Edição 1 656 -5/7/2000

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Será culpa do Itamar?

"A única explicação razoável para o novo
modelo de privatização para a geração
elétrica é que uma privatização pior que
a ideal é melhor do que nenhuma"

Montagem de Ale Setti sobre foto de Orlando Brito


A privatização é um dos principais programas de governo, mas não parece. A publicidade oficial cultiva um curioso distanciamento dos programas que a oposição designa como "neoliberais": privatização, abertura, responsabilidade fiscal, reforma da previdência e estabilidade da moeda. Parece haver sentimento de culpa onde deveria haver convicção.

Por isso, em razão da perda de eficácia política e administrativa do governo e da impopularidade causada pelas mudanças no câmbio em janeiro de 1999, a privatização atolou. As receitas de privatizações federais em 1999 foram magros 554 milhões de reais, tendo sido 27 bilhões no ano anterior. Em 2000, nada ainda. Só os Estados andam privatizando.

É verdade que a privatização passou a enfrentar um desafio conceitual ao penetrar em serviços públicos, em que são importantes tanto a receita com a venda quanto a satisfação do consumidor. Mas os resultados foram bons na telefonia, onde, de um lado, se criou uma agência reguladora de grande personalidade para defender o consumidor e cobrar os compromissos de investimento e, de outro, por meio da partilha da Telebrás em diversos pedaços, produziu-se um modelo que gerou até excesso de competição, disso resultando alguns desempenhos ruins nas empresas da banda B e certa efervescência societária. Mas o sucesso é inequívoco, especialmente se comparado ao que aconteceria com a telefonia no Brasil se não tivesse havido privatização.

Na energia elétrica conseguiu-se o que parecia impossível: com a interligação do sistema em bases nacionais foi criado um mercado competitivo no qual, em tese, reinariam monopólios regionais. As distribuidoras podem comprar energia da rede pelo menor preço, não importa a procedência. E, pelo lado da oferta, o melhor para o consumidor seria que a geração também fosse fracionada, a fim de que o fornecimento fosse tão competitivo quanto possível. Por isso faz sentido a cisão de Furnas, que sozinha gera 42% da energia elétrica do país. Se a Telebrás foi dividida em mais de duas dezenas de empresas, por que Furnas tem de ficar "inteira" em detrimento da competição e do consumidor?

A única explicação razoável para o novo modelo de privatização para a geração é que uma privatização pior que a ideal é melhor do que nenhuma.

Furnas deve ser vista como uma corporação muito forte, que controla um ativo que não lhe pertence e gera muito dinheiro e muita obra. O setor elétrico tem uma longa tradição de inchar suas necessidades de investimentos, sempre amedrontando as autoridades com ameaças de "apagão", tudo isso para maximizar as tarifas e não pagar dividendos. Se Furnas está amortizada, e tem um caixa tão poderoso, por que o acionista controlador, que somos nós, não recebe mais retorno por seu investimento? Por que a União tem de se endividar para pagar suas contas quando poderia viver de dividendos?

Esse não é um mundo ideal, e por isso o governo escolheu o modelo possível, e não o melhor. E por que o caminho escolhido não é o melhor?

Primeiro porque o consumidor vai pagar a conta de ter sido abandonada a idéia da cisão de Furnas. Segundo porque com propriedade pulverizada Furnas continuará sendo o que é hoje: um gigante sem dono sujeito a todo tipo de pressão. Terceiro porque não temos mercado de capitais para uma operação desse tamanho, a menos que optemos por distribuir "tickets-privatização", como os "vouchers" da privatização dos países ex-comunistas que tiveram resultados horripilantes. Quarto porque o ágio vai ser entregue aos espertos que, com o tempo, vão compor grupos de controle, ou gasto com os burocratas que vão tentar evitar. Quinto porque a corporação não gosta de pagar dividendos, tanto que acha que a União devia conservar uma "golden share" para limitar os dividendos ao mínimo legal. E sexto porque vai ser difícil vender bem uma empresa com limitações ao retorno aos acionistas e uma diretoria indicada por critérios políticos ou integrada por caciques da corporação.

A pulverização, em resumo, até pode funcionar, mas tem tudo para ser uma má idéia.

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ
e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.inf.br)