Edição 1 656 -5/7/2000

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Doutor Freud vem aí

Psicanalista paulista diz que as idéias
do pai da psicanálise são atuais e
ajudam a lidar com a vida moderna

Alice Granato

 
Antonio Milena
"A psicanálise nunca vai acabar, pois não há pílula que acabe com as dores da alma"

Aos 53 anos, o psicanalista Leopold Nosek está com uma missão e tanto nas mãos. Vai coordenar no Brasil a exposição Freud: Conflito & Cultura, que já esteve em quatro cidades (Viena, Washington, Nova York e Los Angeles) e chega ao país em setembro para ser montada em São Paulo e no Rio de Janeiro. Ele fará também a curadoria de uma mostra paralela, sobre a conexão entre a psicanálise e o movimento modernista brasileiro. "A idéia é divulgar a importância de Freud na cultura deste século", diz Nosek, que é diretor cultural da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, filiada à Associação Psicanalítica Internacional fundada por Freud, em 1910. Comemorou-se no ano passado um século da publicação do livro básico do pai da psicanálise, A Interpretação dos Sonhos. "Freud abriu um caminho ainda válido para o homem da virada do milênio", sustenta Nosek. Psiquiatra de formação, casado há 27 anos e pai de cinco filhos, ele nasceu na Polônia e vive no Brasil desde os 4 anos. Nosek falou a VEJA em seu consultório em São Paulo.

Veja – Freud explica, realmente?
Leopold Nosek –
Sigmund Freud descobriu uma nova área de conhecimento, que é o inconsciente. Suas descobertas começaram a ser usadas como chaves mestras para abrir qualquer porta. Na época, movidas pelo entusiasmo, as pessoas passaram a achar que todo comportamento humano tinha explicação. Não é verdade. Se tivesse, para que serviria? Freud foi genial por ter desvendado os caminhos do inconsciente. Também deixou inúmeras indicações para novas pesquisas, que continuam sendo feitas até hoje. Não é verdade que ele tenha explicação para tudo.

Veja – As pessoas têm uma visão superficial das idéias do pai da psicanálise?
Nosek –
Freud ficou conhecido inicialmente por interpretar sonhos. E isso resultou na imagem popular da psicanálise. De que nós, os psicanalistas, interpretamos sonhos, sintomas e fatos. Sempre digo que, longe de ser um interpretador de sonhos, o psicanalista é, junto com o paciente, um construtor de sonhos. O que coloca o analista mais perto do poeta que do médico.

Veja – Como a psicanálise e Freud vão sobreviver no século XXI diante das farmácias abarrotadas de drogas que custam menos e dão resultados mais rápidos?
Nosek –
Os remédios antidepressivos funcionam e temos de comemorar sua chegada. Com certeza, Freud também comemoraria. É claro que a farmácia ajuda quando há patologia, mas é incapaz de resolver o problema como um todo. Ela é específica e imediata, como o remédio para a dor de cabeça. Não existe pílula que acabe com a dor da alma. A psicanálise não vai acabar porque sempre vai haver o inconsciente, os desejos insatisfeitos e o sentimento de desamparo. É uma utopia acreditar que o Viagra, o Xenical e o Prozac vão produzir um ser humano sexualmente potente, elegantemente magro e imune à depressão.

Veja – A psicanálise está completando 100 anos. A fórmula não envelheceu?
Nosek –
Discute-se bastante no movimento psicanalítico se devemos criar instrumentos mais ágeis e rápidos ou se o processo é assim mesmo, requerendo tempo e contato humano freqüente. O mundo atual apresenta alguns desafios novos. As pessoas se tornaram mais concentradoras de renda e conhecimento, a competição entre elas é tremenda, os vínculos familiares estão se afrouxando. Tudo isso torna o convívio psicanalítico cada vez mais necessário. Como a arte é sempre necessária, porque dá expressividade ao povo, ao indivíduo, à História, a psicanálise tende a aumentar sua importância.  

Veja – É comum ouvir que Freud é um dos pensadores mais influentes do mundo moderno. Por que é assim?
Nosek –
Freud dizia que o narcisismo da humanidade sofreu três abalos: quando descobriu que a Terra não era o centro do mundo; quando soube que não era o centro da criação, mas apenas uma espécie de macaco; e o terceiro, criado por ele, de que não é dono da própria casa, pois o inconsciente comanda sua vida. O grande paradoxo disso é que cada uma dessas descobertas tornou o ser humano mais poderoso. O conhecimento de que a Terra é redonda permitiu navegações mais longas. A teoria da evolução de Darwin abriu caminho para o progresso da biologia. A psicanálise tornou o homem mais senhor de seu destino. Freud permitiu uma aventura no espaço subjetivo. E para isso não há limite.

