Edição 1 656 -5/7/2000

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TELEVISÃO

Divulgação
Sedução da Carne: inventário de emoções


Luchino Visconti
(quartas, às 22h, no Eurochannel) – A lista de serviços prestados ao cinema por Luchino Visconti (1906-1976) contém uma profusão de clássicos: O Leopardo, Ludwig, Morte em Veneza, Os Deuses Malditos, Rocco e Seus Irmãos... Este último, obra-prima do cineasta italiano, é a principal atração deste miniciclo. Ele passa no dia 19. Vale também conferir o drama Sedução da Carne (dia 12). A fita faz um pequeno inventário das emoções humanas, a partir da paixão vivida por uma condessa veneziana. Nós, as Mulheres (dia 5) e Boccaccio 70 (dia 26) são duas coletâneas de curtas de vários autores que trazem, além de Visconti, nomes ilustres como o de Federico Fellini.

O Grande Lebowski (Estréia domingo, dia 2, às 20h30, no HBO) – Dude, o protagonista desta comédia, é um quarentão fora de moda. Em plenos anos 90, tem visual de hippie, curte rock antigão e é ávido consumidor de maconha. Seria apenas um tipo caricato não fossem seus criadores os irmãos Joel e Ethan Coen. Nesta mirabolante trama sobre troca de identidades, os realizadores de Fargo confirmam sua especialidade: levar os estereótipos ao extremo para provocar o riso. Além de Dude, vivido por um Jeff Bridges despido de sua canastrice habitual, há tipos como um veterano da Guerra do Vietnã (John Goodman) e um excêntrico jogador de boliche (John Turturro). Dizer mais estraga.

 

LIVRO

A Pirâmide, de Ismail Kadaré (tradução de Bernardo Joffily; Companhia das Letras; 144 páginas; 22 reais) – O leitor acostumado aos romances cheios de fantasia do francês Christian Jacq poderá encontrar neste livro um olhar diferente sobre o antigo Egito. O assunto abordado pelo albanês Ismail Kadaré, um dos mais importantes escritores europeus da atualidade, é a construção da gigantesca pirâmide de Quéops. Mais do que um romance histórico, o que ele acaba produzindo, com seu texto enxuto e irônico, é uma vigorosa alegoria sobre os governos totalitários. O poder absoluto do faraó e a violência a que eram submetidos os operários do antigo Egito espelham o terror de vários regimes políticos do mundo contemporâneo. Kadaré sabe do que está falando: sua Albânia natal foi dominada com mão de ferro pelo ditador comunista Enver Hoxha, aquele sujeitinho ordinário que o PC do B idolatra. Antes de morrer, Hoxha ordenou que se construísse um monumento em sua homenagem – em forma de uma grande pirâmide, é claro.

 

DISCOS

Invincible Summer, k.d. lang (WEA) – A canadense k.d. lang é o que se pode chamar de cantora versátil. Ela consegue tanto interpretar uma refinada canção de amor de Cole Porter quanto gastar seu potente gogó em discos com influência de música country. Com Invincible Summer, seu primeiro CD de canções inéditas desde 1995, a artista também se revela uma compositora pop de primeiríssima linha. Influenciado pela bossa nova e com um pé nas melodias luminosas do maestro Burt Bacharach, o álbum Invincible Summer celebra o amor (em todas as suas formas, diga-se) e a chegada do verão americano.

High Fidelity, vários intérpretes (Roadrunner) – O ator americano John Cusack gosta de cuidar pessoalmente da trilha sonora de seus filmes. E olha que ele entende do assunto. Em Matador em Conflito, Cusack fez a alegria dos trintões ao garimpar gemas do pop dos anos 80. Para High Fidelity, fita baseada no livro do inglês Nick Hornby, que deve estrear no Brasil em outubro, ele escolheu canções na medida para seu personagem. Como interpreta o dono de uma loja de discos raros, o ator pinçou temas menos conhecidos dos astros Bob Dylan e Stevie Wonder. Além disso, incluiu músicas da banda Velvet Underground (que tinha entre seus membros Lou Reed) e do cantor Elvis Costello. Na soma, o CD reúne alguns dos melhores "lados B" da história do pop.

 

 

Literatura brasileira

Carlos Graieb

À Sombra do Cipreste
Menalton Braff
Editora Palavra Mágica; 142 páginas; 20 reais

Entregue no final de abril, o Prêmio Jabuti deste ano trouxe uma surpresa. Em vez dos nomes consagrados, Menalton Braff, professor de ensino médio no interior de São Paulo, venceu na categoria principal, "melhor obra de ficção". A escolha, no entanto, esteve longe de ser ousada. Os contos de À Sombra do Cipreste revelam um autor convencional, seguindo uma picada aberta pelos contistas brasileiros ainda nos anos 60. Seu tema privilegiado é a existência acanhada da classe média: os dramas do cotidiano, as crises de consciência, os "laços de família". Alguns dos enredos têm detalhes antiquados que remetem a um passado já não tão próximo, em que os homens usavam chapéu e os velórios eram na sala da casa. Sobre todos os textos, pesa a melancolia.

O escritor argentino Julio Cortázar costumava comparar a literatura ao boxe. Bons contos, dizia ele, devem vencer o leitor por nocaute. Às obras de Menalton Braff falta justamente explosão. O exemplo acabado disso está no texto que dá nome ao livro, uma espécie de recriação do conto Feliz Aniversário, de Clarice Lispector, uma das autoras brasileiras que mais parecem ter influenciado Braff. Nos dois casos, a mesma situação: uma mulher muito velha observa os familiares reunidos à sua volta. Clarice começa narrando em terceira pessoa. Mostra de maneira irônica as hipocrisias da vida familiar. De repente, o ponto de vista muda. Passamos a ouvir os pensamentos da velha aniversariante, e eles são cheios de ódio e desprezo. O conto atinge seu clímax quando ela cospe e confronta os filhos, "ratos se acotovelando ao seu redor". É esse ponto de tensão que falta a À Sombra do Cipreste. A protagonista parece resignada à sua morte próxima. E Braff não surpreende o leitor com nenhum artifício engenhoso, como a troca de voz narrativa empregada por Clarice. Isso ocorre em quase todos os contos. No plano da trama, os conflitos nunca se traduzem em ações. Os personagens optam pelo silêncio. O autor, por sua vez, reluta em dar uma estrutura forte e ágil a seus relatos.

Braff às vezes tenta compensar a ausência de clímax com arroubos de linguagem. Não dá certo. "A débil e obsedante melopéia do céu em final debulha no chuvisqueiro nascido com o princípio dos tempos": frases desse tipo não querem dizer nada. Mas o livro premiado tem seus bons momentos. Pode-se destacar O Banquete, Adagio Appassionato e, sobretudo, Guirlandas e Grinaldas: o Perfume, que tem final cáustico e conta a história de um homem que espera ser arrebatado ao Paraíso. Por contos como esses, Braff se inscreve com folga na linha média da literatura brasileira. Mas não tem nada de novo a dizer.

 

 

Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Nobel, Siciliano; Rio: Saraiva, Laselva, Sodiler, Siciliano; Porto Alegre: Saraiva, Livraria Ed. Porto Alegre, Sulina, Siciliano; Brasília: Sodiler, Siciliano, Saraiva; Maceió: Sodiler; Recife: Sodiler, Saraiva; Natal: Sodiler; Florianópolis: Siciliano; Goiânia: Siciliano; Fortaleza: Siciliano, Laselva; Salvador: Siciliano; Curitiba: Livraria Curitiba, Siciliano Saraiva; Belo Horizonte: Leitura, Siciliano.