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Cópia restaurada de A Doce Vida
não deixa dúvida: o filme é genial
Isabela Boscov
Em quase todas as cenas do filme, eles estão lá:
montados em lambretas, câmaras a tiracolo, tomam as
ruas de Roma como um enxame, perseguindo estrelas loiras,
socialites decadentes, príncipes obscuros. Trata-se
dos paparazzi, aqueles fotógrafos especialistas em
flagrar celebridades desavisadas. O termo é conhecido
e usado no mundo todo. Quem o criou foi o diretor Federico
Fellini, que retratou esses fotógrafos em seu filme
mais famoso e batizou um deles Paparazzo. Essa é,
contudo, somente a mais ínfima das contribuições
de A Doce Vida (La Dolce Vita, Itália/França,
1960), que reestréia em São Paulo em cópia
restaurada. É um desafio achar outro filme que, sozinho,
tenha legado ao público tantas imagens e expressões
incluindo-se aí seu título. Não
é o único grande relançamento da semana.
A partir de sexta-feira, os paulistanos poderão rever
também, em cópia nova, A Mulher do Lado
(La Femme d'à Côté,
França, 1981), o intrigante suspense dirigido por
François Truffaut, que morreria três anos depois
de sua realização. Nos próximos meses,
essa febre deve continuar no país com mais títulos
de Truffaut e outros de Jean-Luc Godard e Roman Polanski.
Até setembro, pelo menos um filme de Alfred Hitchcock,
o magistral Janela Indiscreta, deve engrossar a parada,
voltando ao cartaz em todas as nuances de seu technicolor
original.
O item mais vistoso desse cardápio é mesmo
A Doce Vida. Primeiro, há o prazer de rever
cenas como a da abertura, em que uma estátua de Cristo
sobrevoa Roma pendurada a um helicóptero, ou a maravilhosa
seqüência em que Marcello Mastroianni, enfeitiçado
pela beleza de Anita Ekberg, segue-a Fontana di Trevi adentro.
É, sem dúvida, a imagem mais duradoura do
filme até porque, na época, seu erotismo
chocou os mais carolas. Mas, ao mesmo tempo que se vale
dessa Roma agitada e feérica e da aura de escândalo
para seduzir a platéia, A Doce Vida trata
de lhe dar também umas tantas pauladas, e das bem
doloridas.
Belo e perturbador Fellini rodou sua obra-prima
no momento em que, refeita da dureza do pós-guerra,
a Itália se convertia em um dos eixos da vida mundana
européia. Seu personagem central é Marcello
(vivido por Mastroianni), um jornalista especialista em
publicar fofocas. O personagem, no entanto, vive em permanente
crise interior porque se sabe um parasita, como o são
também os paparazzi e os burgueses que perseguem,
e que se ocupam tão-somente de viver a vida como
se ela fosse sempre doce. O personagem gosta de se imaginar
transformado em escritor respeitável, mas, a cada
festa e a cada amanhecer, ele vai se tornando tão
vazio quanto seus companheiros. Ao final, a sensação
que se tem é de que dele só sobrou a casca.
A Doce Vida marcou a ruptura das tênues amarras
que ligavam Fellini ao movimento neo-realista e fez com
que ele se estabelecesse como o maior entre os grandes cineastas
italianos. Prova de que a fama se justifica é que,
quatro décadas depois de seu lançamento, A
Doce Vida continua tão arrebatador e perturbador
como no dia em que chegou aos cinemas. Que também
pareça tão belo, no entanto, é resultado
de um trabalho paciente. Durante três anos, a escola
de cinema do estúdio Cinecittà, em Roma, reuniu
cópias em negativo do filme para substituir trechos
deteriorados ou comprometidos. Até o negativo de
som foi restaurado, para que se eliminassem chiados e riscos.
Cada vez mais, a preocupação com o restauro
sobe na lista de prioridades dos institutos de cinema de
todo o mundo. Não sem razão: os americanos
calculam que mais da metade de seus filmes produzidos até
1951 já estejam irremediavelmente perdidos. Isso
porque a película que se usava até então
se decompõe facilmente e é muito inflamável.
Para salvar os filmes que restam, é preciso copiá-los
em outra película. Outras vezes, o restauro visa
reparar mutilações. É o caso de O
Leopardo, de Luchino Visconti, que os brasileiros tinham
sido obrigados a engolir com dublagem em inglês e
muitos minutos a menos do que na versão original.
Na edição restaurada, relançada no
Brasil em 1994 pela mesma Pandora Filmes que distribui A
Doce Vida, ele recuperou as cenas cortadas e as falas
em italiano. O problema da conservação atinge
até produções recentes: se não
for armazenada da forma correta, a película colorida
que se emprega hoje começa a desbotar depois de cinco
anos.
Iniciativa brasileira Por isso é
quase um milagre que A Mulher do Lado esteja intacto
depois de pouco menos de duas décadas. Sua história
é quase tão curiosa quanto a trama do próprio
filme, que coloca Gérard Depardieu e Fanny Ardant
como ex-amantes que se tornam vizinhos e passam a reviver
as paixões e os ressentimentos do passado de forma
obsessiva. Há alguns anos, depois de inúmeras
tentativas, a distribuidora carioca Filmes do Estação
conseguiu comprar os direitos de exibição
de dezoito filmes de Truffaut, entre eles O Último
Metrô e A História de Adèle H.
O paradeiro dos negativos, porém, era um mistério.
Finalmente, eles foram localizados na casa de campo
da família do diretor. A própria Filmes do
Estação bancou a limpeza do material. Somada
aos direitos e à feitura de novas cópias,
ela fez a conta bater nos 250.000
dólares. A empreitada já rendeu uma mostra,
que rodou oito capitais há dois anos. Agora, os filmes
estão voltando ao cartaz. Em breve, vários
deles deverão ser lançados em DVD. Entusiasmados,
americanos e japoneses também trataram de comprar
algumas dessas fitas para exibi-las em seus países.
É um caso inédito: parte da obra de um diretor
europeu consagrado voltando ao circuito graças a
uma iniciativa brasileira. Truffaut merece.