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Edição 1 754 - 5 de junho de 2002
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A batalha pelos retalhos

Depois de Serra, Lula entra na disputa
para ter apoio do PMDB – qualquer PMDB

Maurício Lima


Frederic Jean
Quércia, que negocia uma aliança informal com Lula: para sair do jejum de uma década


Fundado em 1966 e rebatizado em 1980, o PMDB já esteve no centro de gloriosas jornadas cívicas, como o combate político à ditadura militar, a campanha pelas eleições diretas e o impeachment de Fernando Collor. Nos últimos anos, desmoralizando a própria trajetória, o partido perdeu a consistência e tornou-se uma hospedaria na qual se misturam militantes históricos e arrivistas de gazua, líderes respeitados e políticos de arrombadelas. Sem rumo, a legenda tinha tudo para ser tratada como um bando desgarrado. Mas, como ainda é o maior partido do país e tem uma respeitável fatia de tempo de televisão para a campanha presidencial, o PMDB virou o alvo preferencial do cortejo dos presidenciáveis. O primeiro a propor casamento foi o tucano José Serra, que abriu as portas de vice à deputada peemedebista Rita Camata e agora espera que o PMDB, em convenção no dia 15 de junho, aprove uma aliança com seu partido. Na semana passada, quem mostrou apetite para disputar as sobras do PMDB foi Luís Inácio Lula da Silva, do PT – e o fez com um discurso de surpreendente desprendimento.

Na tentativa de atrair a ala do partido que vive sob a influência do ex-governador Orestes Quércia, Lula até falou bem do ex-rival. "Não houve acusação concreta contra o Quércia", afirmou, ao amenizar as suspeitas de corrupção contra o ex-governador, que deixou o Palácio dos Bandeirantes em 1991 e, naqueles tempos, foi acusado pelo petista de ser "ladrão de carrinho de pipoca". Há seis meses, o PT negocia discretamente o apoio de Quércia. Há dois, o próprio Lula almoçou com o ex-governador. Só não tinha, até agora, aceitado o papel de fazer a "defesa ética" de seu conviva. Nos termos do acordo que está sendo discutido, os quercistas apoiariam Lula e, em troca, o PT lançaria apenas um candidato ao Senado, o hoje deputado Aloizio Mercadante, deixando vazia a segunda vaga. Com isso, Quércia, que é candidato ao Senado, teria mais facilidade para se eleger – e voltaria finalmente à política depois de um jejum de mandatos na década de 90. Quem se arriscaria a prever que Quércia poderia um dia renascer das cinzas com um empurrãozinho do PT?

 
AP
Gregg Newton/Reuters
Antonio Milena
Liane Neves
O candidato do PT (no alto) e seus interlocutores no PMDB, Sarney, Itamar e Simon: tentativa de semear "uma certa cizânia"

A estratégia petista é fracionar o PMDB, cuja tendência é apoiar Serra. "Queremos criar uma certa cizânia na base governista", admitiu Lula. Pela mesma razão, a cúpula do PT tem simulado indignação com o tratamento recebido pelo senador Pedro Simon, do PMDB gaúcho, que foi preterido como vice de Serra em favor de Rita Camata. Os dirigentes do PT vêm cobrindo o senador de consolos maternais e propalam que gostariam até de vê-lo como vice de Lula. É mais afago do que realidade, pois nem Simon parece disposto a topar a empreitada nem o PT dá sinais de que renunciaria ao vice dos sonhos, o senador José Alencar, do PL de Minas Gerais. Com essa estratégia na cabeça, os petistas têm falado em barrar a aliança formal do PMDB com os tucanos na convenção – e, quem sabe, levar os peemedebistas para o balaio do próprio PT. De novo: mais cizânia que realidade. "Apoio ao PT é factóide. Teremos em torno de 65% dos votos", prevê o deputado Geddel Lima, líder do PMDB na Câmara, aquele a quem os companheiros chamam de "agatunado" e que tem dado apoio felino a José Serra.

A aproximação do PT com os peemedebistas, em especial com o ex-governador Orestes Quércia, tem causado certo espanto devido à renúncia dos petistas ao seu conhecido "purismo ético". É preciso reconhecer, porém, que qualquer candidato que se aproxime do PMDB corre risco iminente de levar canelada. José Serra, além de ter Geddel Lima como um de seus grandes eleitores no partido, conquistou o apoio da chamada "ala governista" do PMDB, uma fieira heterogênea que inclui, por exemplo, Jader Barbalho, o ex-senador do Banpará, da Sudam, do ranário... Como todos os candidatos necessitam de votos, todos vão atrás deles onde quer que estejam – e, dado o tamanho do PMDB, ninguém pode desprezá-lo. A diferença é que Serra tem sido um pouco mais cuidadoso que Lula, evitando associar sua imagem àqueles políticos que, em vez de apoio, podem atrair rejeição. Nunca se viu Serra, por exemplo, fazendo a "defesa ética" de Jader Barbalho.

Com alguma freqüência, a busca de apoios dentro do PMDB leva a notórios constrangimentos. Na semana passada, o presidente Fernando Henrique Cardoso teve de convidar o senador Ney Suassuna, do PMDB da Paraíba, para voltar ao governo como ministro da Integração Nacional. Um assessor informal de Suassuna, recentemente, foi flagrado carregando malas de dinheiro pela rua – e está sob investigação. É possível que o senador nada tenha com isso, como vem afirmando, mas não é propriamente um bom momento para convidá-lo a ser ministro. O convite, porém, era apenas mais um afago obrigatório. Suassuna ficaria lisonjeado com tamanha deferência presidencial, recusaria o convite e, em seguida, deixaria os 32 convencionais do PMDB da Paraíba apoiar Serra na convenção do mês que vem. Até agora, o plano está dando certo: Suassuna ficou encantado com Fernando Henrique, recusou o convite e autorizou seus correligionários a pousar no ninho tucano. Resta saber se na convenção, e depois dela, o PMDB adotará um rumo único ou seguirá se comportando como biruta.

 
 
   
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