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 Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo Três
nações e a Copa O caso do
hino que encolheu, a exceção
americana, nem tão excepcional,
e o estigma da Alemanha
A nação brasileira foi condenada a assistir impotente, durante a
Copa da Alemanha, ao decepamento de seu Hino Nacional. Antes dos jogos,
naquele momento entre todos solene, mais patriótico do que parada do Sete
de Setembro, em que o time se alinha e ressoa, nos estádios, a gravação
do hino, não adianta ter decorado aquela letra inteira, ida e volta, tanto
a parte do "Ouviram do Ipiranga" quanto a do "Deitado eternamente": mal começa
e a gravação abruptamente estanca, engasgada no primeiro "Ó
pátria amada, idolatrada, salve!, salve!". Os econômicos alemães
abateram quatro quintos do hino brasileiro. Dos 52 versos que o compõem,
só deram vez nos estádios aos onze primeiros. Quem manda, parecem
estar dizendo, ter um hino tão comprido?
Os jogos da seleção são o grande momento do Hino Nacional.
Em outros países esse momento pode ser o de uma guerra, uma ameaça
à nacionalidade, uma posse de presidente da República, um aniversário
de rei ou rainha. No Brasil, é o da entrada em campo da seleção
canarinho. A preceder o pontapé inicial, vem aquela chuva de "raios fúlgidos",
"penhor dessa igualdade", "raio vívido", "impávido colosso", coisas
que não se sabe bem o que querem dizer, mas que se presume tenham um importante
e grave significado. E há ainda o "florão da América", o
"lábaro estrelado", a "clava forte", coisas que devem ser de incomparável
magnificência, ou não mereceriam palavras tão grandiosas.
Canta-se o Hino Nacional como se reza uma oração em latim:
não se sabe o que quer dizer, mas por isso mesmo se intui que a mensagem
chegará mais depressa e mais vigorosa a Aquele que Sabe Tudo. Ou como se
entoam palavras misteriosas, abracadabra, sim salabim, capazes de produzir efeitos
miraculosos. Vem o alemão e reduz ao mínimo os poderes mágicos
do hino. Não será por outra razão que quando um Ronaldo desencanta
o outro murcha, quando Kaká se encontra Adriano se perde, e pela primeira
vez na história das Copas o goleiro é grande destaque no time nacional.
A nação americana é, como
sempre, a grande ausente do frenesi que sacode o planeta por ocasião dos
Mundiais de futebol. Há americanos influentes que têm ódio
daquilo que chamam de soccer. Jack Kemp, um antigo jogador do esporte de
trogloditas a que seus compatriotas chamam de futebol, depois dono de uma carreira
política que o conduziu ao gabinete do primeiro Bush e à candidatura
a vice-presidente em 1996 (na chapa de Bob Dole, que perdeu para Bill Clinton),
opôs-se a que a Copa de 1994 fosse realizada nos Estados Unidos, sob o argumento
de que, enquanto o futebol americano é um esporte "democrático e
capitalista", o soccer seria "europeu e socialista". Outros americanos,
mais condescendentes, acham que o soccer é um esporte para ser praticado
por meninas na escola. O enigma da exceção
americana diante da paixão mundial pelo futebol (o verdadeiro, o "europeu
e socialista") é ressaltado a cada quatro anos. Os EUA tiveram sucesso
em impor seu gosto ao resto do mundo em setores que vão do cinema e do
rock ao fast-food. Falharam em exportar o beisebol, a não ser para alguns
poucos países, e o seu futebol, o "democrático e capitalista". O
mundo, em compensação, falhou em convertê-los ao soccer.
A revista inglesa The Economist lembra, no entanto, que os EUA são
"mais individualistas, mais religiosos, mais nacionalistas, mais antigoverno e
mais entusiasmados pelo uso da força do que outros países". Nem
só o futebol caracterizaria seu excepcionalismo.
A nação alemã, a cada evento em que assume papel central
perante o mundo, ao mesmo tempo se desencontra e se encontra com o estigma do
nazismo. O desencontro decorre de apresentar-se tão diferente do que foi
aberta, amiga, democrática. No time que a defende na Copa há
até um negro, além de dois destacados atacantes nascidos na Polônia.
Mas, exatamente por se apresentar como é, faz ressurgir o fantasma do que
foi. Como é que pôde acontecer? eis a pergunta inevitável.
Como é que um povo desses, com contribuições à humanidade
que vão das melhores cervejas à melhor filosofia, da aspirina à
grande música, pôde cair na loucura assassina do nazismo? A pergunta
é velha, recorrente e inevitável.
Ao reunificar-se, em 1989, a Alemanha parecia ter chegado ao fim da purgação
de seus pecados. Antes disso, o "milagre econômico" do pós-guerra
havia comprovado a vitalidade do povo alemão. As conquistas das Copas de
1954, 1974 e 1990 exibiram ao mundo um país de novo confiante e com vontade
de vencer. Cada um desses feitos contribuiu com uma parcela para conferir à
Alemanha a cara de país "normal". Mas cada um teve também o efeito
de trazer de volta a memória do passado. É assim nesta Copa. Olha-se
para aquela gente, os belos parques, as cidades e os estádios em festa,
e a pergunta é a de sempre: "Como pôde acontecer?". Já faz
mais de sessenta anos que Hitler e o nazismo saíram de cena. Nem outros
sessenta, talvez, serão suficientes para que se olhe para a Alemanha e
se deixe de pensar neles. |