Edição 1 656 -5/7/2000

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Os xiitas da Justiça

Capazes e motivados, os novos procuradores
que ajudaram a prender Luiz Estevão querem
ser os paladinos da Justiça no Brasil

Alexandre Secco

Dida Sampaio/AE


O Brasil está começando a colher os frutos de uma das poucas medidas positivas introduzidas na Constituição de 1988: a reforma do Ministério Público. Essa mudança, no fundo, levou à cassação e à prisão do senador Luiz Estevão, do ex-banqueiro Salvatore Cacciola e de dezenas de outros corruptos confortavelmente assentados no topo da sociedade brasileira. Em todos esses casos exemplares, a instituição foi a responsável por conduzir investigações que acabaram por recolher provas irrefutáveis que colocaram aqueles senhores atrás das grades. Embora em todo o Brasil o Ministério Público tenha apenas 10.000 membros, é raro o dia em que os jornais não publiquem com destaque o fruto de seu trabalho punitivo. Eles são relativamente poucos, mas sua produtividade é assustadora.

 
Claudio Rossi
As procuradoras Janice Ascari, Maria Luísa Duarte e Isabel Groba Vieira, do Ministério Público Federal em São Paulo: trabalho exemplar no processo que levou à cassação de Luiz Estevão

Pode-se dizer que a margem de risco dos poderosos brasileiros que cometiam ilegalidades grandes e pequenas, mas em especial as grandes, era mínima. O descumprimento flagrante da lei só ocasionalmente trazia conseqüências. A corrupção e a prática de crimes não acabaram nem vão acabar por causa dos promotores. Porém, a certeza da impunidade foi quebrada. Agora, as conseqüências podem ser drásticas, como sentiu na pele o ex-senador Luiz Estevão na semana passada. Os benefícios dessa atitude tendem a se espalhar pela sociedade. A prisão de um banqueiro e a cassação de um senador rico e poderoso funcionam como uma marca olímpica. Servem para estabelecer um novo padrão de moralidade que a sociedade, pouco a pouco, começa a achar possível alcançar. "Colocar um figurão na cadeia era uma coisa impensável. Hoje temos o banqueiro Cacciola na prisão, e ninguém se espanta. Se espantaria, sim, se ele estivesse solto", diz o procurador Artur Gueiros, do Rio de Janeiro.

Esse tipo de trabalho tem outros efeitos de ordem prática, cujos benefícios a sociedade só começa a perceber com o passar do tempo. Um dos mais notáveis é o acúmulo de experiências. Durante a investigação que levou ao impeachment do ex-presidente Collor em 1992, os procuradores cometeram uma série de erros que agora são considerados banais. Ainda hoje, em alguns tipos de crimes graves, só a minoria das denúncias oferecidas pelo Ministério Público culmina em condenações. "Sofri derrotas importantes em todos os casos nos quais atuei. Com cada uma delas aprendi muito e me tornei mais eficiente", admite Gueiros.

 
Antonio Milena
A turma do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo: operação contra a máfia dos fiscais processou 76 pessoas, afastou 1 000 e já condenou 31

A investigação sobre Luiz Estevão foi um trabalho exemplar só possível por causa do lento e doloroso aprendizado com as derrotas. Os procuradores que trabalharam no caso conseguiram reunir provas definitivas para influenciar na decisão do Senado (veja quadro). "Nunca vi um caso grande de fraude em licitação no qual se conseguiu juntar tantas e tão boas provas como nesse", diz a procuradora Isabel Cristina Groba Vieira, uma das responsáveis pela investigação. Os procuradores conseguiram extratos de ligações telefônicas, extratos bancários, contratos e bilhetes incriminadores. Manusearam mais de 10.000 páginas de documentos durante três anos. Vitaminado pelas descobertas da CPI do Judiciário, o trabalho foi fulminante. A CPI conseguiu a quebra do sigilo telefônico do juiz Nicolau dos Santos Neto e descobriu 2.148 ligações comprometedoras entre Luiz Estevão e os empreiteiros que tocavam a obra do TRT.

É o trabalho de formiga, feito na maior parte das vezes longe dos holofotes, que vem provocando as alterações mais marcantes na sociedade. Autorizado pela Constituição a agir com liberdade, o Ministério Público passou a funcionar como uma máquina de vigiar e punir em quase todos os domínios da sociedade brasileira. Eles investigaram os excessos das torcidas organizadas, denúncias de abusos nos asilos de idosos e até agressões ao meio ambiente.


