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A força do
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Antonio Milena![]() Frota de aviões para uso agrícola em Primavera do Leste (MT): tecnologia aumenta produtividade |
Com a divulgação, na semana passada, dos resultados do PIB, ficou claro que, mais uma vez, a salvação da lavoura veio do campo. O PIB rural avançou 4,3% no primeiro trimestre em relação ao mesmo período do ano passado. Os cálculos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostraram queda de 0,73% do PIB global do país, no mesmo período. Parece desanimador. Mas, quando se compara o desempenho da economia com os resultados do último trimestre do ano passado, o PIB cresceu 1,34%. Como a indústria e os serviços ainda não decolaram neste ano, a agricultura mais uma vez compareceu com números salvadores.
Tem sido essa a regra. Historicamente ineficiente e dependente dos subsídios do governo, o campo brasileiro já foi associado com o que o país tem de mais retrógrado. De uns anos para cá, vem dando um show de progresso. Vender soja, laranja ou milho no mercado internacional parecia uma coisa menor diante do desafio de exportar artigos manufaturados para as nações mais desenvolvidas. Hoje é uma atividade tecnologicamente requintada, de alto emprego de capital e quase totalmente voltada para o mercado externo. De cada dólar que gasta com insumos importados, o campo embolsa 8 com exportações. Resultado: no ano passado, o país comemorou o superávit de 2,7 bilhões de dólares na balança comercial. O mérito foi todo da agricultura. Tomado isoladamente, o campo produziu superávit de 19 bilhões de dólares. O restante da economia teve déficit de 16,3 bilhões de dólares em suas transações de compra e venda com o exterior. Ou seja, se imaginarmos a economia do campo como um país independente, esta nação imaginária estaria produzindo superávit comercial maior que um dínamo exportador europeu, como a Bélgica que lucrou 11 bilhões de dólares no mercado externo no ano passado. O fato é que o campo se modernizou mais velozmente que as indústrias instaladas nas periferias das grandes cidades.
Delfim Martins/Pulsar![]() Colheitadeiras modernas reduziram a perda de grãos e aumentaram a produção no campo |
"Antigamente, reuniões de agropecuaristas eram um encontro com um monte de gente velha. Agora, temos uma geração de administradores jovens e com formação acadêmica", diz Marcus Vinícus Pratini de Moraes, ministro da Agricultura e Abastecimento. A imagem do fazendeiro antiquado foi substituída pela do administrador bem informado, que usa ferramentas requintadas não apenas para cultivar a terra e aprimorar seus rebanhos. Os agricultores da vanguarda rural brasileira se valem das mais novas técnicas de comunicação, como a internet e a telefonia por satélite. Na área financeira, muitos romperam a dependência de financiamentos do governo e aprenderam a contratar seguros no mercado internacional, de modo a proteger o patrimônio quando há quebra de safra por razões climáticas ou econômicas. A estrela do campo hoje em dia é o agronegócio. Antigamente, considerava-se agronegócio aquilo que era produzido da porteira das fazendas para fora. Agora, a atividade inclui as montadoras de tratores e os fabricantes de fertilizantes e defensivos agrícolas, bem como atividades desenvolvidas nas fazendas, como plantações, criação de produtos manufaturados, embalagens para exportação, silos climatizados, pesquisa e a agricultura que resulta de tudo isso. Se as fábricas de automóveis tivessem desempenho comparável ao das máquinas agrícolas, elas teriam vendido três vezes mais carros no Brasil no ano passado.
Interessante notar que a agricultura avançou sem que a área cultivada tivesse se alargado. O país semeia a lavoura em cerca de 39 milhões de hectares. Basicamente a mesma área ocupada em 1990. Já a produção deu saltos enormes e chega neste ano a quase 100 milhões de toneladas de grãos. A explicação para esse aparente paradoxo é a chave para entender o formidável desempenho do campo brasileiro. A primeira questão foi o aumento brutal da produtividade. Culturas como o algodão rendem mais que o dobro do que entregavam ao agricultor há uma década. De importador de algodão o Brasil passou a exportador no ano passado. Na média, a produtividade no campo aumentou 70% em uma década. "Isso foi um poderoso fator estabilizador da economia, pois, como se sabe, os alimentos representam 30% da composição dos índices de preços", diz André Pessôa, sócio-diretor da Agroconsult. Por sua vez, a chave do aumento de produtividade foi o alto investimento em tecnologia. Ao contrário do que ocorre com a automação das fábricas, o impacto imediato do uso intensivo de tecnologia no campo é a geração de mais empregos. Na agropecuária brasileira de padrão tecnológico alto, cada 1 milhão de reais investido representa a criação de 202 empregos. Com o mesmo montante de recursos são geradas apenas 85 vagas nas montadoras de veículos e 78 postos de trabalho na indústria eletroeletrônica. Segundo a Fundação Getúlio Vargas, enquanto o nível de emprego registrou queda nas grandes metrópoles em 2001, a oferta de vagas cresceu surpreendentemente no campo. O número de trabalhadores em pequenas propriedades agrícolas aumentou 86% no ano passado.
