O poderoso Freud
A série Família Soprano
coloca a Máfia no divã
Marcelo Marthe
Meses atrás, gângsteres americanos travaram
uma conversa insólita pelo telefone. "Você
já viu aquela série que está passando
na TV? Tem um monte de semelhanças com o nosso pessoal",
disse um deles. Seu interlocutor concordou e não
se conteve nos elogios: "E que personagens!". Membros da
famiglia De Cavalcante, de Nova Jersey, ambos acabaram
presos depois que a ligação foi grampeada
pela polícia. Pudera. Família Soprano,
o seriado a que se referiam, mostra de forma realista o
cotidiano de mafiosos daquela mesma área próxima
a Nova York, sem economizar na truculência das cenas.
E tome tiroteios, pancadaria e acertos de contas sangrentos.
Não é este, contudo, o foco principal da trama.
O programa tem feito sucesso de público e crítica
hoje é a série mais popular da TV por assinatura
nos Estados Unidos porque explora com maestria o lado,
digamos, humano da atividade criminal. Seu protagonista,
o chefão ítalo-americano Tony Soprano, vivido
pelo excelente James Gandolfini, é um bandido imerso
em crise existencial. Corpulento e esquentadão, herdou
de seu pai um "negócio" em decadência e dá
duro para manter sob controle seus subordinados. Dentro
de casa, ainda por cima, tem de aturar as cobranças
da mulher e os atrevimentos dos filhos adolescentes. Resultado:
Tony começa a ter exasperantes crises de pânico
e recorre à ajuda de uma terapeuta.
Com essa história inovadora e envolvente, a série
criada por David Chase ele próprio um oriundo
de Nova Jersey, obcecado por filmes de gângsteres
fisgou uma audiência para lá de respeitável.
O último capítulo de sua segunda temporada,
mostrado em 9 de abril pela HBO, foi visto por 9 milhões
de americanos, quebrando o recorde anterior da emissora,
alcançado com a exibição de Titanic.
Além disso, no ano passado Família Soprano
foi indicado para nada menos do que catorze Emmy, o
equivalente do Oscar para a televisão. Levou quatro
premiações. A HBO brasileira começa
a transmitir os treze episódios da segunda temporada
nesta sexta-feira, dia 7, às 22h30. Logo no primeiro,
Tony tenta convencer a psiquiatra Jennifer Melfi (Lorraine
Bracco, de Os Bons Companheiros) a voltar a atendê-lo.
Ele havia mandado a pobre doutora às favas no final
da temporada anterior.
Édipo O temperamento instável
do chefão tem origem num tremendo complexo de Édipo.
Tony é filho de uma mãe onipotente e manipuladora,
que chegou a tramar um golpe contra o próprio filho.
Tudo isso é mostrado com tensão dramática
e humor de primeira. Nada a ver com as piadinhas superficiais
da comédia Máfia no Divã, estrelada
por Robert De Niro, que tem argumento parecido. Família
Soprano é muito mais interessante. Pena que,
na terceira fase do seriado, prometida para março
do ano que vem, não se verá a ótima
Nancy Marchand, que interpreta a matriarca Livia Soprano.
A atriz morreu há duas semanas, aos 72 anos, de câncer
de pulmão.