É difícil amar o próximo

"O slogan 'O capitalismo é bom para produzir
e não para distribuir' é apenas uma mistura de
cretinice acadêmica e falsidade ideológica"

Roberto Campos

Luiza Ruberti

"É fácil amar a humanidade; o difícil é amar o próximo", diz o ditado. É fácil exorcizar a pobreza como a grande praga social. Mais difícil é ajudar concretamente os pobres. O sucesso objetivo na cura da pobreza deve ser o teste crucial da avaliação dos sistemas políticos e econômicos.

Preconceitos e inverdades abundam. Tem-se, por exemplo, por "politicamente correto" dizer que o "capitalismo é bom para produzir", mas que só o "socialismo sabe distribuir". O primeiro se preocuparia com a produtividade material; o segundo, com a justiça social. Politicamente correto, talvez, mas historicamente errado. O capitalismo é superior em ambas as tarefas.

Basta comparar as nações paradigmas dos dois sistemas: os Estados Unidos e a antiga União Soviética. Alguém duvidará que o capitalismo liberal tenha sido uma receita melhor, tanto sob o ponto de vista da produção como o da distribuição? Os melhores avaliadores são os próprios pobres. Não há pobres emigrando para os países da antiga União Soviética, enquanto as fronteiras americanas têm de ser severamente policiadas para que o país não se torne um depósito de miseráveis, fugindo do socialismo, do dirigismo e de outras formas não capitalistas de governo. O slogan "O capitalismo é bom para produzir e não para distribuir" é assim apenas uma mistura de cretinice acadêmica e falsidade ideológica.

Na América Latina, o modismo do dia é dizer que o neoliberalismo é responsável pela agravação da exclusão e da pobreza. Nada mais idiota. O continente não é nenhum modelo de liberalismo. Na literatura sociológica mundial somos classificados como mercantilistas, patrimonialistas, dirigistas ou pré-capitalistas. E aqueles países que deram uma real guinada liberal, como Argentina e Chile, conseguiram pôr termo a longos períodos de estagnação que reduziram o padrão de vida individual e coletivo.

No Brasil, as esquerdas conseguiram um soberbo ilusionismo semântico: o liberalismo ficou associado à imagem de indiferença social e o dirigismo estatal, à idéia de justiça social. Nada mais absurdo. A melhor definição de serviço público no Brasil é "aquele serviço que faz falta ao público". A escassez, que sempre se traduz em prejuízo para os pobres, os quais não podem pagar propina ou recorrer ao mercado paralelo, é a situação normal nos serviços públicos. O caso das telecomunicações é lancinante. Oitenta e um por cento dos telefones pertencem às classes mais ricas e apenas 2% aos pobres. A favelização das metrópoles resultou em grande parte da escassez de serviços públicos de transporte de massas. A Previdência pública compulsória é outra fonte de injustiça social. A contribuição dos pobres aflui para uma vala comum, sujeita à predação de grupos politicamente mobilizados, que obtêm aposentadorias precoces e especiais. Todo mundo deveria ter o direito de optar por transformar sua contribuição numa caderneta de poupança previdenciária, escolhendo o administrador que poderia ser público ou privado. A função do governo seria fiscalizar o sistema e garantir um mínimo vital àqueles que ao fim de sua vida laboral não tivessem condições de subsistência.

As esquerdas brasileiras, que favorecem o dirigismo, certamente não amam os pobres. Historicamente, têm exibido tolerância em relação à inflação, punitiva para os pobres. Defendem alguns privilegiados por vantagens especiais da Previdência pública. Querem universidades públicas gratuitas, nas quais 70% dos alunos pertencem a classes de renda média ou alta, enquanto os pobres são prejudicados pela insuficiência do ensino secundário. Apóiam privilégios de algumas empresas públicas que não servem bem ao público e oneram o Tesouro. Reclamam da falta de empregos, mas hostilizam os investidores estrangeiros, capazes de criá-los. Querem impostos só sobre os ricos, esquecidos de que a técnica socialista de empobrecer os ricos para enriquecer os pobres não foi bem-sucedida em nenhum país. Em suma, o esquerdista brasileiro é um gladiador em perene luta contra a lógica econômica e a experiência histórica.

Roberto Campos é embaixador e deputado federal




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