|
|
Brasil A
caça às bruxas A Polícia
Federal abre investigação sobre denúncia de que o cacau
na Bahia foi alvo de sabotagem  Policarpo
Junior
Marcio
Lima
 | | José
Pereira, nova testemunha: ele viu dois técnicos pondo a praga nas plantações |
O técnico em administração Luiz Henrique Franco Timóteo,
54 anos, foi ouvido pela Polícia Federal na semana passada. Em depoimento
de quatro horas, ele confirmou ter sido um dos responsáveis pela disseminação
proposital da praga conhecida como vassoura-de-bruxa, que devastou as plantações
de cacau do sul da Bahia no início dos anos 90. Conforme afirmara em reportagem
publicada por VEJA, Franco Timóteo confirmou que agiu em conjunto com cinco
funcionários da Ceplac, o órgão do Ministério da Agricultura
responsável pelo cacau. O técnico contou que, no fim da década
de 80, quando militava no PDT, se juntou a cinco servidores da Ceplac, todos militantes
petistas, e eles decidiram sabotar as plantações do sul da Bahia
para minar o poder político e econômico dos barões do cacau.
Em sete ou oito viagens, ao longo de quase quatro anos, ramos infectados com a
vassoura-de-bruxa foram colhidos em Rondônia, onde a praga é endêmica,
e levados para a Bahia. Ali, a doença espalhou-se de forma incontrolável
e dizimou as plantações baianas. O Brasil, que era então
o segundo maior produtor mundial de cacau, passou a importar a fruta.
"Não tenho dúvidas de que a introdução
da vassoura-de-bruxa no sul da Bahia foi criminosa", declara o pesquisador Gonçalo
Guimarães Pereira, chefe do departamento de genética da Universidade
Estadual de Campinas. O especialista, no entanto, não acredita na versão
de Franco Timóteo. Ele diz que, nas plantações baianas, há
apenas duas variações do fungo causador da doença
e deveria haver muito mais. "A chance de alguém ter pegado fungos de várias
localidades, em períodos diferentes, e apenas dois terem se desenvolvido
é praticamente nula", afirma. Gonçalo Pereira, que coordenou o projeto
de pesquisa do genoma da vassoura-de-bruxa, explica que as duas variações
do fungo encontradas nas lavouras da Bahia são realmente originárias
da região amazônica. Mas faz uma ressalva. "Se foi como ele contou,
deveria haver vários focos e vários tipos de fungo", diz o pesquisador.
Sua tese, no entanto, é contestada por outros especialistas.
Fotrs
Anderson Schneider/divulgação
 |  | | Franco
Timóteo, que depôs na PF, e um cacau cheio de basidiocarpos: para cientistas,
a denúncia é verossímil |
A
bióloga Maricilia Arruda, doutora em biologia molecular pela Universidade
de Brasília (UnB), acha que a posição de Gonçalo Pereira
"é, no mínimo, precipitada". Ela concorda que, muito provavelmente,
o material infectado em Rondônia realmente devia carregar grande diversidade
de fungos e não apenas dois , mas ressalta que uma coisa não
pode ser tratada como conseqüência direta da outra. "Os sabotadores
podem ter pegado vassouras velhas, vassouras apodrecidas e vassouras novas. As
novas secam e produzem esporos, que infectam as plantas desde que haja condições
de clima e umidade. As apodrecidas não. Assim, não é improvável
que apenas dois tipos tenham produzido esporos", afirma a pesquisadora. Há
um problema até na premissa de Gonçalo Pereira de que existem apenas
dois tipos de vassoura-de-bruxa na Bahia.
O diretor do centro de pesquisas da Ceplac, Jonas de Souza, diz que um estudo
iniciado no ano passado por especialistas do órgão detectou a existência
de pelo menos cinco variedades de fungo no sul da Bahia. A pesquisa foi coordenada
pela bióloga Karina Gramacho, doutora em fitopatologia pela Universidade
da Flórida. Ela diz que a pesquisa de variabilidade de fungos conduzida
por Gonçalo pode não ter sido tão abrangente o que
justificaria seu equívoco em dizer que há apenas dois tipos na região.
"Você pode trazer 1.000 plantas doentes, mas elas só representam
um perigo se produzirem basidiocarpos", afirma Karina Gramacho, referindo-se a
um cogumelo que se instala no cacau e dá origem aos esporos. "Se os basidiocarpos
vão produzir esporos e infectar é outra história, que depende
do clima, das condições de transporte do material, da própria
maneira de inserção", explica a pesquisadora.
A bióloga Maricilia Arruda, da UnB, aventa outra possibilidade: a de que
haja fungos em Rondônia altamente virulentos que, uma vez espalhados na
Bahia, podem ter matado todos os demais. Esse tipo excepcionalmente agressivo,
diz a pesquisadora, existe justamente na região de Ouro Preto do Oeste,
em Rondônia, uma das cidades onde Franco Timóteo diz ter coletado
ramos infectados. "Não se pode descartar a possibilidade de esse fungo
mais agressivo ter colonizado os cacaueiros baianos primeiro, impedindo a entrada
de outros tipos." O fitopatologista João Marcelino Pereira, consultor das
Nações Unidas, alerta ainda para a possibilidade de o fungo instalado
no sul da Bahia ter sofrido um processo de mutação. "Com o tempo,
os patógenos, que são os fungos causadores da doença, podem
sofrer mutações genéticas para se adaptar à planta
hospedeira", diz ele. Além
de ter verossimilhança científica, a denúncia de Franco Timóteo
ganhou mais algumas evidências. Em Itabuna, a principal cidade da região
cacaueira da Bahia, VEJA localizou dois personagens que podem auxiliar os investigadores
na elucidação do caso. Um é o funcionário público
Gilberto Oliveira, diretor do arquivo público da cidade. Ele conta que
se lembra de ter visto, no fim da década de 80, num ano que não
sabe precisar, Franco Timóteo desembarcando de um ônibus com um saco
de plantas. "Achei estranho e fiz uma brincadeira. Perguntei: 'É maconha?'.
Ele respondeu que era uma encomenda." Na verdade, era Franco Timóteo chegando
de Rondônia com ramos infectados de vassoura-de-bruxa. A outra testemunha
importante é o empresário José Pereira dos Santos. Ele lembra
que, certa vez, ao voltar de uma fazenda, encontrou dois amigos com sacos nas
costas, cães e espingardas, acompanhados de outros dois homens. Pereira
perguntou o que estavam fazendo lá. "Você guarda segredo?", perguntou
um deles. Em seguida, contou que, em troca de um bom dinheiro, estavam espalhando
a praga e que seus acompanhantes eram técnicos da Ceplac. VEJA exibiu várias
fotos a José Pereira, entre elas as imagens dos cinco petistas da Ceplac.
Ele reconheceu dois Jonas Nascimento e Eliezer Correia, que, de fato, foram
denunciados por Franco Timóteo. |