais. Uma, social, é do país. Xuxa encarna a outra, a do marketing da fama, em proporções alarmantes. Essa doença-arrastão gerada pela indústria do entretenimento atingiu seu ápice na industrialização cor-de-rosa da gravidez da apresentadora. Nesse reino da fantasia, em que o real só existe se tiver cobertura televisiva, é possível que a própria Xuxa acredite ter gerado uma princesa, em rede nacional.

Felizmente, nem toda vida privada está condenada a virar produto de consumo de um público voraz, viciado em intimidades alheias. Aos 80 anos de idade, Nelson Mandela, o estadista-celebridade mais admirado do mundo e um dos mais assediados pela mídia, continua sendo a prova viva de que é possível manter a fidalguia quando o privado e o público se misturam. O príncipe Charles da Inglaterra, que tantas vezes chafurdou na vulgaridade ao ter sua intimidade exposta, teria muito a aprender com esse aristocrata da tribo tembu, hoje presidente da África do Sul. O chefe de Estado americano Bill Clinton, permanentemente enroscado em falsas loiras e morenas, também. Não pela estatura de Mandela na História, já plenamente assegurada como o grande arquiteto da implosão do regime de segregação racial, ao custo de 27 anos de encarceramento. É sua conduta como homem que merece registro à parte.

Durante dois longos dias de setembro de 1996, com transmissão ao vivo pelas rádios de seu país, Mandela teve de se expor perante a Corte Suprema de Johannesburgo para obter o divórcio da mulher, Winnie. Desde 1990, ao ser libertado de Robben Island, constatara que o casamento só existia no papel. Tentou uma separação amigável, quieta, mas a combativa Winnie não aceitou. Nos dois anos seguintes, adiou o pedido de divórcio para não interferir no andamento de vários processos que o Estado movia contra ela. Por fim, com toda a África do Sul hipnotizada pelo evento, teve de usar em juízo o doloroso argumento-chave para obter o divórcio: Winnie era adúltera, mantinha há anos um caso com um jovem advogado do Congresso Nacional Africano, partido liderado por Mandela. Raras vezes, nesses tempos de todo-mundo-conta-tudo, um adultério foi descrito com tanta honradez. "Fui o homem mais solitário no período em que fiquei com ela... Winnie jamais vinha para o nosso quarto se eu estivesse acordado...", resumiu. "Faço um apelo à Corte para não me perguntar coisas que me obriguem a arranhar a imagem da acusada e a causar dor grande a nossos filhos e netos..." Obteve o divórcio aos 77 anos de idade, iniciou um romance com Graça Machel, viúva e 26 anos mais jovem, e com ela se casou duas semanas atrás, sem qualquer alarde e sem que o mundo desabasse. Manteve a mídia a distância, sem montar uma daquelas operações de sigilo e despiste que acabam virando manchetes em si. Só no dia seguinte ofereceu um banquete oficial (beneficente) para 2.000 pessoas. Com Mandela é assim. "Ele é dotado de total ausência de vaidade e orgulho", define Nadine Gordimer, a consagrada escritora sul-africana. "O que ele tem é respeito por si mesmo. Você pode dar-se esse luxo quando sabe quem é e o que faz de sua vida. Mandela sabe quem é." Xuxa e a indústria de celebridades preferem passar batido.




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