Edição 1963 . 5 de julho de 2006

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O vampiroduto do PT

Surgem indícios de que Delúbio
Soares, o ex-tesoureiro, tinha
ligações com a máfia dos vampiros


Diego Escosteguy


Adriano Machado/AE
Delúbio Soares, o ex-tesoureiro: ele fez pelo menos dezessete ligações para o celular do lobista do esquema
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Cronologia da crise


O escândalo dos vampiros, conforme acabou batizado o bilionário esquema de fraudes em licitações do Ministério da Saúde, ficou conhecido como um caso de associação criminosa entre funcionários públicos corruptos, lobistas obscuros e empresários sem escrúpulos. A quadrilha começou a ser desbaratada na madrugada de 19 de maio de 2004, quando agentes da Polícia Federal lançaram a Operação Vampiro e prenderam dezessete envolvidos no esquema em três cidades. De lá para cá, as investigações mostraram que o esquema dos vampiros fora instalado ainda no tempo do governo de Fernando Collor (1990-1992) e pode ter chegado a desviar a monumental cifra de 2 bilhões de reais, de acordo com estimativa da Polícia Federal. Apesar de sua dimensão e sua longevidade, o esquema nunca ultrapassou as fronteiras da criminalidade comum – era mais um caso de assalto aos cofres públicos envolvendo personagens desconhecidos e funcionários subalternos. Agora, dois anos depois, surgem indícios sólidos de que o esquema tinha uma face oculta: uma conexão com o caixa dois do PT.

VEJA conseguiu acesso aos 25 volumes do inquérito do caso, guardados na Polícia Federal em Brasília. Com cerca de 7.000 páginas, o inquérito traz depoimentos e transcrições de escutas telefônicas cujo conteúdo nunca veio a público – e mostra que havia ligações entre a máfia dos vampiros e o então tesoureiro do PT, Delúbio Soares. O elo é o lobista Laerte de Arruda Corrêa Junior, 49 anos. As investigações mostraram que Laerte Corrêa era um novato na máfia dos vampiros, à qual se integrou apenas depois que o governo do PT tomou posse, em 2003, mas na qual rapidamente adquiriu certa proeminência. Quando estava prestes a ser preso, ele tentou transferir 4,5 milhões de reais de suas empresas para as contas bancárias de sua mãe, mas a operação foi bloqueada em tempo. Ficou 136 dias preso na carceragem da Polícia Federal. Investigado, acabou denunciado pelo Ministério Público Federal e hoje responde a processo judicial por corrupção, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro, entre outros crimes.

A principal acusação contra Laerte Corrêa aparece no depoimento do empresário Sérgio Krishnamurt Noschang, o principal executivo para a América Latina do Novo Nordisk, um laboratório dinamarquês que figura como o maior fabricante mundial de insulina, substância usada por diabéticos. Em seu depoimento, prestado em 15 de junho de 2004, Noschang contou que começou a ser procurado por Laerte Corrêa em setembro de 2003 e acabou recebendo o lobista em janeiro do ano seguinte. A conversa foi um achaque. Conforme Noschang contou à PF, Laerte Corrêa apresentou-se como homem com "fortes ligações" com o PT, disse que tinha a atribuição de "arrecadar recursos" para o partido e, com base nessa tenebrosa introdução, começou a oferecer seus "serviços de consultoria". Curiosamente, o agente da Polícia Federal que tomou o depoimento do empresário, ao ouvir essa exposição, simplesmente encerrou a oitiva e não perguntou nada mais – nem mesmo se o "serviço" foi contratado. Procurado por VEJA, Noschang não quis falar sobre o assunto, mas sua advogada, Mary Livingston, mandou dizer que ele mantém tudo o que disse à PF e nega ter dado dinheiro ao lobista.


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Ricardo Benichio
"HOMEM DO PT"
Em seu depoimento à Polícia Federal, prestado no dia 15 de junho de 2004, o empresário Sérgio Noschang, importante executivo da Novo Nordisk, disse que o lobista Laerte de Arruda Corrêa apresentou-se como homem do PT, que tinha funções de arrecadador e, usando essa credencial, começou a oferecer seus serviços junto ao Ministério da Saúde
Sérgio Noschang: ele confirma tudo o que disse à PF, mas nega ter dado dinheiro ao lobista