Veja – A imagem popular de quem se submete à psicanálise é a de uma pessoa neurótica e problemática. Isso corresponde à realidade?
Nosek –
As pessoas sabem que Woody Allen está sendo analisado a vida toda e dão risada. É humor, não preconceito. Na verdade, quem diz que está com a cabeça bem resolvida e não tem nenhum problema está em ótimo estado para começar a fazer psicanálise.

Veja – Por que os psicanalistas cobram tão caro?
Nosek –
A formação de um psicanalista é cara. É preciso passar por uma análise pessoal prolongada de, no mínimo, cinco anos ao ritmo de quatro sessões por semana, participar de seminários e se submeter à supervisão de outros psicanalistas. Um psicanalista que pertença à Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo leva em média oito anos para se formar. É caro porque a psicanálise clássica exige que o paciente faça quatro sessões semanais. Existem instrumentos de inspiração analítica mais curtos, mais rápidos, mais baratos. São como filhotes da psicanálise: análise de grupo, terapias breves, psicoterapias de toda ordem. Há também serviços que fornecem análises a preços simbólicos. Acho que se vai ter disso cada vez mais.

Veja – A psicanálise é, então, para uso de uns poucos privilegiados?
Nosek –
Há problemas sociais e há problemas individuais. Nos últimos anos, 40% da população rural brasileira migrou para a periferia das cidades. As relações sociais a que estavam acostumados desfizeram-se. O pai e a mãe saem para trabalhar, crianças pequenas tomam conta de crianças menores ainda, e tudo isso tem conseqüência no crescimento individual das gerações seguintes. Trata-se de um fenômeno de massa, que gera quase um genocídio de almas, e não vai ser resolvido pela psicanálise. É um problema social que depende de vontade política. O campo de trabalho da psicanálise é o conhecimento do inconsciente, e não tem acesso a soluções de questões do âmbito político.

Veja – Há pessoas que fazem oito, dez anos de psicanálise. Por que demora tanto tempo?
Nosek –
Porque o inconsciente é infinito. Na verdade, o processo psicanalítico poderia durar um tempo ilimitado. Se termina, é porque chega um momento em que a relação entre o psicanalista e o paciente chega a um fim. Os casais passam pelo mesmo processo. Muitas relações são férteis até determinado ponto. Depois podem perder o sentido.

Veja – Freud teve um impacto tremendo na cultura do século XX. As pessoas adotaram o jargão psicanalítico e até arriscam explicações freudianas para situações do cotidiano. Isso contribui para levá-las ao divã do psicanalista?
Nosek –
A psicanálise está realmente em toda parte. No filme, o chefão da Máfia faz análise, na novela, o personagem faz análise. Na verdade, vivemos um período de transição. Cada vez há mais espaço para a psicanálise e cada vez mais as pessoas estão submetidas a pressões que a inviabilizam. Quem consegue trabalhar sessenta horas por semana e ter tempo para fazer psicanálise? As pessoas tendem a entregar tudo ao trabalho e ao processo de competitividade. A pressão social vai em direção contrária. Mas a necessidade humana caminha na direção da psicanálise.

Veja – Por que o momento seria especialmente adequado à psicanálise?
Nosek –
As pessoas vão fazer análise porque sofrem. Porque não suportam mais o jeito que estão vivendo. E não existe dor maior do que a dor da alma. O momento é especialmente difícil, pois as pessoas se sentem isoladas. Nunca se viu tanta competição e desestruturação familiar. A psicanálise é como a UTI, o último recurso procurado pelas pessoas. Elas costumam achar que sabem porque sofrem e querem alguém que as ajude a mudar isso. Normalmente, querem extirpar uns traços de sua personalidade e colocar outros.

Veja – É possível mudar de personalidade?
Nosek –
Todo mundo anseia por transformação e gostaria de ser melhor do que é. De ocupar o lugar de outra pessoa. Essa fantasia tem origem no famoso Édipo, o desejo de possuir um lugar que não é seu. Isso gera contradições e conflitos. Com o tempo, as pessoas percebem que não podem virar outra coisa e que precisam ser cada vez mais elas mesmas. A análise as ajuda a se localizarem em seu próprio lugar. Diferentemente do que ocorre com todas as outras relações, a existente entre o analista e seu paciente não é prática, no sentido de que venha a ocorrer alguma coisa concreta. O que importa é fazer brotar as emoções e dar-lhes sentido.

