Edição 1 656 -5/7/2000

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Argentina

Odiados hermanos

Crise econômica desperta o racismo dos argentinos contra os imigrantes bolivianos

Raul Juste Lores, de Buenos Aires

A capa da revista La Primera: os bolivianos como culpados de todos os males argentinos

Houve um tempo em que o culpado pelos males da Argentina era o FMI. Ou o Brasil. Agora chegou a vez dos imigrantes. Eles se tornaram o bode expiatório para o desemprego crescente, a falta de dinheiro, a má qualidade dos serviços públicos, a sujeira das ruas ou o aumento da violência nas grandes cidades. Para os argentinos, a explicação de todos esses problemas está nos "bolivianos", como são chamados os mais de 1 milhão de bolivianos, peruanos e paraguaios que desembarcaram no país principalmente nos últimos anos em busca de seu eldorado. Desprotegidos e pobres, eles se constituem em alvo fácil da intolerância de parte da sociedade argentina, a mesma que se notabilizou pelo anti-semitismo e pelo costume de chamar os brasileiros de macaquitos. Uma onda de assaltos com altas doses de crueldade tem apavorado os bolivianos que moram no país. Nos últimos três meses, 72 famílias de agricultores de Escobar, cidade a 50 quilômetros de Buenos Aires, sofreram roubos acompanhados de tortura. Ali, dos 140.000 habitantes, 20.000 são bolivianos. "Não podemos continuar a viver assim", reclama a imigrante Basílica Gareca. "Não é humano. Precisamos de proteção." Há duas semanas, Basílica teve a casa assaltada por um grupo de encapuzados que queimou o peito de seu marido com um ferro de passar roupas e tentou enforcá-lo, antes de fugir levando 3.000 pesos.

Na maioria dos casos, as agressões contra os imigrantes são cometidas por gente do interior, que veio para a capital argentina com as mesmas intenções dos bolivianos – melhorar de vida. Mas o sentimento antiboliviano é compartilhado pela classe média. No programa matutino líder de audiência da rádio argentina, o locutor Daniel Hadad não cansa de culpar os imigrantes pelos males do país. "Eles utilizam os sistemas de saúde e de educação que nós pagamos. Cometem mais delitos e provocam insegurança." A revista semanal La Primera, também de Hadad, repete a mesma argumentação. "Uma Invasão Silenciosa .– Os Estrangeiros Ilegais já são mais de 2 milhões e tiram trabalho dos argentinos", dizia a capa de uma edição de abril. A discriminação ocorre também no trabalho. Segundo uma pesquisa do Centro de Estudos Nova Maioria, um imigrante boliviano ganha 400 pesos, ao passo que um argentino recebe 550 pelo mesmo serviço.