Renata Ursaia![]() Sala de controle de central telefônica: setor de serviços cresceu pouco no primeiro trimestre |
Como a exigência de mão-de-obra qualificada é cada vez maior na vanguarda superprodutiva do campo, os salários são também mais altos e o tipo de sociedade que se desenvolve em torno das lavouras é, em alguns casos, mais harmônico que o das capitais. Um caso típico de sucesso é a cidade de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, considerada uma das capitais do agronegócio. Dona da maior produção mundial de cana-de-açúcar, açúcar e álcool, ela já apresenta o segundo maior potencial de consumo do Estado de São Paulo. Só perde para a capital. O setor de supermercados, sensível aos humores da economia popular, cresceu 5% na região de Ribeirão Preto entre 1999 e 2001. Na capital, o crescimento mal chegou a 1%. No mês passado, a cidade sediou a Agrishow, a terceira maior feira agrícola do mundo, que movimentou mais de 1 bilhão de reais com a venda de máquinas e equipamentos. Bem, pode-se argumentar com razão que o interior de São Paulo é rico há muito tempo. Mas os exemplos da vanguarda tecnofinanceira no campo podem ser colhidos em lugares onde nem a fronteira agrícola tradicional, aquela da cultura de subsistência, havia chegado. É o caso de Lucas do Rio Verde, a 400 quilômetros da capital de Mato Grosso, uma região que em poucos anos trocou a mata virgem pela tecnologia de ponta, sem escala na agricultura tradicional. Movida pela cultura intensiva da soja para exportação, a cidade tem 22.000 habitantes e renda per capita de 12.000 reais por ano, o dobro da média nacional. O município tem 100% de suas crianças em idade escolar matriculadas em estabelecimentos públicos, desconhece as palavras desemprego, crise e criminalidade. Hoje, a agricultura de alta tecnologia e alto capital ainda é minoria em extensão territorial quando comparada às atividades rurais antiquadas. Ao olhar o processo a distância, no entanto, descobre-se que o campo novo está crescendo e o velho encolhendo.
Ricardo Benichio![]() Linha de produção automobilística em São Paulo: PIB da indústria caiu quase 4% |
Os números impressionantes que o agronegócio exibe são fruto de uma revolução silenciosa. "Em primeiro lugar, é preciso lembrar que o campo já estava globalizado muito antes de a globalização virar palavra de ordem", diz André Pessôa. Enquanto a indústria dava os primeiros passos em direção à abertura de mercado, no início da década de 90, o setor de agropecuária já lidava havia tempos com o capital externo primeiro como cliente, depois como sócio de multinacionais produtoras de tratores, sementes e adubos industrializados. Hoje, o Brasil é o terceiro maior consumidor mundial de fertilizantes e produtos agroquímicos. Todas as grandes indústrias estrangeiras do setor têm fábricas no Brasil. A cultura multinacional no campo brasileiro familiarizou rapidamente os agricultores com o comércio exterior e abriu a eles acesso ao crédito e às seguradoras. Graças a esse treino básico, eles têm conseguido sucesso mesmo num ambiente exterior hostil. Os subsídios estatais minguaram no Brasil, enquanto europeus e americanos inundaram o campo com dinheiro do governo. Os países europeus aplicam a fabulosa soma de 1 bilhão de dólares por dia em subsídios agrícolas. "Perguntei a um amigo por que ele plantava soja na França e não outro produto em que seu país é mais competitivo. Ele me respondeu que plantava soja, mas colhia subsídio", conta Valentino Rizzioli, vice-presidente para a América Latina da montadora de tratores CNH Global. Que os agricultores brasileiros consigam bater-se com os mimados europeus é um motivo de esperança para toda a economia brasileira, que precisará mais do que nunca, daqui para a frente, de exportadores guerreiros.
Com
reportagem de Leonardo Coutinho
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