Edição 1 656 -5/7/2000

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Alemanha

Amigo perverso

Violência de animais assassinos coloca em
xeque a paixão dos alemães pelos cachorros

 
AFP
AP
Tragédia no parque: os corpos do garoto e do cão que o matou e a homenagem da colega de escola

Uma tragédia terrível deixou a Alemanha em estado de choque na semana passada. Um garoto de 6 anos foi estraçalhado por um pit bull e um staffordshire terrier num parque de Hamburgo. Para interromper o ataque, foi necessário que a polícia abatesse a tiros os dois animais. Mas foi impossível abrir as mandíbulas do pit bull, encravadas no pescoço do menino, que morreu no local. Foi o segundo ataque violento de cães em poucos dias. O problema causado pela cachorrada de má índole é sério no país (2.600 ataques em 1999, número 50% maior em relação ao do ano anterior), mas intensamente agravado por tocar num ponto sensível da mentalidade alemã: a paixão por cães. Movido pela comoção depois da morte do menino, o ministro do Interior, Otto Schily, ameaçou banir os cachorros de raças agressivas, como o pit bull, se os dezesseis governos estaduais não tomarem alguma medida. O influente semanário Die Zeit escreveu, em editorial, que "se uma usina nuclear causasse tantos mortos e feridos no país como os cães ela já teria sido fechada". O fato é que ninguém até agora ousou levantar um dedo contra a cachorrada. O problema é a idolatria da população pelos animais e o fortíssimo lobby dos criadores.


Ed Viggiani
Bicho de estimação: um fortíssimo lobby de criadores e 3,6 milhões de animais


Num país com leis para qualquer coisa, que regulamentam até os horários em que as crianças podem fazer barulho nos prédios de apartamentos, é espantosa a tolerância em relação a esses animais. Os pit bulls e outras raças agressivas são populares sobretudo entre a comunidade turca, que promove rinhas de cães. Berlim tem 3 milhões de habitantes e 200.000 cachorros. Nem mesmo o fato de uma das maiores populações caninas do continente – 3,6 milhões – produzir 360 toneladas diárias de excremento faz com que o entusiasmo diminua. Em muitos prédios e restaurantes de Berlim, a entrada de crianças é proibida, mas o ingresso de cachorros é liberado. "Aqui, as pessoas gostam mais de animais que de gente", diz o consultor internacional Claus Peter Rees, que vive em Berlim.

O estrangeiro que se muda para a Alemanha logo aprende que o melhor (e talvez único) modo de fazer amizade com os vizinhos é comprar um cão. Habitualmente indiferentes e até mesmo hostis com desconhecidos, os alemães se transformam em amabilidades diante de qualquer pessoa que leve um animal preso à coleira. Na Alemanha, um dos países onde mais se desenvolveram raças caninas – como pinscher, weimaraner, dobermann e o tradicional pastor alemão –, proliferam cursos de comunicação e comportamento homem-cachorro. Em 1989, quando o Muro de Berlim veio abaixo, causou comoção nacional a sorte dos 5.000 pastores alemães que guardavam a fronteira. Todos eles acabaram adotados e viraram animais de estimação de centenas de famílias alemãs, tornando-se um exemplo da integração Leste-Oeste.

 
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