Edição 1963 . 5 de julho de 2006

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Três nações e a Copa

O caso do hino que encolheu, a exceção
americana, nem tão excepcional, e o
estigma
da Alemanha

A nação brasileira foi condenada a assistir impotente, durante a Copa da Alemanha, ao decepamento de seu Hino Nacional. Antes dos jogos, naquele momento entre todos solene, mais patriótico do que parada do Sete de Setembro, em que o time se alinha e ressoa, nos estádios, a gravação do hino, não adianta ter decorado aquela letra inteira, ida e volta, tanto a parte do "Ouviram do Ipiranga" quanto a do "Deitado eternamente": mal começa e a gravação abruptamente estanca, engasgada no primeiro "Ó pátria amada, idolatrada, salve!, salve!". Os econômicos alemães abateram quatro quintos do hino brasileiro. Dos 52 versos que o compõem, só deram vez nos estádios aos onze primeiros. Quem manda, parecem estar dizendo, ter um hino tão comprido?

Os jogos da seleção são o grande momento do Hino Nacional. Em outros países esse momento pode ser o de uma guerra, uma ameaça à nacionalidade, uma posse de presidente da República, um aniversário de rei ou rainha. No Brasil, é o da entrada em campo da seleção canarinho. A preceder o pontapé inicial, vem aquela chuva de "raios fúlgidos", "penhor dessa igualdade", "raio vívido", "impávido colosso", coisas que não se sabe bem o que querem dizer, mas que se presume tenham um importante e grave significado. E há ainda o "florão da América", o "lábaro estrelado", a "clava forte", coisas que devem ser de incomparável magnificência, ou não mereceriam palavras tão grandiosas. Canta-se o Hino Nacional como se reza uma oração em latim: não se sabe o que quer dizer, mas por isso mesmo se intui que a mensagem chegará mais depressa e mais vigorosa a Aquele que Sabe Tudo. Ou como se entoam palavras misteriosas, abracadabra, sim salabim, capazes de produzir efeitos miraculosos. Vem o alemão e reduz ao mínimo os poderes mágicos do hino. Não será por outra razão que quando um Ronaldo desencanta o outro murcha, quando Kaká se encontra Adriano se perde, e pela primeira vez na história das Copas o goleiro é grande destaque no time nacional.

A nação americana é, como sempre, a grande ausente do frenesi que sacode o planeta por ocasião dos Mundiais de futebol. Há americanos influentes que têm ódio daquilo que chamam de soccer. Jack Kemp, um antigo jogador do esporte de trogloditas a que seus compatriotas chamam de futebol, depois dono de uma carreira política que o conduziu ao gabinete do primeiro Bush e à candidatura a vice-presidente em 1996 (na chapa de Bob Dole, que perdeu para Bill Clinton), opôs-se a que a Copa de 1994 fosse realizada nos Estados Unidos, sob o argumento de que, enquanto o futebol americano é um esporte "democrático e capitalista", o soccer seria "europeu e socialista". Outros americanos, mais condescendentes, acham que o soccer é um esporte para ser praticado por meninas na escola.

O enigma da exceção americana diante da paixão mundial pelo futebol (o verdadeiro, o "europeu e socialista") é ressaltado a cada quatro anos. Os EUA tiveram sucesso em impor seu gosto ao resto do mundo em setores que vão do cinema e do rock ao fast-food. Falharam em exportar o beisebol, a não ser para alguns poucos países, e o seu futebol, o "democrático e capitalista". O mundo, em compensação, falhou em convertê-los ao soccer. A revista inglesa The Economist lembra, no entanto, que os EUA são "mais individualistas, mais religiosos, mais nacionalistas, mais antigoverno e mais entusiasmados pelo uso da força do que outros países". Nem só o futebol caracterizaria seu excepcionalismo.

A nação alemã, a cada evento em que assume papel central perante o mundo, ao mesmo tempo se desencontra e se encontra com o estigma do nazismo. O desencontro decorre de apresentar-se tão diferente do que foi – aberta, amiga, democrática. No time que a defende na Copa há até um negro, além de dois destacados atacantes nascidos na Polônia. Mas, exatamente por se apresentar como é, faz ressurgir o fantasma do que foi. Como é que pôde acontecer? – eis a pergunta inevitável. Como é que um povo desses, com contribuições à humanidade que vão das melhores cervejas à melhor filosofia, da aspirina à grande música, pôde cair na loucura assassina do nazismo? A pergunta é velha, recorrente e inevitável.

Ao reunificar-se, em 1989, a Alemanha parecia ter chegado ao fim da purgação de seus pecados. Antes disso, o "milagre econômico" do pós-guerra havia comprovado a vitalidade do povo alemão. As conquistas das Copas de 1954, 1974 e 1990 exibiram ao mundo um país de novo confiante e com vontade de vencer. Cada um desses feitos contribuiu com uma parcela para conferir à Alemanha a cara de país "normal". Mas cada um teve também o efeito de trazer de volta a memória do passado. É assim nesta Copa. Olha-se para aquela gente, os belos parques, as cidades e os estádios em festa, e a pergunta é a de sempre: "Como pôde acontecer?". Já faz mais de sessenta anos que Hitler e o nazismo saíram de cena. Nem outros sessenta, talvez, serão suficientes para que se olhe para a Alemanha e se deixe de pensar neles.

 
 
 
 
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