Selmy Yassuda
O procurador Artur Gueiros: atrás de alguns dos casos mais rumorosos do país. Ele mandou o ex-banqueiro Cacciola para a cadeia


Algumas frentes de atuação são surpreendentes. Na Bahia, o promotor Edwaldo Rotandano promove mutirões da paternidade para ajudar menores órfãos a localizar os pais. Mais de 6.000 crianças já foram beneficiadas com a comprovação de paternidade, e outras 10.000 esperam a decisão da Justiça. Em Minas Gerais, a Promotoria de Justiça de Defesa dos Direitos Humanos faz um trabalho implacável na investigação de crimes cometidos por policiais. O resultado é que um em cada três policiais civis da capital já foi investigado pelos promotores e responde na Justiça por seus erros. No Rio Grande do Sul, os promotores criaram um núcleo especial para investigar delitos praticados por prefeitos. Resultado: mais de 300 prefeitos foram obrigados a prestar contas nos tribunais. Da ação deles brotaram 108 condenações. Em São Paulo, um grupo independente de promotores conquistou uma série de feitos inéditos. A investigação sobre uma máfia de fiscais levou à cassação de dois vereadores, de um deputado estadual e ao afastamento temporário, mas profundamente emblemático, do prefeito Celso Pitta. "Estamos fazendo a diferença na vida de muita gente", diz Antônio Aurélio Santos, da Promotoria de Justiça de Defesa dos Direitos Humanos de Belo Horizonte.

Desvinculado do Executivo, do Legislativo e sem subordinação alguma ao Poder Judiciário, o Ministério Público encarna o que seria o quarto poder. Tanta independência e hiperatividade começam a despertar a atenção de outros poderes. Teoricamente há a possibilidade de que o Ministério Público se torne excessivamente poderoso. Experiências semelhantes no passado em outros países precisaram ser contidas. "O perigo, como sempre, é eles se deixarem pautar por suas convicções políticas. Eles podem cair na tentação de favorecer grupos, partidos ou agir em causa própria", diz o advogado criminalista Arnaldo Malheiros Filho, um dos mais respeitados do Brasil. Uma pesquisa ainda inédita da professora Maria Tereza Sadek, do Instituto de Estudos Econômicos, Sociais e Políticos de São Paulo, revelou a semente de um messianismo entre os jovens promotores. Como seu trabalho é reconhecidamente depurador, alguns deles ostentam uma superioridade moral que se está tornando típica. "Em geral eles se vêem como defensores do povo", observa a professora.


Joedson Alves/AE
O procurador Luiz Francisco mandou o ex-deputado Hildebrando Pascoal para a cadeia e assina um pedido de prisão para Luiz Estevão


"Esse juiz é 10", comemorou o procurador Luiz Francisco de Souza, um dos principais responsáveis pela detenção de Estevão, ao saber da decretação da prisão preventiva do senador pelo juiz Ronaldo Desterro. "Ele agiu rápido e demonstrou que cadeia não é só para ladrão de galinha e bandido pé-rapado e analfabeto. Mostrou que é preciso dar prioridade máxima ao crime do colarinho-branco." O procurador dirige um carro velho, dedica-se como um monge ao trabalho e doa parte do salário a projetos assistenciais. Deve-se a ele e à equipe de nove procuradores da qual faz parte o pedido de prisão do ex-senador. Eles já preparam outras liminares para o caso e contam com a hipótese, lógica, de que a prisão de sexta-feira seja revertida. "Temos de nos precaver. O Hildebrando Pascoal já tem catorze preventivas decretadas contra ele. Se escapar de uma cai em outra", diz Luiz Francisco. Com quase trinta anos de experiência na profissão, o atual procurador-geral da República, o pernambucano Geraldo Brindeiro, dá um voto de confiança para a nova geração. "Eles são altamente qualificados e demonstram muita preparação no campo do direito. As novas gerações estão com a tocha na mão para continuar a missão iniciada com a Constituição de 1988."

