Edição 1 656 -5/7/2000

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E a corrupção privada?

Ilustração: Pepe Casals


Outro dia um leitor disse que concordava com todas as opiniões expressas em meus artigos. Pois eu concordo, aproximadamente, com 30% delas. Na semana passada, por exemplo, lancei a discutível teoria de que a explosão de violência dos últimos tempos era fruto da hiperinflação dos anos 80. Não sei se é uma teoria válida. Provavelmente não. Mas reflete minha implicância com os anos 80. O Brasil sempre foi ruim. Nos anos 80, ficou ainda pior. Até hoje pagamos seus efeitos. O Brasil é pródigo em burradas econômicas, do confisco da poupança à desvalorização do real. Nunca houve, porém, burrada mais cara para o país do que a moratória de 1987. O mesmo discurso vale para outra grande preocupação nacional: a corrupção. Havia corrupção no Brasil colonial e continua havendo nos dias de hoje. Ela é endêmica. Só que nos anos 80 conseguiu mudar de patamar, difundindo-se numa velocidade inédita, contaminando todos os setores da sociedade.

A tal propósito, muito se reclama no Brasil da corrupção pública, que vai do guardinha de trânsito ao deputado federal. A corrupção privada, no entanto, é igualmente difusa e danosa, embora ninguém pareça escandalizar-se demais com ela. Quando vou ao Brasil, freqüento jornalistas, cineastas, publicitários, e é impressionante a quantidade de histórias de corrupção privada que eles têm a contar. Na maior parte dos casos, são atravessadores que faturam uma bonificação para cada transação comercial que executam. Acredito que em outros campos de trabalho se verifiquem fatos análogos. Se, em vez de jornalistas, cineastas e publicitários, eu freqüentasse fabricantes de parafusos ou importadores de máquinas agrícolas, acho que acabaria ouvindo o mesmo número de histórias de corrupção. Para fundamentar melhor meu discurso, gostaria de relatar em minha coluna todas as histórias que ouvi nas últimas semanas, citando o nome e o cargo dos envolvidos, mas seria pura difamação, porque não tenho prova de nada. Aliás, algumas dessas histórias são tão escabrosas que devem ser mentira. As pessoas as inventam porque há uma estranha distorção na mentalidade nacional: contar histórias de corrupção ocorridas no próprio ambiente deixou de ser motivo de vergonha, tornando-se uma espécie de distinção, pois indicam familiaridade com o poder. Ainda que metade dessas histórias fosse falsa, porém, o nível de corrupção em nossas empresas seria comparável ao dos piores gabinetes de Brasília.

Combater a corrupção nas empresas não parece tão impossível assim. Bastaria instituir rígidos critérios de avaliação de desempenho para cada emprego. Porque esse é o único ponto fraco da corrupção: ela é ineficiente. Como as bonificações dos atravessadores precisam ser embutidas nos custos, todas as transações acabam saindo mais caras do que o necessário. E, como as bonificações costumam ser calculadas com base no valor das transações, os atravessadores pagam mais por aquilo que poderia custar menos. Mas não sei se tudo isso daria certo. Acho que não. Aliás, retiro as últimas linhas. Só estou aqui para espernear, não para oferecer soluções aos problemas.