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Edição 1 754 - 5 de junho de 2002
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Tecnologia a qualquer custo

Ter uma casa plugada na modernidade
pode ser tão caro quanto irresistível

Cristiane Assis


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Uma prova de que estamos no século XXI é a possibilidade de viver numa casa que daria inveja à família Jetson, do desenho animado. Ainda não existe nada parecido com a simpática Rose, a empregada-robô da família futurista, mas a tecnologia já disponível nos torna impacientes e insatisfeitos com o que ontem era rápido e sofisticado. Um computador plugado simplesmente no telefone navega como uma banheira a vapor. O videocassete tornou-se um dinossauro perto do DVD, e uma televisão de 29 polegadas com tela negra e closed caption é coisa do século passado. Surgem tantas novidades para equipar a casa que, em muitos casos, é mais divertido, cômodo e agradável ver o filme na sala, fazer o café expresso e estourar a própria pipoca do que tirar o carro da garagem para ir ao cinema no shopping.

A sala de TV é um dos pólos dessa revolução. Com tela de 65 polegadas, som digital e programação transmitida via satélite ou conectada num aparelho que mostra, mais que o filme, até as cenas que deram errado na filmagem, a televisão de tela plana impressiona até quando está desligada. Uma de plasma, então, faz a realidade parecer opaca e nebulosa. Nos computadores, já se encontram recursos que exibem filmes com a mesma qualidade do televisor, ligações com a internet que transmitem imagens ao vivo em tempo real, joguinhos cuja evolução pode durar meses e capacidade praticamente imensurável para armazenar músicas em formato digital. E nem precisam ser computadores de mesa. Um notebook e até alguns dos mais modernos palmtops permitem realizar essas mesmas operações até durante uma viagem de avião.

Num sistema doméstico, pode-se simplesmente interligar toda a parafernália tecnológica utilizando um aparelhinho chamado roteador. Em princípio, esse tipo de equipamento serve, entre outras coisas, para que sites da internet organizem o trânsito de entrada e saída de informações. Transposto para a casa moderna e integrado em um sistema de automação residencial, ele pode interligar e controlar a troca de informações entre o computador e qualquer outro objeto eletrônico existente – pode ser o rádio, a persiana ou a torradeira, dependendo da prioridade do consumidor. Ou de seu poder financeiro, já que organizar um ambiente informatizado a esse ponto custa alguns milhares de dólares. Os roteadores funcionam como agências postais de dados, que encaminham as informações para determinados destinos. Mal comparando, são como canos de água inteligentes, capazes de transportar no mesmo duto o líquido quente, o morno e o frio, separando-os nos lugares de destino. Parece mágica? É ainda mais espantoso quando se vê tudo isso funcionando sem nenhum fio – uma coisa cada vez mais comum.

Tem gente que não resiste a tanta novidade. "A vontade de possuir esse tipo de coisa às vezes pesa mais que a necessidade, e só depois a pessoa percebe que gastou dinheiro em algo que terá pouca utilidade", diz o publicitário paulista Mauro Alencar, um viciado em tecnologia que acaba de trocar, ao mesmo tempo, seu notebook, sua câmara digital e seu computador de bolso por modelos mais modernos, que se comunicam entre si sem conexões por fio. Não é o tipo de investimento que se faça pensando na relação entre custo e benefício. Para ter um controle central que interligue a cafeteira elétrica ao rádio-relógio, passando pelo acesso à internet e pelo preparo de um banho quente, gastam-se até 80.000 reais em equipamento e no pagamento dos serviços de uma empresa especializada. Existem também opções mais baratas, a partir de 1.500 reais. Mas não dá para se sentir realmente no século da tecnologia sem botar a mão na carteira. Veja no fichário abaixo alguns exemplos de aparelhos disponíveis no mercado para quem quer começar hoje essa experiência – sabendo, desde já, que no mês que vem alguns itens terão de ser trocados. Antes de começar, é preciso ter em mente o risco que correm os mais afoitos e obcecados por tecnologia. A busca de atualização sem medida pode criar um sentimento permanente de que as coisas em casa estão ficando ultrapassadas, obsoletas. Por mais sofisticados que sejam os equipamentos, a pessoa não consegue sentir-se satisfeita. Os vizinhos parecem ter sempre a casa mais moderna e os eletrônicos mais interessantes. Cercando-se de aparelhos digitais, eles esperam tornar-se mais modernos e atualizados. Essa mania pode ser perigosa em uma época em que as indústrias de informática e de eletrônicos lançam novidades a toda hora, para estimular as vendas. "A pessoa realmente atualizada não é aquela que possui aparelhos de ponta, mas sim a que tem capacidade de entender e processar as informações que recebe, seja pela internet, seja por revistas, jornais e livros", explica o americano Richard Saul Wurman, autor de dois livros sobre a chamada ansiedade de informação.

 

 
 


Fotos: Marcelo Zocchio, divulgação, Luciana Cavalcanti, Daniela Picoral e Xico Buny


   
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