Veja – A falta de resultados concretos não frustra quem faz psicanálise?
Nosek –
O sonho dourado das crianças e dos adultos é a felicidade permanente. Isso não existe. O que sabemos é que a grande felicidade vem depois de um momento de insatisfação. Freud dizia que não tem nada mais aborrecido do que uma seqüência de dias felizes. Até porque perde a oscilação. A vida é para cima e para baixo. A linha reta no eletrocardiograma é a morte. O que dá prazer é a oscilação: satisfação, insatisfação, amparo, desamparo. Se sexo não tivesse angústia, não teria graça alguma.

Veja – O que importa mais na hora do sexo é a cultura ou são os instintos?
Nosek –
Se não houvesse a cultura e o homem fosse puro instinto, ele teria cio. A gente faria sexo em agosto, antes da primavera, o período de reprodução dos mamíferos no Hemisfério Sul. Nós temos uma relação muito ingênua com a cultura e imaginamos que ela é anti-sexual, que vai contra o instinto. Na verdade, a cultura põe ordem na natureza. Ela dá humanidade ao biológico, cria o homem e educa os sentidos. A cultura pode incrementar o prazer, pode também se contrapor a ele, mas não é obrigatório que seja assim. Para haver cultura, temos de abandonar a satisfação imediata, porque senão atropelamos quem está ao lado. Como eu preciso do conjunto, vou fazendo acordos. A sexualidade é a parte mais difícil de educar.

Veja – A idéia de que a psicanálise é capaz de resolver todos os problemas emocionais é verdadeira?
Nosek –
Muita gente acha que existe alguém com poderes suficientes para resolver todos os seus problemas. É como uma criança, que espera que o pai lhe mostre o caminho. Não é assim que funciona. Uma pessoa pode fugir do sofrimento ou enfrentá-lo. É como ver um filme complicado, que faz pensar, ou assistir a uma fita apenas por diversão. Fazer análise é assistir a um filme difícil.

Veja – De que forma isso melhora a vida das pessoas?
Nosek –
Elas têm maiores condições de pensar sobre si mesmas e sobre o modo com que se relacionam com o mundo. Freud chamava a isso de abandonar a miséria neurótica em troca do sofrimento real humano. Em outras palavras, significa abandonar soluções equivocadas do cotidiano para enfrentar problemas reais. Não é por causa dos problemas que as pessoas vão ao psicanalista, e sim devido aos sintomas. O que a psicanálise faz é mostrar que o próprio problema é uma solução de uma questão inconsciente. Não vamos solucioná-lo, mas ajudar a montar a equação. Qualquer pessoa que conhece um pouco de matemática sabe que essa é a parte mais difícil.

Veja – A felicidade duradoura é possível?
Nosek –
É infantil pensar que certas pessoas, por ser poderosas ou ricas, vivem em estado de satisfação permanente. É compreensível que uma criança imagine que se livrará do sentimento de desamparo quando for grande. Um profissional pode pensar que os seus problemas desaparecerão quando tiver 2 milhões de dólares. Um homem pode crer que se separando da mulher e casando-se com outra mais jovem será plenamente feliz. Nada disso acontece. Todos nós vamos morrer, não temos controle sobre nosso próprio corpo nem sobre nossa alma. Como pode existir a felicidade completa?

Veja – A psicanálise permite que as pessoas conheçam melhor a si próprias?
Nosek –
Como a psicanálise trabalha com base no conhecimento do inconsciente, conhecer a si próprio não é ter o conhecimento consciente e intelectual. Senão, bastaria ler nosso teste de personalidade para saber quem somos. O objetivo da psicanálise é o saber do inconsciente. Por isso o processo psicanalítico é tão demorado. É bom que se diga que o conhecimento do inconsciente não é patrimônio dos psicanalistas. Artistas e poetas o conhecem muito bem. Eles dão forma a um conhecimento que não é discursivo e intelectual, mas uma percepção interna.

Veja – Como isso funciona?
Nosek –
Uma boa metáfora para a mente humana é a Terra. Vivemos sobre uma crosta muito fina em cima de uma coisa que é pura energia, puro fogo. Nós somos uma crosta de civilização por cima de instinto, impulsão, sexualidade, conflito, prazer. Trata-se de conflito e também de sinergia. Porque, sem civilização, a impulsão vira caos. E, sem impulsão, a civilização é fria e morta.