Prova de fogo

Laboratórios começam a testar em humanos
uma nova geração de drogas contra o câncer


Fernando Luna

 
 

Pulmões de ratos atacados pelo câncer. Embaixo, pulmões que tiveram câncer mas foram tratados com endostatina, substância descoberta por Folkman

Na surdina, mais de uma dezena dos maiores laboratórios farmacêuticos do mundo disputam uma corrida que tem o prêmio estimado em 1 bilhão de dólares é quanto se imagina que movimentará uma nova droga que combata o câncer. Todos eles estão atrás de uma substância que bloqueie o suprimento de oxigênio e nutrientes para os tumores, de modo a matá-los de fome. Vinte drogas já estão sendo estudadas e pelo menos oito começaram a ser testadas em seres humanos. Essa nova linha de anticancerígenos vem no rastro da descoberta do médico americano Judah Folkman, do Children's Hospital da Universidade Harvard. Há exato um ano, ele anunciou ter descoberto como dizimar tumores cancerosos em ratos. Mostrou resultados impressionantes. Nas duas fotos menores que ilustram esta reportagem, publicadas na última edição da revista americana Business Week, aparecem pulmões de ratos consumidos pelo câncer. Em seguida, os retratos de pulmões absolutamente limpos e saudáveis. Os ratos da segunda foto também tiveram câncer, mas foram tratados com endostatina, uma das drogas dessa nova geração.

As reações aos experimentos de Folkman foram eufóricas. Exageradas, até. Imaginou-se que o médico havia encontrado um caminho que levaria rapidamente à cura do câncer a terceira mais freqüente causa de mortes, vitimando 6 milhões de pessoas ao ano em todo o mundo. Exatamente doze meses depois do alarido, as avaliações estão mais realistas. Ninguém fala mais em cura definitiva do câncer, mas em uma preciosa ferramenta a ser usada ao lado de tratamentos convencionais, como a quimioterapia e a radioterapia.

Novo Darwin? Em suas experiências, o doutor Folkman conseguiu eliminar o câncer nos roedores com eficiência jamais vista. A estratégia de combate à doença tinha o frescor e a originalidade peculiares àqueles saltos científicos que surpreendem a humanidade de tempo em tempo. Em vez do tradicional ataque direto aos tumores, a proposta era isolar o câncer (veja quadro). O método parecia incrivelmente simples: duas substâncias, a angiostatina e a endostatina, bloqueariam os vasos sanguíneos responsáveis por levar oxigênio e nutrientes para o tumor, que então regrediria até não oferecer mais perigo. Folkman chegou a ser comparado a Charles Darwin, o formulador da teoria da evolução das espécies, pela importância de sua descoberta.

O frenesi passou. "O problema é que os tumores humanos em estágio mais avançado possuem uma rede vascular veias e até artérias muito mais complexa do que o câncer de roedores. E as drogas não são capazes de bloqueá-la totalmente", explica Agnaldo Anelli, chefe do departamento de oncologia clínica e quimioterapia do Hospital do Câncer, centro de referência em São Paulo para o tratamento da doença. Isso não desmerece a estratégia proposta por Folkman, apenas a coloca na escala real. Contra uma doença tão complexa e fulminante quanto o câncer, especialistas acreditam que abordagens combinadas se mostrem mais eficazes. A dobradinha entre quimioterapia e isolamento do tumor parece ser promissora. Enquanto a quimioterapia atacaria a estrutura genética das células cancerosas, emperrando sua multiplicação, as novas substâncias cortariam o suprimento energético do tumor.

Se ficou claro que Folkman não operou nenhum milagre curativo, também é evidente que sua estratégia inaugurou um campo novo de pesquisa. A angiostatina e a endostatina já não estão mais sozinhas. Começam a ser criadas outras drogas com efeito semelhante Marimastat e Neovastat são duas em estágio avançado de desenvolvimento. Mas ainda terão de ser realizados testes humanos em larga escala antes que algum laboratório proponha a comercialização dos novos medicamentos. O tempo para que isso ocorra? Ninguém se aventura a responder.

Ótima resposta O laboratório californiano Sugen é um dos que iniciaram estudos em seres humanos. No encontro da Associação Americana de Pesquisa sobre Câncer, realizado no mês passado, Jerry McMahon, vice-presidente de desenvolvimento de drogas do Sugen, anunciou que o novo medicamento vem apresentando "ótima resposta aos testes". Agora em maio, o laboratório pretende divulgar oficialmente os resultados dos primeiros testes em gente como a gente.

Para Folkman, notícias assim são encorajadoras. Seis meses depois do anúncio de sua descoberta, o Instituto Nacional do Câncer, uma instituição americana respeitadíssima, levantou dúvidas em relação à pesquisa. Só no início deste ano os pesquisadores do instituto conseguiram reproduzir as experiências de Folkman, sempre em ratos.

É até comum que descobertas médicas depois de saudadas efusivamente caiam rapidamente em descrédito e vice-versa. "Foi o que aconteceu com a cisplatina, apresentada na década de 60 como uma substância revolucionária para tratar alguns tipos de câncer", lembra o oncologista Sergio Simon, médico do Hospital Albert Einstein, de São Paulo. "Pouco depois, foi abandonada devido a seus efeitos tóxicos. Os estudos avançaram, aprendeu-se a utilizar melhor a substância, e hoje a cisplatina é uma das drogas mais eficientes para combater o câncer de ovário." Pode-se dizer que os achados de Folkman estão passando por aquele teste de fogo que costuma seguir-se às grandes descobertas. Por enquanto, está vencendo. A prova está no interesse dos grandes laboratórios.





Copyright © 1999, Abril S.A.

Abril On-Line