Edição 1 656 -5/7/2000

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O poderoso Freud

A série Família Soprano coloca a Máfia no divã

Marcelo Marthe

Meses atrás, gângsteres americanos travaram uma conversa insólita pelo telefone. "Você já viu aquela série que está passando na TV? Tem um monte de semelhanças com o nosso pessoal", disse um deles. Seu interlocutor concordou e não se conteve nos elogios: "E que personagens!". Membros da famiglia De Cavalcante, de Nova Jersey, ambos acabaram presos depois que a ligação foi grampeada pela polícia. Pudera. Família Soprano, o seriado a que se referiam, mostra de forma realista o cotidiano de mafiosos daquela mesma área próxima a Nova York, sem economizar na truculência das cenas. E tome tiroteios, pancadaria e acertos de contas sangrentos. Não é este, contudo, o foco principal da trama. O programa tem feito sucesso de público e crítica – hoje é a série mais popular da TV por assinatura nos Estados Unidos – porque explora com maestria o lado, digamos, humano da atividade criminal. Seu protagonista, o chefão ítalo-americano Tony Soprano, vivido pelo excelente James Gandolfini, é um bandido imerso em crise existencial. Corpulento e esquentadão, herdou de seu pai um "negócio" em decadência e dá duro para manter sob controle seus subordinados. Dentro de casa, ainda por cima, tem de aturar as cobranças da mulher e os atrevimentos dos filhos adolescentes. Resultado: Tony começa a ter exasperantes crises de pânico e recorre à ajuda de uma terapeuta.

Com essa história inovadora e envolvente, a série criada por David Chase – ele próprio um oriundo de Nova Jersey, obcecado por filmes de gângsteres – fisgou uma audiência para lá de respeitável. O último capítulo de sua segunda temporada, mostrado em 9 de abril pela HBO, foi visto por 9 milhões de americanos, quebrando o recorde anterior da emissora, alcançado com a exibição de Titanic. Além disso, no ano passado Família Soprano foi indicado para nada menos do que catorze Emmy, o equivalente do Oscar para a televisão. Levou quatro premiações. A HBO brasileira começa a transmitir os treze episódios da segunda temporada nesta sexta-feira, dia 7, às 22h30. Logo no primeiro, Tony tenta convencer a psiquiatra Jennifer Melfi (Lorraine Bracco, de Os Bons Companheiros) a voltar a atendê-lo. Ele havia mandado a pobre doutora às favas no final da temporada anterior.

Édipo – O temperamento instável do chefão tem origem num tremendo complexo de Édipo. Tony é filho de uma mãe onipotente e manipuladora, que chegou a tramar um golpe contra o próprio filho. Tudo isso é mostrado com tensão dramática e humor de primeira. Nada a ver com as piadinhas superficiais da comédia Máfia no Divã, estrelada por Robert De Niro, que tem argumento parecido. Família Soprano é muito mais interessante. Pena que, na terceira fase do seriado, prometida para março do ano que vem, não se verá a ótima Nancy Marchand, que interpreta a matriarca Livia Soprano. A atriz morreu há duas semanas, aos 72 anos, de câncer de pulmão.