Uma marca no vestido

Teste de DNA vai verificar se há sêmen
de Clinton na roupa de Monica Lewinsky

Chegou-se, finalmente, ao vestido manchado. Nos últimos seis meses, desde que surgiram as primeiras acusações de que o presidente Bill Clinton teria feito sexo dentro da Casa Branca com uma estagiária com idade para ser sua filha, fala-se na existência dessa misteriosa peça de vestuário. Num caso em que não faltam detalhes picantes, o vestido manchado com o sêmen de Clinton, que Monica Lewinsky teria guardado como lembrança de amor, tornou-se um capítulo especialmente eletrizante. Na semana passada, o que sempre foi desmentido como boato maldoso ganhou a consistência real de uma prova que pode ser analisada nos laboratórios policiais, exibida nos tribunais e arruinar a carreira política de um presidente extremamente popular. Ao que tudo indica, o vestido foi entregue na quarta-feira a Kenneth Starr, o promotor especial que investiga, com tenacidade de buldogue, a vida sexual de Clinton. A peça é parte de um pacote negociado entre Monica e a promotoria que inclui outros itens explosivos para o presidente (veja quadro). Em troca de imunidade contra acusações criminais, ela vai contar toda a verdade sobre seu relacionamento sexual com Clinton.

Não importa tanto o que vai dizer. Será sempre a palavra dela contra a do presidente. O vestido e sua mancha constrangedora são outra história. Se houver confirmação de que Clinton deixou rastros de relações sexuais com a jovem, ele não terá argumento senão admitir que mentiu sob juramento (ou seja, cometeu crime de perjúrio) quando, em janeiro, negou o intercurso em interrogatório. "Não quero nem pensar na possibilidade", confidenciou um assessor da Casa Branca ao Washington Post.  

Apoio da mãe — O que vai acontecer com a peça de roupa daqui para a frente é digno de um filme de detetive. O vestido já está nas mãos dos peritos do FBI, garantem fontes ligadas à promotoria (o eufemismo é usado pela imprensa americana para as informações que Starr fornece abundantemente sob condição de anonimato). O laboratório da polícia precisa de apenas 24 horas para ter o resultado de um teste preliminar e saber se há traços de material orgânico no tecido. Esses vestígios podem permanecer durante anos nos tecidos, a menos que sejam removidos com detergente (lavagem a seco não resolve). São necessárias outras 48 horas para determinar se há quantidade suficiente de material genético para efetuar um teste mais complexo de DNA, aquele que pode ligar a mancha a determinada pessoa. Se todas essas respostas forem positivas, comparar com o DNA do presidente constitui operação simples, contanto que ele concorde em submeter-se a uma raspagem da mucosa da bochecha ou à punção de uma gota de sangue de um dedo. Um simples fio de cabelo já seria suficiente.

Das conclusões do FBI dependerão os novos depoimentos de Monica e Clinton, acertados na semana passada. O presidente só aceitou depor ao Grande Júri, o tribunal de instrução incumbido de decidir se há provas para abrir um processo, depois de saber, na terça-feira, que o promotor havia obtido a cooperação de Monica com um acordo que lhe concede imunidade em troca de um novo depoimento. Isso significa que ela pode contradizer as declarações dadas ao tribunal no início do ano sem correr risco de ser processada por falso testemunho. Se Monica acatou o acordo, supõe-se que dirá que sim, manteve relações sexuais com o presidente. Clinton poderia simplesmente continuar negando. Isso se o vestido não estragar tudo. A promotoria afirma que Monica confiou o vestido sujo à mãe durante seis meses. Por que ela o guardou durante todo esse tempo? A única resposta é a mais embaraçosa: para usá-lo numa negociação com a promotoria no momento certo.

Starr havia sido designado inicialmente para apurar se Clinton tinha alguma responsabilidade no chamado caso Whitewater, um emaranhado de falcatruas imobiliárias e financeiras ocorrido há mais de dez anos. Em janeiro, ele mudou de curso ao receber as fitas com confissões íntimas de Monica Lewinsky, gravadas em segredo por uma funcionária do Pentágono, Linda Tripp. Starr deixou de lado os modorrentos meandros das transações escusas e se lançou numa espécie de cruzada para provar que Clinton cometeu perjúrio e pediu a Monica que mentisse à Justiça. O processo em que ambos teriam mentido, aquele no qual Paula Jones alega assédio sexual, foi encerrado em abril por falta de provas. Nem por isso Starr largou do osso.  

Sexo, mentiras e videoteipe — No depoimento em vídeo que concederá ao Grande Júri no dia 17, Clinton poderá fazer um mea-culpa e admitir o caso com Monica, sujeitando-se a um processo por perjúrio. Se a ex-estagiária afirmar que foi instruída a mentir, ele responderá por obstrução da Justiça. Portanto, o que mais pesa agora não é o fato de o presidente, no exercício do cargo, ter tido um romance extraconjugal com uma estagiária de 21 anos (quando o namoro teria começado, em 1995). A questão é se tentou enganar a Justiça. Quando tiver reunido todas as provas e depoimentos, Starr vai entregar um relatório ao Congresso. A possibilidade de o presidente ser julgado e expulso da Casa Branca não pode ser descartada.

Embora os americanos torçam para que os detalhes da história se revelem ainda mais picantes, o que é natural da alma humana, as pesquisas mostram que a maioria considera banais as acusações contra Clinton. Apesar de a maioria acreditar que ele e Monica realmente tiveram um caso, a popularidade do presidente se mantém em respeitáveis índices de 65%. Até a semana passada, quando surgiu com todas essas novidades, Starr era um sujeito de quem a maior parte dos americanos queria distância. Não é para menos, visto que gastou 40 milhões de dólares em dinheiro público numa investigação que se arrasta há quatro anos sem outro resultado além de distrair o presidente de seu dever, que é governar o país. O vestido manchado pode mudar tudo isso.

 



 





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