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Venezuela O
coronel vem aíCom
popularidade de recém-empossado, o presidente Chávez
apresenta sua retórica ao país Paulo
Moreira Leite, de Caracas Com 44 anos, pele de índio, cabelo duro de mestiço e a infância pobre
vendendo doce na rua, o presidente da Venezuela, coronel Hugo Chávez, chega a
Brasília nesta quinta-feira exibindo um feito histórico. Com 57% dos votos, foi
o primeiro político venezuelano criado fora das grandes máquinas partidárias a
vencer os espertalhões que dominam a política do país. Empossado há três meses,
numa cerimônia esdrúxula em que chamou de moribunda a mesma Constituição que é
obrigado a defender sob juramento, conserva a popularidade de presidente recém-saído
do forno. Sua aprovação passa dos 80% e, há uma semana, 90% do eleitorado que
foi às urnas disse sim a sua proposta de convocar uma Assembléia Constituinte
para passar um bisturi nas instituições. Abrigo da segunda maior reserva
de petróleo do mundo, só inferior à da Arábia Saudita, e de uma massa de miseráveis
que cresce ano após ano, na Venezuela o relógio político obedece a outro fuso
horário. A maioria dos países do continente enfrentou ditaduras militares nos
anos 60 e 70. A Venezuela teve uma ditadura entre 1948 e 1958, mas, quando os
vizinhos sofriam sob regimes fardados, usufruía uma democracia estável. Nos anos
70, o Peru e a Bolívia foram governados por outro tipo de generalato, o dos militares
nacionalistas. Com um palavreado inspirado em Simon Bolívar, o herói da independência
da América espanhola, Chávez pertence a essa segunda família. Em 1992, comandou
um golpe para derrubar o presidente eleito Carlos Andrés Pérez. Derrotado e preso,
saiu da cadeia, dois anos depois, mais admirado do que nunca. Carismático
e falante, Hugo Chávez faz barulho por onde passa. Ele diz que está à frente de
uma revolução destinada a mudar seu país de cima a baixo. Anuncia que a Constituinte
deverá criar uma "nova democracia" e garante que a única solução para
os povos da América Latina é cerrar fileiras em torno de um bloco econômico e
político. Como era de se imaginar, muita coisa do que Chávez diz é verdade e boa
parte da indignação que expressa é justíssima. A Venezuela chega a ser apontada
como o país mais corrupto da América Latina, atrás do Paraguai. Tem um PIB de
67 bilhões de dólares – mas estima-se que seus magnatas
acumulem uma fortuna equivalente em paraísos fiscais. Chávez foi eleito em urna
– diferença decisiva em relação a outros militares
do continente. Planeja fazer reformas por meio de uma Constituinte, em vez de
se valer de baionetas. Parabéns. Mas tais credenciais não bastam para transformá-lo
num democrata sem retoques. Em menos de 100 dias o presidente já produziu
muitos barris de esquisitices. O deslumbramento pelo ditador cubano Fidel Castro
é tão descarado que nos meios diplomáticos se dá como certo que Chávez submeteu
o discurso de posse a Fidel para leitura prévia. Ele escandalizou o país quando
se soube que enviara uma carta ao célebre terrorista venezuelano Carlos, o Chacal,
responsável por vários atentados na Europa, com explosão de bombas, assassinatos
e seqüestros. Carlos cumpre pena de prisão perpétua na França. O presidente alega
razões humanitárias para a correspondência. É um caso de humanismo toma lá, dá
cá. Depois da carta, na qual o terrorista é chamado de "querido compatriota",
um jornal de Caracas publicou uma entrevista do Chacal apoiando a campanha de
Chávez pela Constituinte. A tradição venezuelana garante, a todo presidente
recém-empossado, um cheque em branco de seis meses, para legislar por decreto
sem necessidade de negociar cada idéia nova no Congresso. Numa manobra para receber
esses poderes especiais numa escala maior que a habitual, Chávez mobilizou cabos
eleitorais para ameaçar deputados e senadores com xingamentos e muita arruaça.
Também entrou em conflito com a Suprema Corte sobre o caráter da Constituinte
depois que os juízes disseram que ela poderia fazer as mudanças que quisesse nas
instituições – menos dissolver o Congresso ou reformar
o Judiciário. Outro exemplo. Perguntado por VEJA em entrevista exclusiva se está
arrependido pelo golpe de 1992, sua resposta é clara: "Não. Alguém tinha
de fazer aquilo". A maior riqueza da Venezuela, o petróleo, é de certa
forma seu grande problema. Metade de toda a renda do país é obtida com a venda
do mineral. Com essa peculiaridade, a Venezuela organizou-se em torno desse produto.
