J.R. Guzzo
Um mundo correto
"Trata-se de um
mundo cada vez mais correto,
no papel e cada vez mais chato, na vida real."
O cidadão que trabalha,
paga impostos e trata, basicamente, da sua vida não faz ideia da quantidade
de leis e regulamentos a que tem de obedecer hoje em dia para viver bem. Também
não sabe a quantidade de coisas que está proibido de ler, ver e
ouvir mais uma vez, para o seu próprio bem. Ele mesmo, naturalmente,
não sabe como cuidar de si, nem definir a sua qualidade de vida; é
preciso, assim, que o poder público pense e decida em seu lugar, escolhendo
o que é melhor para todos e para cada um, e isso desde a primeiríssima
infância. A maior parte dos brasileiros não sabe, mas é proibido
por lei, por exemplo, fazer publicidade de mamadeiras, chupetas e bicos para mamar,
"em qualquer meio de comunicação" e, para não
ficar nenhuma dúvida, também são vetados "promoções,
cupons de desconto, sorteios e brindes" envolvendo esses produtos. A ideia
superior das autoridades, no caso, é promover a amamentação
no seio materno. Para sorte dos bebês que não gostam de se alimentar
assim (e das mães que não têm a quantidade de leite desejada
pelo governo), continua permitida a fabricação, venda e uso de mamadeiras
mas é ilegal falar que elas existem. Não está claro
qual o problema que foi resolvido com essa lei, mas se alguém perguntar
a respeito aos peritos em saúde pública infantil provavelmente ouvirá
que o Brasil tem uma das políticas de aleitamento "mais avançadas"
do mundo.
A situação até que seria razoável
se esse tipo de coisa ficasse mais ou menos por aí. Mas não fica.
Rolam no Congresso Nacional, no momento, mais de 200 diferentes projetos de lei
destinados, na visão de seus autores, a fazer o bem; todos eles estabelecem
algum tipo de proibição ou de limitação à publicidade
de produtos ou serviços. Fora do Congresso, a única instância
autorizada pela Constituição a legislar sobre o tema, autoridades
estaduais têm as mesmas ambições de criar regras sobre o que
pode e o que não pode ser dito. O estado do Paraná, por exemplo,
acaba de proibir que seja exposta em seu território qualquer peça
de propaganda com palavras em idioma estrangeiro, a menos que esteja acompanhada
de tradução. A decisão, desde logo, causa algumas sérias
dificuldades de ordem prática. Como faz, por exemplo, um comerciante de
computadores que precisa utilizar a palavra software num cartaz a ser colocado
em sua vitrine? O texto da lei não apresenta nenhuma sugestão a
respeito do procedimento a seguir.
O bonito, no caso, é
que a própria lei que cria a proibição utiliza, logo no seu
artigo 1º, uma palavra em idioma estrangeiro, caput, e não faz tradução
nenhuma, o que, tecnicamente, deveria sujeitar o governo estadual a uma multa
de 5 000 reais ou até 10 000, talvez, se for considerado
que o caso é de reincidência. É para lá de esquisita,
também, a sintaxe utilizada na redação da lei. "A tradução",
escreve-se ali, "deve ser do mesmo tamanho que as palavras em outro idioma
expostas na propaganda" ou seja, o governo do Paraná, tão
preocupado com as línguas estrangeiras, não notou que seu principal
problema, por enquanto, é mesmo com a língua portuguesa.
Tudo
isso fica menos cômico quando se considera que a cada medida desse tipo
a autoridade pública não apenas vem encher a paciência do
brasileiro com mais uma interferência inútil em seu cotidiano; comete,
igualmente, uma agressão contra a liberdade de expressão. É
inevitável. Todas as vezes que se escreve alguma lei sobre questões
nas quais a liberdade de expressão está envolvida, o cidadão
fica menos livre para se exprimir; não se conhece, na experiência
humana, nenhum episódio em que tenha acontecido o contrário. Outra
consequência dessas tentativas de regular cada vez mais coisas é
a criação de uma teia de obrigações na qual já
não basta que o indivíduo obedeça à lei comum e respeite
os direitos dos outros ele precisa, também, levar uma vida considerada
virtuosa e ser protegido de si próprio. Deve consumir alimentos com a quantidade
correta de nutrientes e, de preferência, orgânicos. Não deve
andar de automóvel. Deve considerar que vegetais como uma árvore,
por exemplo, são titulares de direitos. Não deve tomar banhos com
duração superior a três minutos, para não esgotar as
reservas de água doce do planeta. Deve beber com moderação.
Não deve assistir a programas de televisão (ou ler livros, ver filmes,
ouvir músicas) que visem à obtenção de lucros comerciais.
Deve, ao fim da linha, morrer no peso ideal. Trata-se de um
mundo cada vez mais correto, no papel e cada vez mais chato, na vida real. |