Edição 1 656 -5/7/2000

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Trailer de A Mulher do Lado

Cópia restaurada de A Doce Vida não deixa dúvida: o filme é genial

Isabela Boscov

Em quase todas as cenas do filme, eles estão lá: montados em lambretas, câmaras a tiracolo, tomam as ruas de Roma como um enxame, perseguindo estrelas loiras, socialites decadentes, príncipes obscuros. Trata-se dos paparazzi, aqueles fotógrafos especialistas em flagrar celebridades desavisadas. O termo é conhecido e usado no mundo todo. Quem o criou foi o diretor Federico Fellini, que retratou esses fotógrafos em seu filme mais famoso e batizou um deles Paparazzo. Essa é, contudo, somente a mais ínfima das contribuições de A Doce Vida (La Dolce Vita, Itália/França, 1960), que reestréia em São Paulo em cópia restaurada. É um desafio achar outro filme que, sozinho, tenha legado ao público tantas imagens e expressões – incluindo-se aí seu título. Não é o único grande relançamento da semana. A partir de sexta-feira, os paulistanos poderão rever também, em cópia nova, A Mulher do Lado (La Femme d'à Côté, França, 1981), o intrigante suspense dirigido por François Truffaut, que morreria três anos depois de sua realização. Nos próximos meses, essa febre deve continuar no país com mais títulos de Truffaut e outros de Jean-Luc Godard e Roman Polanski. Até setembro, pelo menos um filme de Alfred Hitchcock, o magistral Janela Indiscreta, deve engrossar a parada, voltando ao cartaz em todas as nuances de seu technicolor original.

O item mais vistoso desse cardápio é mesmo A Doce Vida. Primeiro, há o prazer de rever cenas como a da abertura, em que uma estátua de Cristo sobrevoa Roma pendurada a um helicóptero, ou a maravilhosa seqüência em que Marcello Mastroianni, enfeitiçado pela beleza de Anita Ekberg, segue-a Fontana di Trevi adentro. É, sem dúvida, a imagem mais duradoura do filme – até porque, na época, seu erotismo chocou os mais carolas. Mas, ao mesmo tempo que se vale dessa Roma agitada e feérica e da aura de escândalo para seduzir a platéia, A Doce Vida trata de lhe dar também umas tantas pauladas, e das bem doloridas.

Belo e perturbador – Fellini rodou sua obra-prima no momento em que, refeita da dureza do pós-guerra, a Itália se convertia em um dos eixos da vida mundana européia. Seu personagem central é Marcello (vivido por Mastroianni), um jornalista especialista em publicar fofocas. O personagem, no entanto, vive em permanente crise interior porque se sabe um parasita, como o são também os paparazzi e os burgueses que perseguem, e que se ocupam tão-somente de viver a vida como se ela fosse sempre doce. O personagem gosta de se imaginar transformado em escritor respeitável, mas, a cada festa e a cada amanhecer, ele vai se tornando tão vazio quanto seus companheiros. Ao final, a sensação que se tem é de que dele só sobrou a casca.

A Doce Vida marcou a ruptura das tênues amarras que ligavam Fellini ao movimento neo-realista e fez com que ele se estabelecesse como o maior entre os grandes cineastas italianos. Prova de que a fama se justifica é que, quatro décadas depois de seu lançamento, A Doce Vida continua tão arrebatador e perturbador como no dia em que chegou aos cinemas. Que também pareça tão belo, no entanto, é resultado de um trabalho paciente. Durante três anos, a escola de cinema do estúdio Cinecittà, em Roma, reuniu cópias em negativo do filme para substituir trechos deteriorados ou comprometidos. Até o negativo de som foi restaurado, para que se eliminassem chiados e riscos.

Cada vez mais, a preocupação com o restauro sobe na lista de prioridades dos institutos de cinema de todo o mundo. Não sem razão: os americanos calculam que mais da metade de seus filmes produzidos até 1951 já estejam irremediavelmente perdidos. Isso porque a película que se usava até então se decompõe facilmente e é muito inflamável. Para salvar os filmes que restam, é preciso copiá-los em outra película. Outras vezes, o restauro visa reparar mutilações. É o caso de O Leopardo, de Luchino Visconti, que os brasileiros tinham sido obrigados a engolir com dublagem em inglês e muitos minutos a menos do que na versão original. Na edição restaurada, relançada no Brasil em 1994 pela mesma Pandora Filmes que distribui A Doce Vida, ele recuperou as cenas cortadas e as falas em italiano. O problema da conservação atinge até produções recentes: se não for armazenada da forma correta, a película colorida que se emprega hoje começa a desbotar depois de cinco anos.

Iniciativa brasileira – Por isso é quase um milagre que A Mulher do Lado esteja intacto depois de pouco menos de duas décadas. Sua história é quase tão curiosa quanto a trama do próprio filme, que coloca Gérard Depardieu e Fanny Ardant como ex-amantes que se tornam vizinhos e passam a reviver as paixões e os ressentimentos do passado de forma obsessiva. Há alguns anos, depois de inúmeras tentativas, a distribuidora carioca Filmes do Estação conseguiu comprar os direitos de exibição de dezoito filmes de Truffaut, entre eles O Último Metrô e A História de Adèle H. O paradeiro dos negativos, porém, era um mistério. Finalmente, eles foram localizados – na casa de campo da família do diretor. A própria Filmes do Estação bancou a limpeza do material. Somada aos direitos e à feitura de novas cópias, ela fez a conta bater nos 250.000 dólares. A empreitada já rendeu uma mostra, que rodou oito capitais há dois anos. Agora, os filmes estão voltando ao cartaz. Em breve, vários deles deverão ser lançados em DVD. Entusiasmados, americanos e japoneses também trataram de comprar algumas dessas fitas para exibi-las em seus países. É um caso inédito: parte da obra de um diretor europeu consagrado voltando ao circuito graças a uma iniciativa brasileira. Truffaut merece.