Edição 1 656 -5/7/2000

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Geral
Economia e negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Colunas
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
Veja recomenda
Os mais vendidos

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


 

Como melhorar o Congresso

"Seguir a carreira política deveria ser uma
opção almejada pelos nossos jovens.
Mas no Brasil, infelizmente, ainda não é"

Ilustração Ale Setti


Todo dia alguém reclama da qualidade dos nossos políticos e da incompetência dos nossos governantes. Respondo, invariavelmente, que cada povo tem o governo que merece. Afinal, não incentivamos os jovens a ser políticos, não ajudamos os mais competentes a se eleger, nem sequer sabemos onde fica a sede do partido político em que votamos, não identificamos quem poderia ser um bom político no futuro.

Pergunte a 100 universitários que profissão escolheram e a maioria responderá administração, medicina, engenharia ou advocacia. Poucos dirão que pretendem seguir a carreira política. Tanto é que a nota de corte do vestibular de sociologia e política é uma das mais baixas de todas as profissões. Na USP, por exemplo, é 76, contra 117 de medicina.

Nenhum país consegue tornar-se uma nação séria e respeitada se a carreira de político não atrair seus melhores cidadãos. Desde Platão já havia essa constatação.

Durante o regime militar, a carreira de político, de fato, deixou de ser interessante, atraindo poucos jovens, e por isso tivemos pouca renovação. Outra razão para resolvermos esse problema, porque, francamente, ninguém agüenta mais votar nas opções do passado.

Deplorar constantemente a qualidade de nossa classe política, sem fazer absolutamente nada para mudar a situação, é uma atitude cínica e complacente de quem critica. Temos de fazer algo.

Existem excelentes políticos no Congresso, sem a menor dúvida, mas precisamos aumentar seu número. Como atrair nossos jovens, que atualmente preferem ser médicos e engenheiros, para que se tornem políticos competentes?

Há trinta anos, a sociedade americana criou um programa chamado Pagers. Naquela ocasião, pager era um menino de recados que levava bilhetes de lá para cá, nesse caso entre senadores e congressistas americanos em plenário. Ser escolhido pager era o máximo, uma honra e uma curtição.

Os detalhes devem ter mudado, mas, do que me lembro na época, cinqüenta jovens do 1º colegial, escolhidos pelos colegas entre os representantes de classe ou do grêmio, e com as melhores notas acadêmicas das escolas de cada Estado americano, eram designados pagers por três semanas, e lá iam todos para a capital da República.

Nessas três semanas, entravam em contato com os congressistas e líderes da política americana. Participavam, de certa forma, dos bastidores do poder, ouviam as discussões e as fofocas de plenário e voltavam à terra natal para ser substituídos por outros cinqüenta estudantes.

Muitos percebiam que havia algo bem mais nobre na vida que ser médico ou engenheiro. Em vez de se tornar grandes administradores, ou financistas, alguns desses melhores e brilhantes alunos optaram pela carreira de político e escolheram a faculdade apropriada.

No ano passado, ao visitar o Congresso americano, indaguei qual havia sido o efeito concreto daquele programa. Descobri que 10% dos congressistas americanos atuais e seus auxiliares diretos eram ex-pagers. Portanto, alguns dos melhores alunos de cada Estado americano estavam lá e haviam sido influenciados por aquela singular experiência como pager a mudar de carreira.

Um projeto desses custaria menos que 10.000 reais por mês em alojamento e alimentação e outros tantos em passagem de avião. Algo que a Fiesp ou outra organização civil há muito tempo deveria ter patrocinado, pois economizaria para a nação bilhões em impostos a longo prazo.

Um programa brasileiro precisaria de algumas adaptações ou poderia muito bem ser diferente. Poderíamos enviar o melhor aluno junto com o mais político. Assim, ambos aprenderiam um pouco do outro – o estudioso a ser mais político, e o político a ser mais estudioso. Não podemos parar por aí. Dezenas de outras idéias terão de ser desenvolvidas e implantadas para ajudar a melhorar o atual quadro político.

Stephen Kanitz é administrador
(www.kanitz.com)