E a corrupção privada?
Ilustração: Pepe Casals
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Outro dia um leitor disse que concordava com todas as opiniões
expressas em meus artigos. Pois eu concordo, aproximadamente,
com 30% delas. Na semana passada, por exemplo, lancei a
discutível teoria de que a explosão de violência
dos últimos tempos era fruto da hiperinflação
dos anos 80. Não sei se é uma teoria válida.
Provavelmente não. Mas reflete minha implicância
com os anos 80. O Brasil sempre foi ruim. Nos anos 80, ficou
ainda pior. Até hoje pagamos seus efeitos. O Brasil
é pródigo em burradas econômicas, do
confisco da poupança à desvalorização
do real. Nunca houve, porém, burrada mais cara para
o país do que a moratória de 1987. O mesmo
discurso vale para outra grande preocupação
nacional: a corrupção. Havia corrupção
no Brasil colonial e continua havendo nos dias de hoje.
Ela é endêmica. Só que nos anos 80 conseguiu
mudar de patamar, difundindo-se numa velocidade inédita,
contaminando todos os setores da sociedade.
A tal propósito, muito se reclama no Brasil da
corrupção pública, que vai do guardinha
de trânsito ao deputado federal. A corrupção
privada, no entanto, é igualmente difusa e danosa,
embora ninguém pareça escandalizar-se demais
com ela. Quando vou ao Brasil, freqüento jornalistas,
cineastas, publicitários, e é impressionante
a quantidade de histórias de corrupção
privada que eles têm a contar. Na maior parte dos
casos, são atravessadores que faturam uma bonificação
para cada transação comercial que executam.
Acredito que em outros campos de trabalho se verifiquem
fatos análogos. Se, em vez de jornalistas, cineastas
e publicitários, eu freqüentasse fabricantes
de parafusos ou importadores de máquinas agrícolas,
acho que acabaria ouvindo o mesmo número de histórias
de corrupção. Para fundamentar melhor meu
discurso, gostaria de relatar em minha coluna todas as histórias
que ouvi nas últimas semanas, citando o nome e o
cargo dos envolvidos, mas seria pura difamação,
porque não tenho prova de nada. Aliás, algumas
dessas histórias são tão escabrosas
que devem ser mentira. As pessoas as inventam porque há
uma estranha distorção na mentalidade nacional:
contar histórias de corrupção ocorridas
no próprio ambiente deixou de ser motivo de vergonha,
tornando-se uma espécie de distinção,
pois indicam familiaridade com o poder. Ainda que metade
dessas histórias fosse falsa, porém, o nível
de corrupção em nossas empresas seria comparável
ao dos piores gabinetes de Brasília.
Combater a corrupção nas empresas não
parece tão impossível assim. Bastaria instituir
rígidos critérios de avaliação
de desempenho para cada emprego. Porque esse é o
único ponto fraco da corrupção: ela
é ineficiente. Como as bonificações
dos atravessadores precisam ser embutidas nos custos, todas
as transações acabam saindo mais caras do
que o necessário. E, como as bonificações
costumam ser calculadas com base no valor das transações,
os atravessadores pagam mais por aquilo que poderia custar
menos. Mas não sei se tudo isso daria certo. Acho
que não. Aliás, retiro as últimas linhas.
Só estou aqui para espernear, não para oferecer
soluções aos problemas.