Argentina
Odiados hermanos
Crise econômica desperta o racismo
dos argentinos contra os imigrantes bolivianos
Raul Juste Lores, de Buenos Aires
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A capa da revista La Primera:
os bolivianos como culpados de todos os males argentinos
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Houve um tempo em que o culpado pelos males da Argentina
era o FMI. Ou o Brasil. Agora chegou a vez dos imigrantes.
Eles se tornaram o bode expiatório para o desemprego
crescente, a falta de dinheiro, a má qualidade dos
serviços públicos, a sujeira das ruas ou o
aumento da violência nas grandes cidades. Para os
argentinos, a explicação de todos esses problemas
está nos "bolivianos", como são chamados os
mais de 1 milhão de bolivianos, peruanos e paraguaios
que desembarcaram no país principalmente nos últimos
anos em busca de seu eldorado. Desprotegidos e pobres, eles
se constituem em alvo fácil da intolerância
de parte da sociedade argentina, a mesma que se notabilizou
pelo anti-semitismo e pelo costume de chamar os brasileiros
de macaquitos. Uma onda de assaltos com altas doses
de crueldade tem apavorado os bolivianos que moram no país.
Nos últimos três meses, 72 famílias
de agricultores de Escobar, cidade a 50 quilômetros
de Buenos Aires, sofreram roubos acompanhados de tortura.
Ali, dos 140.000 habitantes,
20.000 são bolivianos.
"Não podemos continuar a viver assim", reclama a
imigrante Basílica Gareca. "Não é humano.
Precisamos de proteção." Há duas semanas,
Basílica teve a casa assaltada por um grupo de encapuzados
que queimou o peito de seu marido com um ferro de passar
roupas e tentou enforcá-lo, antes de fugir levando
3.000 pesos.
Na
maioria dos casos, as agressões contra os imigrantes
são cometidas por gente do interior, que veio para
a capital argentina com as mesmas intenções
dos bolivianos melhorar de vida. Mas o sentimento
antiboliviano é compartilhado pela classe média.
No programa matutino líder de audiência da
rádio argentina, o locutor Daniel Hadad não
cansa de culpar os imigrantes pelos males do país.
"Eles utilizam os sistemas de saúde e de educação
que nós pagamos. Cometem mais delitos e provocam
insegurança." A revista semanal La Primera,
também de Hadad, repete a mesma argumentação.
"Uma Invasão Silenciosa .
Os Estrangeiros Ilegais já são mais de 2 milhões
e tiram trabalho dos argentinos", dizia a capa de uma edição
de abril. A discriminação ocorre também
no trabalho. Segundo uma pesquisa do Centro de Estudos Nova
Maioria, um imigrante boliviano ganha 400 pesos, ao passo
que um argentino recebe 550 pelo mesmo serviço.