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Ecstasy
para beber
O tráfico
tem sempre uma
novidade para manter o vício.
A última é o GHB
Paula Beatriz
Neiva
Um dos grandes
prazeres de Maurício, um paulistano de 24 anos, é varar
a noite na maratona das raves, megafestas que reúnem milhares de
pessoas ao som de música tecno. Para ele, noitadas assim exigem
uma receita especial: luzes estroboscópicas, ritmo bate-estaca
e... algo mais. "Alguma coisa que me faça sentir como se a música
entrasse em minha cabeça de uma maneira diferente, mais intensa",
diz. Esse "algo mais" já foi o ecstasy, uma mistura de alucinógeno
com anfetamina, conhecida como "droga do amor" ou, simplesmente, "E".
Hoje, o combustível preferido de Maurício é o GHB,
sigla para ácido gama-hidroxibutírico. Batizada de "ecstasy
líquido", a nova droga conquista um número cada vez maior
de jovens brasileiros especialmente aquela turma capaz de passar
horas e mais horas sacolejando nas pistas de dança. "As emoções
vão e vêm como uma onda. Fico sem noção de
tempo, espaço ou velocidade. Só sinto a música",
descreve Maurício, que, por motivos óbvios, prefere se manter
no anonimato.
Vendido
sob a forma de pó ou já diluído em água, o
GHB é incolor, não tem cheiro e o gosto é levemente
amargo. Por ser consumido sob a forma líquida, começa a
fazer efeito em, no máximo, meia hora contra as duas horas
exigidas pelo ecstasy. Se misturado com álcool, como geralmente
acontece, o GHB fica bem mais potente. E perigoso. Seus malefícios
vão das náuseas e vômitos ao risco de morte. "Trata-se
de uma droga tão forte que o uso experimental pode levar a quadros
sérios, como a overdose e o coma", diz o psiquiatra Dartiu Xavier
da Silveira, diretor do Programa de Orientação e Atendimento
a Dependentes da Universidade Federal de São Paulo.
A chegada
do GHB às danceterias das grandes cidades brasileiras é
um emblema de como os traficantes funcionam. Chamá-lo de "ecstasy
líquido" não passa de uma estratégia de marketing
do submundo. Com a analogia, eles pretendem conquistar o mesmo público
já adepto das pastilhas de "E". Apesar dos efeitos parecidos, o
ecstasy e o GHB são quimicamente díspares: um é estimulante
e o outro, depressor do sistema nervoso central. Em meados dos anos 90,
com a moda clubber, o GHB entrou para o rol das chamadas club drugs
as drogas de boate, das quais fazem parte também o ecstasy
e a ketamina, um analgésico para cavalos usado como alucinógeno
nos clubes noturnos. A morte de uma estudante americana de 15 anos por
overdose de GHB, em 1999, levou o governo dos Estados Unidos a proibir
a fabricação da substância.
É
vital ao mercado das drogas estar sempre abastecido de novidades
seja para satisfazer consumidores que buscam "baratos" diferentes e mais
potentes, seja para compensar a falta de um determinado entorpecente.
E as drogas sintéticas são as mais convenientes e lucrativas
para os traficantes. "Essas substâncias podem ser produzidas por
uma única pessoa, em um laboratório de fundo de quintal",
afirma o delegado Getúlio Bezerra dos Santos, chefe da divisão
de repressão a entorpecentes da Polícia Federal. "Diferentemente
da cocaína e da maconha, dispensam o plantio, a colheita, o processamento
e a distribuição da matéria-prima." Para os usuários,
as drogas sintéticas são mais práticas e discretas
de consumir. Não requerem o ritual de preparação
de cigarros de maconha ou carreiras de cocaína.
Criado como
anestésico para uso hospitalar nos anos 60, o GHB logo foi deixado
de lado devido à dificuldade dos médicos em precisar a dose
ideal para cada paciente. Vinte anos depois, a substância voltou
a ser consumida como anabolizante, graças a seu poder de inflar
músculos e queimar gordura. O primeiro caso no Brasil de problemas
decorrentes do uso de GHB foi registrado em fevereiro passado por um neurologista
de São Paulo, Celio Levyman. Um paciente seu, atleta de 22 anos,
tomou a droga na academia, antes da sessão de musculação.
Algumas horas depois, o rapaz foi levado ao hospital, onde entrou em coma
profundo. Por sorte, o jovem resistiu. Os adeptos da nova droga podem
não ter a mesma sorte.
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COQUETEL
EXPLOSIVO
Você já ouviu falar de sextasy? Pois essa é
a nova mania nos Estados Unidos. Sextasy é o nome dado às
festas aditivadas por uma combinação explosiva de
duas pílulas: uma de Viagra e outra de ecstasy. Bumm!!! Ingerido
sozinho, o ecstasy aumenta a libido, mas compromete o desempenho
sexual masculino. Por ser uma substância vasoconstritora,
o ecstasy impede o aporte de sangue para o pênis, o que dificulta
a ereção. Ou seja, o consumidor se anima, mas, na
hora H, nada. Para compensar o indesejável efeito colateral,
inventaram de combinar o ecstasy com o Viagra, o remédio
que combate a impotência. No que se refere aos vasos sanguíneos,
a droga contra a disfunção erétil, lançada
pelo laboratório Pfizer, em 1998, tem efeito oposto. Ela
dilata as veias e artérias, aumentando o fluxo de sangue
para a região peniana, o que facilita a ereção.
A novidade nasceu entre os gays nova-iorquinos, em meados do ano
passado, e se espalhou pelo país.
O ecstasy é uma droga ilegal e, dada a sua difusão
na noite brasileira, tornou-se um dos alvos da Polícia Federal,
que todos os anos apreende aproximadamente 20 000 pílulas
do produto. Há cerca de um mês, os policiais encontraram
numa casa em São Paulo 6 000 pílulas de ecstasy que
seriam levadas a uma megafesta na cidade. O ecstasy é em
si uma droga de alto risco. Sua ingestão pode provocar dependência,
taquicardia, desidratação, elevação
da temperatura corporal e depressão. Quando utilizado em
associação com o Viagra os riscos aumentam. E o principal
prejudicado é o coração. "Esse misto pode causar
danos incalculáveis à saúde, como infarto e
derrames", diz Maria Thereza de Aquino, coordenadora do Núcleo
de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas,
da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Há o risco ainda
de outras complicações. Alguns médicos americanos
já atenderam pacientes vítimas de priapismo, estado
em que a ereção dura mais de seis horas e pode causar
sérios danos ao tecido nervoso do pênis. O priapismo
pode levar a uma impotência cuja única cura é
o implante de prótese.
As autoridades médicas dos Estados Unidos estão preocupadas.
Há uma centena de estudos provando que, sob o efeito de drogas,
as pessoas tendem a dar pouca atenção ao sexo seguro.
E aí está outro motivo de apreensão gerado
pela entrada em cena da dupla Viagra-ecstasy. Com as tais sextasies,
aumentam os riscos de propagação das doenças
sexualmente transmissíveis, entre elas a Aids.
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