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Edição
1 656 -5/7/2000
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O fim da novela Elian Gonzalez, o pequeno náufrago cubano que voltou triunfalmente a Cuba nos braços do pai, na semana passada, depois de sete meses de disputas judiciais nos Estados Unidos, abriu um novo capítulo nas relações entre os dois vizinhos. Pela primeira vez em quarenta anos, Cuba e Estados Unidos estiveram do mesmo lado em uma briga. Tanto o governo de Fidel Castro quanto o de Bill Clinton se empenharam em defender o direito de Elian Gonzalez de viver com o pai, onde quer que eles escolhessem. Pela primeira vez também, em quase meio século, os Estados Unidos contrariaram a ruidosa comunidade cubana anticastrista de Miami, e o mundo não acabou. Essas novidades estão fazendo com que americanos e cubanos passem a se olhar de maneira diferente e já se fala no fim do embargo econômico imposto a Cuba pelos Estados Unidos em 1962. "Apesar de todo o sofrimento de minha família, isso me ajudou a conhecer pessoas brilhantes neste país e espero que, no futuro, possa haver essa mesma impressão entre cubanos e americanos", disse Juan Miguel Gonzalez, pai de Elian, ao se despedir dos Estados Unidos na quarta-feira passada, indicando, ainda que involuntariamente, o tom da conversa entre os dois países a partir de agora. Nos últimos meses, multiplicaram-se os sinais de que o embargo, iniciado 38 anos atrás, pode estar com os dias contados. Na semana passada, o Congresso dos Estados Unidos aprovou uma lei que autoriza a venda de alimentos e de remédios americanos para Cuba. Ainda que atrelada a restrições que podem inviabilizar a conclusão de negócios – a lei não permite o financiamento das transações por bancos americanos –, a medida representa a primeira brecha oficial no embargo. Informalmente, outras estão sendo abertas. Apesar de continuar proibidas, as viagens de cidadãos americanos para Cuba aumentaram de forma considerável. Só no ano passado, 135.000 americanos visitaram a ilha de Fidel Castro. Para isso, tiveram de recorrer a medidas administrativas que justificassem as viagens. Outros 22.000 usaram estratégia diferente, fazendo escala em um terceiro país antes de desembarcar em Havana. Crise – No mundo globalizado, torna-se insustentável, mesmo para o ponto de vista americano, justificar o embargo a Cuba. Os fazendeiros da Flórida não entendem por que têm de renunciar a um mercado de quase 500 milhões de dólares sedento por seus produtos se os Estados Unidos estão abrindo as portas para outros inimigos do mesmo feitio de Cuba, como a China e até a Coréia do Norte, tão comunistas e tão desrespeitadoras dos direitos humanos quanto a ilha de Fidel. Para os Estados Unidos, o reatamento comercial com Cuba significaria negócios da ordem de 4 bilhões de dólares e a criação de 6.000 empregos. O que mais incomoda os americanos é assistir, de mãos atadas e a curta distância, à festa que o capital europeu e o canadense vêm fazendo em Cuba, principalmente no setor de turismo. Com um déficit de 250 bilhões de dólares anuais na balança comercial, os Estados Unidos são o parceiro comercial natural de praticamente todos os países do mundo. Graças ao embargo, Cuba, que fica na primeira esquina do império americano, perdeu esse privilégio. Só a liberação de viagens de americanos para Cuba e do comércio de produtos agrícolas já representaria um ganho de 2 bilhões de dólares para os cubanos, bastante para uma nação que importa 4,2 bilhões de dólares ao ano. Curiosamente, hoje uma das principais fontes de renda de Cuba são seus exilados na Flórida. Todo ano, os 800.000 cubanos de Miami mandam para Cuba, a título de contribuição para os familiares oprimidos pelo comunismo, quase 1 bilhão de dólares. Durante as três primeiras décadas, o bloqueio econômico não teve maior impacto sobre Cuba, já que uma injeção anual de 6 bilhões de dólares pela União Soviética garantia artificialmente o florescimento da economia da ilha. Com a dissolução do comunismo no Leste Europeu, a coisa desandou. A economia cubana entrou em queda livre, e, ao tocar o fundo do poço, no início dos anos 90, o governo tomou medidas liberalizantes para atrair capital. Uma reforma agrária radical distribuiu 75% das terras estatais a indivíduos e cooperativas. A liberação de joint ventures, que permitiu o casamento do capital estrangeiro com empresas estatais, criou uma atraente indústria de turismo. O que os americanos estão percebendo é que hoje o embargo serve muito mais aos propósitos de propaganda de Fidel Castro que como castigo econômico. Para o ditador, o embargo, e não a falida política econômica de seu governo, é o responsável pelo atraso e pela decadência de Cuba.
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