Os detalhes comprometedores da conversa entre o lobista e o empresário aparecem numa escuta telefônica feita às 19h36 de 22 de janeiro de 2004. Nessa conversa, monitorada pela polícia, Laerte Corrêa narra seu encontro com o empresário Sérgio Noschang com a liberdade de quem fala com um comparsa. Seu interlocutor é Jaisler Jabour, um dos acusados de comandar a quadrilha dos vampiros – e talvez o personagem mais conhecido do escândalo, por ser pai da modelo Ellen Jabour, namorada do ator Rodrigo Santoro. No diálogo, Laerte Corrêa diz a Jabour que a conversa foi "fantástica" e conta que não terá de "tirar dinheiro" do empresário. "Nós vamos ganhar dinheiro dele", diz. No trecho mais explícito de suas intenções, relata ter falado ao empresário que sua taxa não poderia ser de 6%, que teria de cobrar 10%. A razão é que 6% de tudo o que cobrasse já tinha destino previamente selado. "Eu não posso com 6. Eu tenho de mandar 6 para um lugar", diz. Mais adiante, ele volta ao assunto e repete: "Eu tenho de levar xis para tal lugar. Esse xis tem de ir". Há vários indícios de que "tal lugar" ou "um lugar" é o caixa dois do PT então manipulado por Delúbio Soares.

Um desses indícios está em outro depoimento colhido pela Polícia Federal. Em 25 de maio de 2004, o lobista Francisco Danúbio Honorato, que trabalhava com Jaisler Jabour e esteve preso por sua participação no esquema, contou à polícia que seu chefe comentava que Laerte Corrêa "por diversas vezes o procurou exigindo dinheiro e apresentando-se como pessoa influente junto ao governo federal". Mais adiante, no depoimento, o lobista Francisco Honorato diz que seu chefe costumava lhe dizer que "o dinheiro solicitado seria utilizado para campanhas políticas do PT". Além de examinar os 25 volumes do inquérito, VEJA entrevistou dois integrantes da quadrilha. Eles também reforçam as suspeitas de que Laerte Corrêa se ocupava em achacar e reservar uma parcela do achaque ao PT. Os dois, que também chegaram a ficar presos na Polícia Federal por envolvimento com o esquema, falaram à revista com a condição de que sua identidade não fosse revelada. Um deles foi ouvido pela reportagem em seis ocasiões – cinco em contatos pessoais e uma vez por telefone. O outro foi entrevistado três vezes, duas pessoalmente e uma por telefone.

Os dois, ouvidos sempre em conversas separadas, disseram a VEJA que Laerte Corrêa se aproximou da quadrilha no segundo semestre de 2003, alardeando influência junto ao governo. Dizia que sua missão era arrecadar dinheiro para o caixa petista e pleiteava uma parcela das propinas embolsadas pelos vampiros. "Laerte ligava a todo momento para Delúbio na minha frente, para contar detalhes do que estava acontecendo", diz um deles. Laerte Corrêa poderia ser um falastrão? Alguém que divulga influências e amizades que na verdade não tem? Quando o escândalo dos vampiros veio à tona, em maio de 2004, Delúbio Soares admitiu que tivera contato com Laerte Corrêa, mas apenas isso. "O Laerte prestava consultoria – é assim que ele falava – para os laboratórios. Até então não havia nada que depusesse contra ninguém", afirmou Delúbio, na época. Na realidade, as ligações entre ambos eram mais profundas. Conheceram-se na campanha presidencial de 2002, num jantar oferecido na casa do empresário Ivo Rosseti, em São Paulo, cujo objetivo era aproximar Lula do PIB nacional.


Lula Marques/Folha Imagem
A Polícia Federal em ação, em 2004: pegando fraudes de 2 bilhões de reais

"Depois do jantar, quatro empresas com as quais eu tinha contato resolveram contribuir para a campanha, mas tudo de forma oficial e transparente", diz Laerte Corrêa. Ele conta que, depois desse jantar, se encontrou mais uma meia dúzia de vezes com Delúbio. "Mas foi só para apresentar projetos na área de saúde do governo", diz o lobista, sem demonstrar constrangimento com a estupenda informação de que o tesoureiro do PT cuidava da saúde no governo...! "Quando fiz uma cirurgia, ele me visitou em casa", lembra Laerte Corrêa. "Eu também compareci ao aniversário dele na churrascaria Porcão em Brasília, em 2003." Os contatos então se restringiram a isso? Tudo indica que não. Os extratos telefônicos de Delúbio Soares, requisitados pela extinta CPI dos Correios, mostram que o então tesoureiro costumava se comunicar com um número de celular – 8114-6565 – que os integrantes da CPI não conseguiram identificar a quem pertencia. Esse celular, sabe-se agora, era de Laerte Corrêa. Os extratos de Delúbio mostram que, entre 25 de agosto e 18 de dezembro de 2003, esse número foi acionado dezessete vezes. Dá uma média de uma conversa por semana – periodicidade um tanto exagerada para duas pessoas que mal se conhecem. Laerte Corrêa diz que, nessa época, o celular em questão era usado por um colega. Que colega? O lobista não se lembra...

