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Carta ao leitor Não
é falta de coração, mas de cérebro
Nesta edição, VEJA traz uma reportagem sobre um aspecto fascinante
do capitalismo americano: o da filantropia bilionária. Aos 75 anos, o investidor
Warren Buffett, o segundo homem mais rico do mundo, decidiu doar 85% de sua fortuna
(o equivalente a 37,4 bilhões de dólares) a cinco fundações.
A maior parte desse dinheiro (30,7 bilhões) será transferida de
forma escalonada para a fundação administrada por Bill Gates, o
homem mais rico do mundo. A doação transforma a fundação
de Gates a Fundação Bill & Melinda Gates numa
potência filantrópica de proporções inéditas:
60 bilhões de dólares, cifra similar ao PIB do Peru e ao valor de
mercado da Disney, uma das gigantes do mundo do entretenimento.
Essa nova fase da filantropia americana surge num contexto em que sobressaem uma
virtude e uma falha. A virtude é o estágio atual do próprio
sistema capitalista, capaz, em sua forma mais avançada, de gerar excedentes
vultosos que retornam à sociedade pela mão de empresários
conscientes e abnegados. A falha é dos governos e das instituições
internacionais, como o Banco Mundial, que se mostraram ineficazes no combate à
pobreza e às endemias no mundo. Pessoas como Buffett e Gates, portanto,
indicam um caminho para supri-la. A filantropia,
é bom que se diga, faz parte da cultura americana desde o século
XIX. Trata-se de uma atitude de origem religiosa que, com o passar dos anos, evoluiu
para tornar-se parte fundamental das relações sociais naquele país.
Hoje, nos Estados Unidos, mais pessoas doam a projetos sociais do que votam em
eleições. Calcula-se que 89% dos americanos façam algum tipo
de contribuição financeira voluntária. Não é
pouca coisa. Cerca de 75% do total de recursos doados nacionalmente vem de pessoas
físicas. Esses números são altos porque existe também
uma arquitetura fiscal que estimula a filantropia: doações individuais
geram créditos tributários que podem ser deduzidos do imposto a
pagar. É o contrário do que ocorre no Brasil. Por aqui, não
há incentivos fiscais às pessoas que queiram fazer filantropia.
Além disso, restrições legais quase intransponíveis
dificultam a doação individual de dinheiro, equipamentos e livros
para universidades públicas e outras instituições. É
caro, difícil e arriscado driblar tais dificuldades. O coração
dos brasileiros seria bem mais generoso se o cérebro dos governantes fosse
mais ventilado. |