O petróleo paga as delícias dos barões da economia, as pensões dos aposentados,
os trocados dos miseráveis escondidos nas favelas de Caracas. Também fornece subsídios
de todo tipo. Nos choques dos anos 70, quando o preço do barril disparou, a Venezuela
viveu uma revolução econômica sem fazer força. A população enriqueceu tanto que
cozinheiras e faxineiras tinham de ser importadas da Colômbia para o serviço doméstico.
"Choveu ouro durante quatro anos", define o economista Celso Furtado.
Em sua própria versão de década perdida, a Venezuela desperdiçou a chance de diversificar
a economia e romper a dependência do petróleo criando pólos de riqueza. Torrou
bilhões em bens de consumo de luxo, automóveis importados e gastos improdutivos.
Quando o preço do barril começou a cair, o país empobreceu junto. A pobreza venezuelana
não é a carestia de quem nunca teve nada, mas tem aquela feiúra de quem está decaindo.
As ruas estão cheias de velhos Cadillac fumarentos e Pontiac amassados, pois falta
dinheiro até para uma boa guaribada. Os antecessores de Chávez nada fizeram
para encarar a nova situação. Andrés Pérez acabou preso por corrupção. Rafael
Caldera quebrou os maiores bancos do país e deu-se por satisfeito apenas por chegar
ao fim do mandato. Até agora, a única idéia econômica de Chávez foi manter no
governo a mesma equipe que comandava o Ministério da Fazenda no governo anterior.
Com isso, tranqüilizou os investidores internacionais, recebeu sinais de fumaça
favoráveis do Fundo Monetário Internacional e negocia os papéis do país sem maiores
atropelos. Esse comportamento revela uma postura realista. Não esconde, porém,
a falta de algum projeto racional e ambicioso para tirar o país do fundo do poço.
Desse jeito, pode-se prever que, em breve, o mesmo povo que hoje o saúda estará
na rua para cobrar a conta.
"Não sou causa.
Sou produto" Veja –
O senhor diz que preside uma revolução. Por quê? Chávez –
Depois do Caracazo, há dez anos, começou uma revolução em meu país. (Em 1989,
o presidente Andrés Pérez baixou um pacote de medidas duríssimas. Num protesto
na capital, o Caracazo, 300 pessoas morreram. Em 1992, ocorreram duas tentativas
fracassadas de golpe de Estado. Na primeira, comandada por Chávez, morreram dezoito
pessoas. Na outra, mais de 1.000, entre os
quais centenas de civis. Em 1993, Pérez sofreu impeachment e acabou preso por
corrupção). O movimento popular me trouxe até aqui. Cheguei montado na onda
revolucionária. Não sou causa. Sou produto. Veja –
Quais os objetivos de seu governo? Chávez –
Quando um médico diagnostica um tumor, o único remédio é extirpá-lo. A Venezuela
está doente. Nossa democracia é um carnaval de dinheiro para enganar o povo. O
Judiciário vive infiltrado por uma máfia que garante a impunidade aos criminosos
com dinheiro. Veja – Na queda de
Salvador Allende, os militares chilenos também falavam em extirpar um tumor. Chávez
– Estamos fazendo uma revolução política, democrática.
Nossos métodos são pacíficos. Não queremos uma guerra civil. Por isso convocamos
a Constituinte. Queremos mudar por métodos pacíficos. Veja –
A Constituinte vai dissolver o Congresso? Chávez –
Isso dependerá do próprio Congresso. Se os parlamentares assumirem uma postura
de colaboração, positiva, se eu fosse constituinte não votaria a favor da dissolução.
Mas, se o Congresso assumir atitudes reacionárias, criar obstáculos, se eu fosse
constituinte iria querer a sua dissolução. Veja –
O senhor se arrepende de 1992, quando tentou mudar o governo por uma via não democrática?
Chávez – Não. Fizemos o que tínhamos
de fazer. Tínhamos de assumir nossa responsabilidade. Aquele governo usou o Exército
para atirar contra o povo. Veja –
Por que o senhor escreveu uma carta ao terrorista Carlos, o Chacal? Chávez
– Ele me escreveu e eu respondi. Toda vez que saio
à rua colocam bilhetes e papéis em meus bolsos. Se posso, dou uma resposta, digo
alguma coisa. Agora estou lendo a carta de uma mãe cujo filho está preso porque
roubou um carro. Se ele cometeu um crime e está cumprindo pena, isso é com a Justiça,
com as leis. Mas eu me importo com a pessoa humana. Veja –
Já que era tudo tão ruim no passado, por que o senhor manteve a ministra da Fazenda
do governo anterior? Chávez – Estamos
enfrentando uma situação econômica difícil. Em dezembro de 1998, o preço do petróleo
caiu ainda mais, dificultando a transição econômica para meu governo. Havia o
risco de colapso. Foi uma solução técnica, e os resultados são bons. |

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