 

Os limites da ação

Em relação a outros três países onde o Ministério Público é bastante atuante, os recursos dos promotores brasileiros são bastante limitados. Compare:

Brasil – Para conduzir suas investigações, os promotores precisam pedir apoio à polícia. Só podem ter acesso às informações sigilosas com a autorização de um juiz, que acolhe o pedido em cerca de 60% dos casos.

Itália – Eles podem decretar a prisão temporária do investigado e têm acesso direto às informações sigilosas, como dados bancários e fiscais. Podem determinar escutas em telefones e apreender documentos.

Alemanha – Podem apreender documentos e bens, interceptar correspondências e ligações telefônicas. Além disso, podem determinar a infiltração de agentes em quadrilhas e decretar prisões temporárias.

Estados Unidos – A polícia trabalha sob comando da promotoria. Promotores também precisam da ordem de um juiz para ter acesso às informações sigilosas, mas conseguem o que precisam em 90% dos casos.

 

 

A elite em apuros

Edison Vara
O empresário gaúcho Ademar Kehrwald foi preso por causa de um crime que as pessoas costumam achar banal: sonegação de impostos


No Brasil já não se pode mais dizer
que a cadeia é só para pobres. Algumas decisões inéditas mostram que a margem de risco para quem pratica crimes de colarinho-branco está aumentando. A prisão de um chamado peixe graúdo, quando justa, ajuda muito a diminuir a sensação de impunidade das pessoas. Nos Estados Unidos, a Justiça é ainda mais dura com os ricos e famosos, exatamente porque se espera deles o bom exemplo. Ao lado, uma galeria de poderosos brasileiros que estão explicando seus atos à Justiça.

Fabio Motta/AE
Fabio
O ex-banqueiro Salvatore Cacciola, acusado de gestão fraudulenta no Banco Marka, foi preso e teve três pedidos de habeas-corpus negados Após ser perseguido por dois meses, o empresário Fábio Monteiro de Barros, acusado de desvios na obra do TRT, ficou 48 dias preso

 

 

As evidências

As cinco provas fundamentais para desmontar as versões apresentadas pelo ex-senador

A versão – Quando surgiram as primeiras denúncias de que estava envolvido na corrupção no TRT, Luiz Estevão afirmou que jamais mantivera contato com o empresário Fábio Monteiro de Barros Filho, dono da empreiteira que fez a obra.

As provas – Os extratos das ligações telefônicas entre Luiz Estevão e o empresário Fábio Monteiro de Barros Filho, obtidos pela CPI do Judiciário, revelam que os dois falaram mais de 2 000 vezes durante a construção.

A versão – Depois que apareceram as provas das ligações telefônicas, Estevão mudou sua versão e disse que conhecia o empresário Fábio Monteiro de Barros Filho, mas que jamais fizera negócios com ele. Afirmou que as conversas eram "sociais"

As provas – Extratos das transferências bancárias mostram que a empreiteira responsável pela obra do TRT transferiu 62 milhões de reais para contas do grupo OK, do ex-senador Luiz Estevão.

A versão – Estevão admitiu então que, de fato, fizera negócios com o Grupo Monteiro de Barros. Segundo ele, porém, nada tinham a ver com as obras no TRT. As transferências bancárias seriam por causa da venda de uma fazenda de Estevão para o Grupo Monteiro de Barros.

As provas – Os procuradores localizaram um contrato de transferência de ações que faria do ex-senador Luiz Estevão dono de 90% da Incal, empresa encarregada da obra do TRT. O livro de registro das alterações societárias da Incal relata a transferência.

A versão – Luiz Estevão reconheceu sua assinatura no contrato, mas afirmou que o documento nunca chegou a ter validade porque ele desistiu do negócio.

As provas – Foi apreendido um bilhete no qual Fábio Monteiro de Barros Filho pede ao ex-senador 800 000 reais emprestados para pagar despesas na obra do TRT.

A versão – O ex-senador apresentou documentos para tentar provar que não tinha vínculos com a obra do TRT.

As provas – Segundo o Ministério Público, os documentos entregues por Estevão em sua defesa foram forjados no computador do empresário Fábio Monteiro de Barros Filho, três dias antes de seu depoimento na CPI do Judicário.

 

Com reportagem de Flamínio Fantini, Cristine Prestes,
Marcelo Carneiro, Daniella Camargos e Leonardo Coutinho