E será que Laerte Corrêa, além da amizade com Delúbio Soares, tinha mesmo influência junto ao governo, conforme alardeava para os colegas vampiros? O fato é que, na mesma época em que ele tentou achacar o empresário Sérgio Noschang, o Ministério da Saúde preparava uma compra de insulina, um dos mais cobiçados contratos do governo federal. No início de março de 2004, pouco mais de um mês depois da conversa entre o lobista e o empresário, o Novo Nordisk estava assinando contrato com o Ministério da Saúde para vender insulina no valor de 127 milhões de reais. Pura coincidência? O procurador Gustavo Velloso, do Ministério Público Federal em Brasília, que teve acesso às escutas telefônicas de membros da quadrilha feitas pela Polícia Federal, diz em sua denúncia à Justiça Federal que as gravações mostram que houve fraude no edital do pregão para compra de insulina e que funcionários do Ministério da Saúde envolvidos com a vampiragem atropelaram pareceres técnicos para celebrar o contrato.

Laerte Corrêa nega que tenha se associado à máfia dos vampiros, que tenha achacado o empresário Sérgio Noschang ou que tenha arrecadado dinheiro para o PT. "Isso tudo é uma fantasia. Falam isso tentando me atingir", diz ele. Com certeza, não se pode acusar a Polícia Federal de estar entre os que querem atingir o lobista. Na PF, o inquérito que apura o caso e contém informações explosivas apresenta lacunas impressionantes. Uma delas é que a Justiça, a pedido da PF, autorizou a quebra do sigilo telefônico de Laerte Corrêa e também a instalação de escuta em pelo menos um dos celulares usados pelo lobista – justamente o 8114-6565, com o qual Delúbio Soares mantinha contato freqüente. O curioso é que, entre as 7.000 páginas do inquérito, não consta nenhum extrato telefônico de Laerte Corrêa e não há uma única transcrição de conversa que manteve em seu celular. Qual será o motivo de tamanha lacuna?

 

O ACHAQUE

No curso das investigações sobre a máfia dos vampiros, a Polícia Federal monitorou os telefones de dezenas de suspeitos durante cerca de um ano. Um dos monitorados foi Laerte de Arruda Corrêa, apontado pela polícia como um dos principais integrantes da quadrilha. Nesta conversa telefônica, iniciada às 19h36 do dia 22 de janeiro de 2004, o lobista Laerte Corrêa conversa com o empresário Jaisler Jabour, um dos comandantes da máfia dos vampiros, e conta os termos em que abordou o empresário Sérgio Noschang, principal executivo da Novo Nordisk na América Latina, na tentativa de extorqui-lo. Na conversa, Corrêa conta que não poderia pedir propina de apenas 6%, mas que teria de exigir 10%, pois 6% precisavam ser destinados "para um lugar". As investigações indicam que a expressão "um lugar" significava o caixa do PT.

A seguir os principais trechos:

Corrêa – Eu não tenho que tirar dinheiro dele (refere-se a Sérgio Noschang). Nós vamos ganhar dinheiro dele. E não tirar dinheiro dele. De uma coisa que não existe.

Jabour – Exatamente.

Corrêa – Não existe nada de 18% de ICM, não existe... Quer dizer... Eu quis deixar claro pra ele... Ó, Sérgio (Noschang), aonde eu puder ajudar, vou ajudar, se tiver que pagar, vai pagar. Se não tiver que pagar, eu vou falar que não precisa pagar.

Alan Marques/Folha Imagem
Jaisler Jabour, um dos chefes do esquema: comparsa no achaque


Jabour
Exatamente.

(...)

Corrêa – Se você tinha algum tipo de compromisso com o Lourenço (refere-se a Lourenço Peixoto, outro integrante da máfia dos vampiros, mas rival de Corrêa e Jabour no esquema), então, você acabou de perder... Acabou de deixar de existir hoje.

Jabour – Então tá ótimo.

Corrêa – Até porque existe um acerto a ser feito e precisa dos 10%. É isto que eu falei pro Sérgio (Noschang).

Jabour – Hum.

Corrêa – Eu não posso com seis. Eu tenho que mandar seis para um lugar. Três têm que ficar com o Eduardo (refere-se a Eduardo Pedrosa, outro integrante da máfia dos vampiros), um com o Jabour. Porque eu tenho que dar três... Enfim, cê tá entendendo o que eu tô falando pro cê?

Jabour – Hum, hum, e ele?

Corrêa – ...não, é o que você fala. Cê acerta com o Jabour, e é isso aí.

(...)

Corrêa – Chega com o Sérgio (Noschang) e fala que precisa de tanto. Acabou.

Jabour Exatamente.

Corrêa – Eu não posso chegar, é... porque os malucos (refere-se aos funcionários do Ministério da Saúde que compactuavam com o esquema) têm que ter tanto, porque não sei o quê...

Jabour – Hum, hum.

Corrêa – Eu tenho que levar xis para tal lugar. Esse xis tem que ir. Acabou.

Jabour – Entendi.

Fonte: escutas da Polícia Federal na Operação Vampiro

 

 
 
 
 
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